Um outro lugar I

Nunca tinha ido ao sul do país. E sabia que adoraria se fosse. Não deu outra.
Ali, no interior, era o país que eu não imaginava. Era como estar numa cidadezinha europeia em pleno inverno. E quem poderia supor 17 graus em pleno verão? Foram os planetas que conspiraram para que eu comprasse uma linda pelerine cor de areia, pois meus casacos sudeste não viram a cara da mala para o sul. E também uma outra mala, que abrigaria os potes de pesto, molhos, temperos, geleias, doces; os queijos e os vinhos.
De cara, uma nova língua, um novo *cantar*. Adorável. E uma nova cultura, uma nova educação. Ó, céus, uma terra em que as pessoas conjugam os plurais corretamente e terminam as frases sem um auxiliar do plural em diminutivo, o tal *tudinho* do sudeste (p.ex., as criança_ foram tudinho à praia).
Quinze minutos ali e eu era a rainha dos pampas. Pego sotaque muito rápido. Já fui pernambucana e cearense; do Mato Grosso do Sul, voltei falando poRRRRta e poRRRtêra. Logo, logo, eu estava às voltas com bahs e tchês e cantando no final das frases. Uma delícia. E, sim, coisa boa: com um sorriso que acompanha a conclusão de qualquer coisa que se diga.
O espeto corrido, que é o nosso rodízio. A minha cara de palerma na locadora de automóveis quando o sujeito me ensina a lidar com o alarme do carro e diz: "desliga aqui e bate o arranque" = "desliga o alarme, vira a chave e liga o carro". Frango com polenta. Radicchio com bacon. Bifes de picanha. Crostatas, geleias, pão colonial. Chocolaaaaaaates! Calorias...
Vi o amor pela terra, o respeito pela terra. O amor pela história. Vi olhares apaixonados para um parreiral e para potes de geleia feita com o tomate plantado na safra anterior. Ouvi histórias de amor, de viagens, de encontros, de perdas. Pessoas que tinham o que contar, e mesmo os relatos difíceis eram acompanhados por suspiros de saudade e admiração. Vi gente que produz com P maiúsculo, que não tem medo do trabalho, que tem mãos grandes que não afanam, mas sim criam. Vi crianças uniformizadas em escolas bem-cuidadas e sem pixação nos muros. Casas com cerquinhas brancas, presépios montados no gramado, todas enfeitadas para o Natal. Vi alegria no ar, encantamento, paixão. Gente que sorri. Um tempo que não passa. Calma, contemplação, contentamento.
Eu sabia que gostaria de lá e temi isto. Porque é encontrar algo que cada vez mais me atrai. Algo que vai ao encontro de coisas que venho descobrindo e valorizando de uns tempos para cá. Uma outra forma de vida, um outro pensar, um outro olhar.
Um Brasil educado, culto. De gente que cultiva flores por onde passa. De pessoas que têm capricho com as próprias coisas e com as do próximo. E que lhe dão o desconto de não sabê-lo.




Lago Negro, Gramado



Vale dos Vinhedos, Caminho de Pedras



Vale dos Vinhedos, Caminho de Pedras



Casa da Ovelha, Caminhos de Pedra (Vale dos Vinhedos)




Igreja de São Pedro, Gramado (17:30 h, 17 graus)



... consequentemente, a pelerine
(Gramado)

Back to black II

Gripe. Assim, pá. De repente. Noite de horror. Parecia que tinham me passado pela máquina de moer carne. Pior: muito trabalho a fazer. Prazo. Não basta? Festa de Natal da família hoje a céu aberto. E eu tossindo os brônquios na atmosfera.

Um tempinho e eu já volto.

***
(...)

"Eles estão comigo. Meus amigos, meus amores, meus pais, meus avós, meus irmãos. Estão sempre comigo. Nas minhas lembranças, nas minhas referências, nos meus gostos, nos meus gestos, no meu entendimento das coisas, em tudo do meu dia, em tudo dos meus sonhos. E eu sei, eu sinto que por isso não estou só."

(...)

da ótima coluna da Ticcia

Não é bom saber que estamos sempre acompanhados, de uma maneira ou de outra, pelos nossos amores (e aí vocês entendam *amores* como quiserem, individualmente, como sentirem por um ou por mil, ou, em alguns casos, por ninguém at all)

***

Encomendei para hoje: 1 kg de minicroquetinhos de camarão e 1 kg de minipasteizinhos de queijo.
Pra não sentir gosto de nada.
Me sirvam rabanadas, peru, maionese, até o amado brigadeiro.
Hoje tudo vai ter gosto de folha.

Digo que não vou?
Oi?
Eu vou ser *aquela* que não foi à festa de Natal da famiglia?
Sim, aquela que reune integrantes dessa grande boiada de várias cidades pelaí?
Nem morta?
Failure is not an option!

(mas, putisgrila, eu tô um caco... nem eu queria ver a minha cara hoje)

Só pra deixar claro, ao chegar solto logo um ATCHOINC, peço desculpas e corro para a bandeja de espumante com meu lencinho na mão.
Um Claritin + xarope + uma taça de espumante é tudo que eu preciso hoje.

Back to black

Longe de mim provocar crises de abstinência e telefonemas preocupados (ô, lê direito onde eu escrevi *se eu não conseguir boa conexão por lá, até domingo* -- pois é, hoje é segunda, então só deu hoje mesmo), mas como boa mocinha (ops) responsável e tendo ficado longas 48 horas úteis sem produzir uma lauda sequer, agora estou correndo atrás do prejuízo e cumprindo a meta que estabeleci para não ficar tanza.

Devendo atualização do blog, relato da viagem, fotos e: darling, sou uma amiga megahorrorosa porque nem liguei pra saber se você melhorou; Linha, eu sei que você está quase cortando relações comigo, duas semanas de atraso no *vou te ligar*, mas o bicho pegou e fui laçar o bode lá no sul; JP, Bê e Bê2, um oizinho e mil beijos; Má, minha santa, eu tô enrolada, tu tá enrolada, ele tá enrolado, enfim, nós tamos daquele jeito, mas nosso café sai até o ano acabar, putz, que saudade de conversar com você; K, se começar a tremer em abstinência releia o blog desde fevereiro (huahuiahua), mas se eu não terminar dois capítulos até amanhã, vou ficar nervosa.

Pretendo fazer uma série, pequena e bonita, da minha viagem, das minhas andanças pelo Vale. Tem tanta foto, tenho tantas impressões a compartilhar, tanta coisa que eu vi, aprendi e vivi por lá em parcos cinco dias, que merece uma pequena série. Mas o trabalho e o prazo cafungam como leões e babam no meu pescoço, há prazos, contas e uma lista amarelinha na minha frente de coisas a fazer até a semana terminar. Com sorte à noite escrevo o primeiro texto e amanhã já estará aqui fresquinho.

Por enquanto, um aperitivo. De onde eu desejei não ter voltado tão cedo.




***

Advérbio

"Eu quero imensamente acreditar mesmo que ficar pode ser algo muito bom."

(mas tornei-me uma cética, quase uma ateia, praticamente uma pedra de rio nessas coisas do coração. Luto com palavras que não digo, que transbordam das veias, me fazem suar, mas eu calo, vou consentindo enquanto há tempo e peço, por favor, que não apresse o meu passo nem elimine o caminho de formigas da minha trilha. Sou o que vocês fizeram e que eu deixei que ficasse: a permanência, a impermanência e um silêncio de olhar estranho que faz as pessoas se incomodarem com a minha presença. O que olho, sinto, escuto hoje fica em carimbos aqui, sem o compartilhar, o ferver, o gesticular ao contar. Não mais prevejo fins e começos; apenas vou.)

(Ella e Todas as Outras Criaturas)
"A maldade preserva e o bem só traz rugas."

(Fabricio Carpinejar, sempre aguçado)

Acho que explica boa parte dos meus cabelos brancos que, como eu disse, multiplicaram-se impiedosamente na minha cabeça (oca) no último ano. E um (seja honesta, Min, *uns*) pé-de-galinha no canto dos olhos. "Erase them now!" -- prometia o creme. Promessas, oh, creme do tempo em que eu acreditava em promessas.
Mas não sei por quê, cruzar a ponte, ir para o outro lado é coisa que (ainda) não consegui.
Vou morrer, pois, como um maracujá esquecido na gaveta, uma uva-passa que caiu embaixo do móvel centenário.
Enrugada e bocó.

***

Minha ovéia no tubo da ressonância, roupinha cinza-me-enterra, me deram uns protetores de ouvido e aí eu senti que a coisa ia ser punk.

- Estou bem aqui, bem atrás de você -- toquei de leve a mão dela.

Tirei o anel que ela esquecera no dedo anular esquerdo (o único que pedi para mim), fechei-o com força na minha mão e relaxei. Passei a próxima meia hora me distraindo com os tun-tuns, tra-tra-tras, poc-poc-poc, patac-patac-patac da máquina da ressonância.

No fim, o autocontrole venceu o estoicismo e ela chorou, tremeu, não conseguia mover-se.

- Vamos lá, calma, reagrupa, reagrupa. Você sabe que é só um piti.

Devolvi o anel, claro.

Next!

***

Sabe gente que tem teflon? Pois é. “Mas COOOOMOOOO você pode não gostar de fulana???” É muito espanto. Pronto: não gostando.
Eu tenho uma espécie de sino amarrado à alma, um instinto, um sexto sentido, radar, chame como quiser. É aquele ar diferente que passa quando a pessoa aparece. É o não-olhar que te incomoda. É aquela coisa enguia, estranha. Fico sem saber como explicar (ok, posso te dar uns dois ou três motivos, todos aparentemente irracionais, mas quem disse que meu sino badala por coisas palpáveis e racionais?) E o que me incomoda é que eu *sinto* isso por algumas pessoas aparentemente adoráveis. As boazinhas. Ui. Odeio. Gente que parece não ter defeito, chulé, um furo de celulite na bunda e uma estria solitária que seja na barriga. Gente que não fica doente. Gente de anúncio de lançamento de prédio na Barra da Tijuca. Gente que só é feliz. Gente para quem o mundo funciona em mauve, excesso de sorrisos, felicidade artificial, tudo muito correto e bonitinho. Geralmente as queridinhas, as unanimidades de bondade, cuti-cutis, gentes finéééésimas, meu deus, como, como, como é possível você não gostar de fulana?
Já errei algumas vezes. O sino badalou enviesado. Interferência de sinal. Ok. Mas já acertei em cheio em outras e foram muitas. Certa vez, muitos e muitos anos atrás, após um *alegre* jantar de negócios, eu disse para S.: “esse cara vai aprontar, cuidado, você vai se ferrar com ele”. Olhar arregalado, imagine, gente boa pacas, e patati e patatá. Não deu outra. Meses depois, o tal 171 de carteirinha. E, claro, não sou dessas que comemora (“não disse?), pelo contrário, fico aflita, fico agoniada ao sentir essa *energia* estranha que vem de algumas pessoas. Me sinto mal, desconfortável.
Tenho faro para a coisa sonsa, o olhar de lado, a postura escorregadia, gente que anda olhando para todos os lados em desfile, mas na hora do vamos ver não te encara. Me incomoda profundamente esse sentimento. Quase me sinto culpada. Mas vai lá, meses, um ano, anos depois, a criatura apronta, se revela, mostra seu rabinho cru.
Tenho faro para o fake, para o que se estica como quem escalou o Everest, mas cai em prantos escondido no banheiro em toda a sua fragilidade que jamais ousará porejar perto dos outros. Eu pressinto essa explosão da pessoa, as células em ebulição, quase um pedido de socorro.
E raramente declaro que não gosto. Mas não gosto mesmo. De gente com teflon eu guardo a distância necessária e confortável para mim. Não crio caso, não faço cena. Vira aquela coisa de bom dia, oi e pronto. Não consigo sentar à mesa *com*, não entro em papo, não desenvolvo relação, até porque não consigo ser natural depois que o sino badala. Lamento apenas não partilhar da unanimidade, da turma de fãs empedernidos, dos ohs e ahs. Provavelmente *o outro lado* percebe essa minha falta de amor e espalha. Me economiza o momento tenebroso de responder à pergunta: “vem cá, é impressão minha ou você não vai muito com a minha cara?” Porque aí, putz, vai ser chato pra caramba, mas num contexto pessoal eu vou dizer “não é impressão sua”, vou me virar e deixar correr o relógio. Provavelmente é recíproco. Mas eu não fico pra apostar.
Necepá?


***

"Tenho uma semana de férias e vou passá-las no Piauí?"

Sei lá. Cismei que quero ir ao Piauí.
Entrei numa página de turismo do Piauí e fiquei lá procurando os motivos da vontade que deu e não passou.
Muita coisa bonita.
Mas aí li no meio de um texto falando de uma reserva natural a palavra "calango", camaleão.
Foi o que bastou.

Acho que vou ali pro Sergipe.

***

Foi eu marcar uma pequena viagem, foi reservar uma semana al mare e ao sol com a matilha e me entra um tijolaço de trabalho.
Ligo, não.
Vai comigo, volta comigo e seremos felizes assim.

***

Amanhã quase-lindo faz a prova da Universidade de Cambridge, a última.
Dedos cruzados.

***

Se eu não conseguir conexão, até domingo.

Les plantes en pots



ô, que lindo!
me dei de presente de Natal
acabou de chegar
\O/



(se alguém se interessar, tem no site da Livraria Francesa em SP; entregam direitinho, vapt-vupt)

Indo e vindo

Mas é claro que foi um domingo perfeito, e nem sou flamenguista, mas valeu o bom humor da matilha, os sorrisões de dentes brancos mega-whitening effect e eu me revolvendo na cama até sei lá que horas porque o quase-lindo, embuído de toda a paixão rubro-negra, resolve enfiar-se na tal comemoração coletiva, ó céus. E eu, tolinha, quase-tranquila ou com cara de, pensando "ah, mas tá perto da casa de mamis (vóvis), qualquer coisa chispa pra lá". E mamis e sister ouviam de longe aquela baderna, aquela coisa de vizigodos trogloditas que perdem a medida por conta de uma bandeira e meio litro de chope. E sorte minha que não assisto ao Fantástico, que mostrou ao vivo e em cores o festival de ignorância e violência que tomou conta do meu amado quarteirão. Só que eu estava anestesiada porque se Luma tinha Ike no pescoço, se Carrie tinha carrie em brilhantes no pescoço, eu tenho 'rainha' no pescoço. Putisgrila, eu tinha que viver para sentir esse peso na minha cervical: eu, a 'rainha'. Vê se pode!
Mas então o quase-lindo volta pouco depois da meia-noite, sem voz, bronzeado pelas quatro horas passadas dentro do Maraca, fedendo a gambá com prazo de validade vencido, feliz da vida. Como é bom ter 18 anos e seu time ser campeão! Eu sei, eu sei, devíamos usar a mesma "energia" das hordas contra a corrupção, o desmatamento, as emissões de carbono e os animais maltratados, mas somos assim mesmo, né não; a gente não presta, só serve pra comemorar título de futebol, babar na frente das bundas das passistas no carnaval, fazer 'oh' na frente da árvore da Lagoa. É o que somos, minha gente. Nascemos pra cajuzinho, não chegaremos a bavaroise de cerises.
Já que estava me achando mesmo, acordei de madrugada, alisei meu título de nobreza e fui pintar os cabelos. Que criatura sã pinta os cabelos quando o dia está nascendo? Uma que está com graves problemas de gerenciamento do próprio tempo esta semana. Tenho que apertar trabalho, pastoreio da minha ovéia à ressonância magnética, mil e duzentas providências a tomar para embarcar o lindo para a França com todos os 57 remedinhos na bolsinha e roupas quentes o suficiente e uma pequena viagem particular minha. Então, tinta no cabelo! Eu não tenho cara de pau de mostrar meus brancos (acreditem, procriaram em progressão geométrica no último ano) e minhas raízes assim; se ainda fosse linda ou quase-linda, vá lá, mas jack o destino assim não o quis, l'oreal neles.
Na falta daquela de sempre, optei por um tal 'castanho marrom claro' e, quinze minutos depois de instalar a gororoba na gaforinha, vi a pasta tornar-se algo entre o vermelho e o acobreado. Oh, céus, é o que me falta! Ruiva? Mas nem era ruiva "oi, sou excêntrica por quatro semanas enquanto esse troço não sair do cabelo", mas sim "ruiva errei a mão na tinta". Muita água depois, respirei aliviada pelo "só marrom". Ufa! Eu ainda era eu e os porteiros do prédio ainda me reconheceriam.
Lembrete, pois: "não faça nada movida pela felicidade fugaz".
(eu sei que 'fugaz' é pessimismo, mas já matei Pollyanna a golpes de marretadas seguidos por uma aplicação de lança-chamas há tempos, então fico com o 'fugaz' mesmo, é melhor assim, não cair de boca nela como se fosse um pudim de leite com calda de caramelo)





antes que acusem o meu ego, não, não, NÃO! Não fui eu que fiz, viu?
Sei que vou ser esquartejada em praça pública pelos (pseudo) intelectuais de plantão, mas hoje fiquei com os olhos cheios d'água ao ver a torcida do flamengo, e preciso dizer também -- muito importante -- que eu amo a árvore de natal da Lagoa.

Pronto, falei, sei que é horrível, puxa vida, *muitas gentes* (é ouvi trudia) vão deixar de ler o meu blog porque eu fico ma-ra-vi-lha-da cada vez que saio do túnel e dou de cara com aquela belezura. Vai piorar muito se eu disser que a-do-ro Alcione (a Marrom, deus do céu, um luxo da voz daquela mulher!), cajuzinho, anelzão e a música Corazon Partido com Alejandro Sanz? Ok, podem sair; foi bom conhecê-los.

Fazer o quê?

***

Segui um bom conselho e hoje repousa em minha mão literalmente a visão da esperança.
Ou da fé.
Acho que merecíamos que eu apostasse um pouco, não é?
Let us have a happy Sunday.
And a happy life.

***

Feliz porque minhas unhas estão crescendo de novo.
Oito meses depois, e eu sentia uma baita saudade delas.
Fora que algumas tarefas domésticas (e não-domésticas) são impossíveis sem elas.
E olha que já tem até uma base incolor por cima.
(Ih, pronto, fechei a tampa do caixão: eu pinto as unhas com base incolor tsc, tsc, tsc)

***

Dava um tratado antropológico o brunch festivo de hoje.
(*blush*, segundo a moça que faz as reservas)
Nobreza falida, novos ricos, gente afetada, gente com cara de pum, gente com bolsa que dava para pagar um ano de cesta básica para muitas famílias, gente que definitivamente não tem gosto...

***

Lendo o jornal de domingo, me empolguei com uma receita.
Até ler *com musseline de cenouras*.
Gente do céu!
O que vem a ser musseline de cenouras???
Lembro que musseline era um tecido que se usava em vestidos finos.
Vai ver não se usa mais.
Passou para a categoria vegetal, acompanhamento, *side dish*.

Ho, ho, ho - parte um

Saída do shopping pós-compras de Natal.
Humor instável.
Calor.
Prenúncio de temporal.
Pá de gente.

Dou as últimas tragadas no meu cigarro, apago a guimba no cinzeiro da rua e entro num táxi parado à porta do shopping.
Ar condicionado angelical.
Ufa.
Digo o destino.

Motorista:

- A senhora desculpe, mas vou abrir um pouco a janela para *sair o cheiro que entrou com a senhora*.

Eu:

- Oh, sim, sem problemas, mas o senhor desculpe, por favor, tampe esse vidrinho de desodorizador de carros porque o cheiro me enjoa, vai ficar entranhado em mim e eu sou alérgica a cheiros doces.

Não trocamos mais uma palavra até o destino.
Ah, *vai se*, né, não?

***

À porta de um restaurante mais tarde.

Chegam hordas de gente, um casal salta de um táxi.
Ele, por volta dos 60 anos.
Ela, por volta de 20.

Um terceiro homem vai ao encontro deles de braços abertos:

- Oh, que bom! Finalmente vou conhecer sua mulher!

A moça:

- O QUÊ????? VOCÊ É CASADO????

Não fiquei pra ver o embroglio final.
Vai que debaixo da saia da moça mora um pitbull assassino...

***

Quase-lindo passou no exame de direção.
Sem faltas.
U-hu!

Chega em casa, joga-se na minha cama e então constata:

- Bem, agora vou ter que dirigir um carro, né?
- Né.
- Qual?
- Poizé.

De volta, pois, à realidade da Calói.

***

Não achei a menor graça nos comentários ridículos e debochados sobre determinada pessoa que suicidou-se -- foi encontrada morta, sozinha, em seu apartamento.
Um suicida não é motivo de piadas.
Foi um deprimido e/ou sofreu de depressão grave.
Depressão não é frescura, não é mimimi, não é *fraqueza*.
E suicídio não é vingança, *fraqueza*, covardia.
Muito menos motivo de chacota.
Quem comete um ato desses é digno de, no mínimo, compaixão.
É o ápice do sofrimento; é um ato irracional; é a mais pura manifestação de desespero.
Fim de linha. Ausência de soluções. Solidão em grau máximo.
Desconfio dos *estoicos* que criticam o suicida.
Esses, sim, os verdadeiros *fracos* -- não se permitiram nunca e jamais se permitirão descer com tudo e bater a bunda no fundo do buraco da depressão. Não saberão jamais o que é fazer o caminho de volta e quanta coragem, determinação, força e fé são necessárias para se fazer tal caminho.
Olhar-se no desespero, na dor, no sofrimento mais profundo -- mas olhar-se mesmo, sem filtros -- é coisa para poucos.
Para os fortes.
Coisa que os que vivem só do pescoço para cima não têm a mais remota ideia.

***