Das laudas para o coração

Então mais um 30 de setembro que eu, particularmente, comemoro há 22 anos como o dia dedicado à minha profissão - tradutor.

A formatura não é lá muito glamurosa; os parentes torcem o nariz quando você diz que é tradutor; duvidam que você sustente uma família com o seu trabalho; amigos e 'simpatizantes' teimam em pedir que você traduza o manual do videogame do pimpolho e, geralmente, você precisa 'desenhar' o que faz ao se declarar tradutor em entrevistas, papos ou preenchimento de questionários e formulários.

Ok. Qualquer ameba passa num vestibular de Letras? É o que dizem. Não sei. Lembro de ter estudado pacas. E qualquer um conclui o curso com um mínimo de esforço. Depende. Saí da faculdade e lembro de colegas que sequer tinham entrado na biblioteca uma só vez para estudar ou consultar uma referência.

Daí você ganha o anel de pedra roxa, o canudo e parte para o mercado. E descobre que o mercado parte com você. Notebook chique, dicionários caríssimos e pesados, programas state-of-the-art e, algumas laudas depois, você descobre que não é nada disso. É saber ler. E saber escrever. Entender, basicamente. Estudar, estudar, estudar. Os que criam limo, 'mexem' com tradução.

Um médico não 'mexe' com medicina. Um engenheiro não 'mexe' com cálculos. Um professor não 'mexe' com educação. Mas o tradutor, ah, sim, este 'mexe' com tradução. Só me vem à cabeça um tradutor abraçado a uma folha de papel sulfite dançando lambada. Foi o que aprendi com três profissionais que não 'mexem' com tradução e que me ensinaram, ao longo de cursos e palestras, a devida valorização que EU deveria dar ao meu ofício: Danilo Nogueira, Isa Mara Lando e Lia Wyler - não por ordem de importância; foi alfabética mesmo e proposital. Meus ouvidos estiveram bem apurados para ouvir o que me diziam. E minha mente aberta para me autocriticar constantemente, para ser uma profissional cada vez mais exigente e caprichosa (e por que não 'orgulhosa') com o meu ofício.

Hoje, 22 anos depois daquele dia de julho inesperadamente quente em que fiz como oradora o discurso da minha formatura, lembro com carinho, orgulho e satisfação esse caminho. O das noites viradas, o dos orçamentos negados, o dos risos e choros, o de cansaço e trégua; os pesados livros de medicina na cama na hora de dormir para estudar anatomia e fisiologia; o das pesquisas na rede para ouvir uma dúzia de sons cardíacos diferentes buscando o melhor termo para definir um sshhh-plá; mas principalmente o de encontros com colegas, com profissionais como eu, com as mesmas dúvidas, angústias e lutas, prazeres e perdas, tendinites e poucos dias de férias por ano.

Os amigos que eu fiz através do meu ofício são os melhores hoje. Não os teria feito se não fosse a tradução. E o quanto que aprendo com eles, e o quanto nos ajudamos! Nas laudas e na vida.
Das laudas para o coração. Sem escalas.

É deles, é meu, é nosso este dia. No qual comemoramos a grande paixão que é fazer diferença.

Feliz dia do tradutor para todos nós.

***

Update

Como os filhos não se manifestaram e hoje eu tenho direito não só a um prosseco, aos parabéns e uma boa dose de #mimimi (tradutor é bicho dengoso!), resolvi comunicá-los do Dia do Tradutor.

- Ó, dê os parabéns, beijo na mãe, porque hoje é dia do tradutor!

Um, com uma fatia de pizza gelada nas mãos, de saída para a faculdade, deu um beijo rápido e riu.
Well. We are made of the same cast, I'm sure.

O outro, do celular no intervalo da escola, e anos-luz à frente na cadeia alimentar, respondeu em voz adolescente mutante e rouca:

- Todos os dias são seus, mãe.

Preciso de um teclado à prova d'água.

10 comentários:

Chaleira da Dona Iaia disse...

Parabens, amiga querida, pela coragem de ter perseverado na luta. Essa e a sua caracteristica maior: nao desistir nunca!
Lembre-se disso.
De minha parte, fica o orgulho da sua pessoa e, mais do que isso, a benção da sua amizade! Foi no trabalho que nos conhecemos.
E, apenas para dar meu testemunho pessoal sobre a sua profissao, lembro de um dia em que fui "mexer" com tradução e pedi assim, como quem nao quer nada, pra vc corrigir o que eu havia feito. Lembreo de ter passado com meus meninos na sua portaria e pegar o papel.... Repleto de correções!!!
E olha que eu havia morado no exterior, meu povo ta todo la, eu sou a unica Brasileira de coração e que nao troca esse pais safado por nenhum outro... Ainda assim: observações, riscos, rabiscos, correções, anotações... Lembro de ter pensando:"Caraca, como sou burra nisso!" Mas foi bom ter caido a ficha e ter percebido que TRADUÇÃO É PARA TRADUTOR.
E ai eu fui me aventurar com as terapias alternativas...
Nao antes de ver despertado em mim o meu TOTAL e mais completo respeito pela sua profissao.
Parabens, amiga querida!
Que sua vida seja repleta de laudas e emoções!

Heloisa Velloso disse...

Lindo artigo, como sempre! Direto ao ponto.

Jules disse...

Lindo. ^^

:*

Mônica disse...

Querida Min,
É uma honra ter você como amiga e colega de profissão!
Parabéns pelo nosso dia!
bjos!
Mônica

Anônimo disse...

Min! Não é somente uma homenagem ao "povo das letras". Eu, como analista de sistemas, que também virei e viro noites trabalhando, "falando" línguas completamente estranhas, tendo que "traduzir" o que outros analistas/programadores querem dizer em seus códigos-fonte, "ensinando" computadores a trabalhar para e cooperar com outras pessoas, me sinto homenageado com teu texto. Obrigado. Roberto Mendes

Carol disse...

Amei, Min querida!!

Como estou zero inspirada para escrever hoje, vou pôr um belo link para cá lá no meu blog.

Beijão!

(Ah sim, e viva nós!)

Víctor Gonzales disse...

Muito dez seu texto!!!

HAPPY TRANSLATORS DAY! ¡FELIZ DÍA DEL TRADUCTOR! FELIZ DIA DO TRADUTOR!

Julieta Sueldo Boedo disse...

Lindo Min!!!! Obrigada pelo texto e parabéns para todos nós!

Anônimo disse...

Linda, que belo texto e que belo caminho o seu. Além de testemunhar a excelente profissional e um ser humano extraordinário que você é, tenho a alegria e a sorte da sua amizade antes de tudo. Um beijo grande pelo dia de hoje, por todos os dias e, por favor, curta muito mesmo as recentes e merecidas conquistas profissionais. Feliz dia para você, hoje e sempre.

Min disse...

Bacana vocês terem gostado do texto. Fico feliz por ter acontecido alguma forma de identificação dos amigos/colegas com tudo aquilo.
Por ordem:

Krika: é mesmo! Nós duas também nos conhecemos profissionalmente, e ói nóis aqui! Quanto tempo de amizade, não é? (Valeu cada minuto naquela 'espelunca' só para nos conhecermos!)

Helo, amore, fico feliz q vc tenha dado um pulinho aqui. Tb nos conhecemos e começamos a nossa (importantíssima pra mim!) amizade. Não esqueça, minha flor, o quanto gosto de vc, viu?

Jules, quanta honra vc no meu conjugadinho! Saudades de ti, mulher! Bjs

Monica,de lauda em lauda, de chope em chope e de elefante em elefante, cada vez gosto mais de vc. Vamos nos ver mais, tá? Bjs

Roberto, meu vizinho, que lindas palavras. Eu é que agradeço. Beijão!

Carol, vc com certeza está citada ali junto ao trio e sabe bem disso. Quando uma solução sua para uma difícil legenda (escrevi a vc sobre isso) fez com que eu me emocionasse, percebi o grande valor do nosso ofício. Obrigada e um beijo grande pra vcs dois aí em cima.

Victor e Julieta, queria saber responder aos dois em suas línguas - espanhol -, mas nem me atrevo. Obrigada pela delicadeza e pelas mensagens. Beijo grande.

Anônimo (kkk),estou curtindo, sim, as recentes conquistas, mesmo com a avalanche de trabalho que elas trouxeram. Um beijo pra vc também todos os dias.

Postar um comentário