Daí que ontem saí da aula de francês, já noitinha, morta de cansaço e fome. Desejo de comer uma massa. E parti pro pé na jaca com tudo.
Restaurante vazio, me aboleto na varanda, local reservado para fumantes, como indicam os cinzeiros e o pessoal baforando em paz.
Um nhoque de espinafre, uma taça de cabernet da casa (bom, barato, honesto), um copo d'água e um bom papo.
Quinze minutos depois, chega uma alegre (e grande) família. Mulheres. Todas. Umas cinco. E um menino de uns 4 ou 5 anos talvez. Que já chegou falando sem parar. E alto.
Claro, como pobre tem azar mesmo, a alegre (e barulhenta) família senta na mesa atrás da minha.
Oh, que alegria!
(Já disse que tenho problema com gentes?)
Eu comendo e o povo atrás falando. Sem parar um minuto. E alto. Sério, mal dava para ouvir o que eu dizia na minha própria mesa.
Eu estava atordoada.
A música, baixinha e agradável, era um CD do Baden, coisa linda de se ouvir, mas cadê que eu sequer identificava o que estava tocando?
Pior era o menino. Pobre criatura que passa por chata e inconveniente sem ter culpa. Porque com certeza ninguém ensinou a ele a falar mais baixo, a não exigir atenção o tempo todo, a não incomodar as pessoas à sua volta, ainda mais num ambiente público.
E o menino falava, guinchava, berrava, chamava a atenção de todos o tempo inteiro (literalmente, a cada cinco minutos, ele dizia: "ei, gente, olhem todos para mim, olhem!").
Eu discretamente (ok, nem tanto) olhei para trás por cima do meu ombro duas vezes. Só duas. Tipo, tá dificil, gentem!
E a pobre criança lá, verborreica e chata, a brincar com seus bonecos e apetrechos. Mas não bastava brincar na mesa. O povo todo tinha que olhar para ele, prestar atenção - era o que ele pedia constantemente.
E ninguém parecia se tocar que o menino estava perturbando as mesas em volta. Including me.
Mas bastou eu acender o primeiro cigarro depois do nhoque para vir o primeiro comentário.
Mãos abanando o ar, histórias de "ah, mas a minha empregada não fuma dentro da minha casa nem na janela" e que-tais.
Putisgrila.
Não bastasse, resolveram botar uns aneis de lata de refrigerante dentro de uma garrafa de plástico e deram pro menino brincar. Shrak, shrak, shrak - o guri se sentiu na bateria da Padre Miguel.
Não prestou.
Outro olhar meu por cima do ombro e neguinho se tocou.
Mas o guri continuava. Deus do céu, como aquela criatura falava.
Um rim pelo controle remoto e a tecla 'mute'.
E vamos combinar, criança sozinha reinando no meio de adultos às vezes enche o saco, e se é um hábito vai ficando pior com o tempo: eles se acostumam a ter a atenção para si o tempo todo e ficam muito "demanding".
Um pé.
Uma das mulheres chiou diretamente.
"Ai, odeio cigarro".
É, minha senhora, e eu odeio falta de educação, criança sem limites, bêbados machistas em restaurantes falando alto, babacas em geral, mas fazer o que, é liberado por lei, né?
Eu acendi outro cigarro até sem estar a fim de fumar.
Nota: eu estava em lugar destinado a fumantes, ok? Já estava ali, e fumando, quando elas chegaram. Assim como as pessoas nas outras mesas.
Percebi que esperavam outras pessoas e precisariam da minha mesa. Então resolvi pedir mais uma taça do cabernet e um café.
Irritação no ar.
O menino parecia uma metralhadora giratória.
Quando enfim levantei, olhares de alívio.
Comentários sobre o cigarro.
E eu, avessa a barracos em geral, mas doida pra encarar um, só devolvi um olhar, um único olhar: encarei a mesa, um por um, bem fixo, e terminei no menino.
Silêncio.
A capacidade de comunicação vai muito além das palavras.
***
Meu amigo, você tem razão.
Não vale a pena.
***
Estou lendo, ou melhor, devorando, os Diários de Susan Sontag.
Comprei, não. Ganhei.
Já tinha lido trechos de escritos dela e gostei muito.
Só não tinha ideia da criatura arrogante, pedante, narcisista que era.
So far, cheguei aos 17 anos dela no diário.
Minha esperança é de que ela amadureça e melhore até o fim do livro.
***
Desisti de publicar o Olho de Gato.
Ontem, depois do que seria um "penúltimo telefonema", quase acertando as coisas, desisti.
A história é minha.
E minha, só minha, permanecerá.
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1 comentários:
Os nao-fumantes realmente tem um limite de tolerancia zero. Sou ex-fumante, nao sou hipocrita, nao me importo, portanto, com cheiro de cigarro ou fumaca perto de mim.
Mas, em se tratando de um lugar DESTINADO aos fumantes, nao entendo o que uma familia que odeia cigarro e, ainda por cima, com uma crianca pequena estava fazendo ali.
Acho engracado esse lance do cigarro: faz mal a saude, muito mal, alias. Mas encher a cara tambem faz e nao vejo nos restaurantes um local destinado aos bebados. Ha varias medicacoes que fazem mal, nao vejo ser proibido nos shoppings a entrada e permanencia de viciados em tranquilizantes.
Ha pessoas cretinas, calhordas, hipocritas, crueis e essas personalidades, na minha opiniao, fazem um mal a saude horrivel, da cancer, ameacam nosso bem estar e, por vezes, a nossa vida, e eles tem acesso irrestrito a todos os locais da cidade, do estado, do pais e do mundo.
Eu, por exemplo, nao quero ter que conviver com as personalidades descritas acima, nem que seja durante um jantar em um restaurante "publico".
Sao coisas na especie humana que, realmente, nao fazem o menor sentido para mim.
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