Dia tão lindo, o das bruxas. Era um sol arreganhando os dentes e um azul de céu de doer meus olhos castigados quando acordei às 6 e pouco da manhã. É. Eu, a criatura que num sábado de sol carioca digno de uma folhinha de janeiro, acorda tão cedo. Sei lá, deu a idade e dei para isso. Mas estava feliz de ir ao aeroporto. Adoro buscar as pessoas no aeroporto. E sabia que, tão cedo assim, a cariocada ainda não estaria partindo para a serra ou para o mar, a estrada estaria vazia, a faixa de gaza (leia-se, linha vermelha) um chuá. E assim era, e assim estava. Eu, a criatura organizada que tem uma administração do tempo perfeita (quando não esquece as coisas, sorry, Gu, mas até que deu tempo de preparar o material da sua homenagem, que vai ser linda), ainda liguei o pc e fui no site da infraero ver se o voo estava na hora. Estava. E eu, atrasada. Fui tão bem, trânsito chuá, lá o avião já tinha chegado, e eu esperando daquele meu jeito: sento num canto e observo os passantes. As moças que vão para o aeroporto de havaianas e shortinho de lycra; os homens de bermudão, chinelos e camiseta papai-quero-ser-forte; bebês sonolentos; crianças saudosas. Via as pessoas chegando, os beijos, a alegria do reencontro. Lembrei. Ah, sim, lembrei. Claro que sim. E daquela madrugada gelada quando desembarquei de Paris, o travo na boca, o olhar assustado e interrogativo, meu filho tão lindo e a nítida sensação do “não querer estar ali”. Doeu. E muito. É uma dor que jamais vou esquecer. Essa, a que não passa.
Mas, então, o aeroporto hoje. Abraços gostosos, saudade desfeita, histórias contadas no carro, o vento gostoso trazendo o cheiro da grama recém-cortada. Palavras em italiano, presentes. E meu celular toca. Cedo, hum? Do outro lado, minha madrinha – nervosa, chorosa, assustada – pergunta onde estou e pede que eu vá logo. “Sua mãe está passando mal, ligou para mim (ela mora na rua ao lado) e eu vim.” Mas mal como? Mal. Segundo ela, muito mal. Engoli em seco e emudeci no carro. Não disse uma palavra. Só ouvia os nomes das cidades, os monumentos, os museus. E via o mar de carros parando na linha vermelha. E as mãos gelando, o nó no estômago. “Faz isso, não. Faz isso, não...” Como se um tijolo batesse na minha testa, lembrei que, exatamente neste dia, neste mesmo dia dois anos atrás, eu internava minha mãe, grave, numa UTI. E ela só sairia do hospital 20 dias depois, magrinha, fraca, depois de lutar como uma leoa contra um bicho que se instalou dentro dela. Na saída da Lagoa, mais um toque. Ela pedira uma ambulância que não seria mandada e decidiu enfiar mamãe num táxi e levar para o hospital. Precisava de ajuda para carregá-la. E estava cada vez mais agoniada. Dividi minha aflição, enfim, e logo chegaríamos lá, para encontrá-la na cama, tremendo como se estivesse numa convulsão, gelada, chorando, a pressão nos píncaros, ânsias, dor, pânico. Chorou muito, não conseguia dizer o que sentia além do medo de morrer ali sozinha. Era um quadro nitidamente “simpático”. Medicada, acalmada, abraçada, em 15 minutos estava melhor, com outra cor, sem tremedeira. Mas eu? Como que atropelada por um caminhão.
Me dei conta de que mamãe está velhinha. Muito velhinha. E frágil, fragilizada (que é diferente), sensível, carente, insegura. É uma outra mãe. É uma outra pessoa. Bem diferente da que convivi 40 e poucos anos da minha vida. De quem fui filha e de quem hoje sou mãe. E não é fácil me dar conta disso. Perdi uma irmã, perdi meu pai, perdi a fé – agora, perder a mãe? É nessas horas que vemos o quanto não estamos preparados para isso. O quanto somos criancinhas, menininhas, bebezinhos ante à possibilidade de ver a mãe indo embora um pouquinho a cada dia. Não tem como lidar com isso. Não são 2 horas semanais de terapia, nem as 21 gotas de florais de Bach diárias, nem a jardinagem como terapia. Muito menos a aceitação, a conformidade como um ‘fato de vida”. Não, não é.
Fiz chá, brinquei um pouco para desanuviar o clima, desviei o meu olhar dos olhares assustados e, por fim, pus os óculos escuros.
I am numb.
Eu sei o que é. Mas não sei como vai ser. E não tenho sequer coragem de pensar.
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4 comentários:
Oi, minha linda, já passou. Foi um susto. Só isso. Não fique assim. Pense no melhor sempre, não é assim que você sempre diz?
se precisar de alguma coisa, me liga. Um beijo
Bê
Caralho, o q houve? Respira, respira...
Beijinhos, Linha
Estou aguardando um @mail na minha caixa postal e, se o dito nao chegar, tipo assim, anteontem no cafe da manha, ligarei para vc, ate te encontrar.
Como disse a sua amiga Linha (e eu faço dela as minhas palavras):"Caralho, o que houve?"
Querida, fica com o meu beijo e o desejo de que sua mãe melhore e fique tudo bem. E que você tenha um pouquinho de descanso, de paz, né, que coisa!
Um beijo carinhoso
Má
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