Intempéries

Sim, sim, chove que é uma barbaridade. Já penso em construir a arca e garantir espaço para as minhas 'duplas'. É a casa toda fechada, aquele cheiro de cachorro molhado, as plantas na varanda não veem a minha cara desde ontem e um vento de matar. Bom mesmo pra dormir. Ou um convite à sessão da tarde com pipoca e/ou brigadeiro, mas o livro de patologia me chama.

Semana de trabalho intenso, dois textos diferentes, um pela manhã, outro à tarde, então hoje me dou de presente a visita à feira Brasil Rural Contemporâneo na Marina da Glória (vou de barco?). Levo sacolinha e cartão. Já sei, já sei. Mas já sei também que tem um suco de tangerina orgânico à venda lá que é um espetáculo. E biju. Deus do céu, eu dou um rim por um biju. Já.

Feriado? Praia. Yeah, com chuva e tudo porque é mais vazio. Aquele meu velho problema com 'gentes'. Longas caminhadas respirando o ar da maresia e tudo fica um pouco melhor.
E encaixado.

***

A moça chega aqui em casa contando que a sobrinha de 14 anos teve bebê.
É.
Era previsto.
A gente pensa 'como essas coisas acontecem?', mas lembro dessa menina ter desistido de si mesma há uns dois anos, quando parou de estudar (com a concordância surda, muda e covarde dos pais) e passou a 'viver no portão de casa'.
Não ia dar em outra.
Pena. Dela, claro, a quem faltou um mínimo de orientação. De quem uma criança rouba outra criança. De quem terá a linha da vida interrompida desnecessariamente.
É aquela história, tem certas coisas que não são opções para esses guris. Esse papo de vou parar de estudar, vou fazer isto ou aquilo, às vezes precisa ser acompanhado de um sonoro 'não'.
É difícil dizer tanto 'não'. Mas eles são necessários. Pra não dar nisso aí.

Mas aí tem a bolsa família, a bolsa não sei o quê, e vida que segue.
São os 27% de imposto pago mensalmente sustentando a galera que não teve o 'não'.
E aqui a bruxa sou eu.

***

Falando em imposto, ano que vem declaro ao governo que "por falta de arrecadação de renda suficiente, não estarei pagando imposto". Por favor, aguardem".
Quero ver no que vai dar.

A minha restituição estou esperando.
Mas sei, sei, os gastos com as bolsas e as cestas são enormes, então eu, a privilegiada classe média burguesa, curso superior, ap na zona sul, carro do ano e tal, a otária que trabalha zilhões de horas por semana às vezes incluindo fins de semana e feriados, a babaca que paga religiosamente os impostos e a escola particular do filho que espere.
Afinal de contas, sou elite.
Afinal de contas, posso custear meus símbolos de consumo capitalista e egoísta, meu tênis adidas, meu ipod, meu notebook e minha bolsa de grife.
Por que não poderia esperar, né?

***

Mais um casal que se separa, e eu escuto o discurso da incompatibilidade de gênios.
Me vem muita coisa à cabeça.
No momento errado, claro.
A tal intolerância, as tais verdades absolutas, arrogância, machismo e a cruel ilusão dos que apostam no amor eterno. Cegamente.
Então deixam passar os sinais, os sintomas, as perebas, as dores, as queixas.
Calam-se em nome do eterno, da culpa, do talvez um dia.
Até o dia da grande onda, a pesada bigorna, a grande onda e a desistência de tentar furá-la.
Desistir é fácil. Muito fácil.

0 comentários:

Postar um comentário