eu: Senhor...
Ele: Filha, estás sumida... Cheguei a achar que tivesses...
eu: Bom, mas aí o Senhor seria o primeiro a saber, não?
Ele: É verdade.
eu: Estresse, Senhor, estresse...
Ele: Fala que eu te escuto, garota.
eu: Senhor, temos dois banheiros em casa. O Senhor sabe, conhece a planta do meu ap de tanto ser chamado aqui. E, aliás, desculpe os gritos...
Ele: Sim, prossiga.
eu: Senhor, há uma guerra fria em andamento aqui. A coisa está me deixando louca.
Ele: Obras no banheiro? Vazamento? Ah, a vizinha cantora!
eu: Não, Senhor, o caso envolve roubo de papel higiênico.
Ele: Isto é sério, filha. Vou chamar Santo Antão para uma consultoria. Prossiga.
eu: Pois é, Senhor. É que quando o papel acaba no banheiro 2, o da matilha, eles simplesmente vão até o meu banheiro e pegam o meu rolo.
Ele: E logicamente não devolvem, não repõem.
eu: Justamente, Senhor. Isso me põe doida. Nunca tem papel no meu banheiro. Os infelizes não se dão ao trabalho de andar 28 passos – eu contei – até a despensa para pegar um rolo. Já deixei rolos extras lá numa cestinha linda de vime que comprei só pra isso, já tentei de tudo, Senhor, sinto que vou perder a cabeça dia desses e espalhar rolos e rolos de papel pelo quarto deles, enfaixá-los com Neve feito múmias enquanto dormem... Senhor, já pensei em tudo, inclusive em deixar faltar mesmo, não comprar, viver com uma caixinha de papel Yes na bolsa e tal...
Ele: Já tentou o golpe baixo e mudo?
eu: Já, Senhor, justamente. Ele encontra-se em andamento. Eu vou lá e retomo o rolo. Eles vêm aqui e pegam o rolo. Eu vou lá e retomo a posse do rolo. E assim ficamos.
Ele: Sim, filha, é difícil, posto que pensaste em todas as estratégias mais vis e baixas e nada adianta. Lamento, mas Santo Antão não está. Ele saberia resolver.
eu: Antão. É o que eu digo. “Antão, meninos, pelamordedeus”.
Ele: Eu ouvi ontem filha, eu ouvi. Faça o seguinte: apele para o papel lixa. Aquele, o cor-de-rosa.
eu: Ah, Senhor, não... Trauma da época de colégio. Não, o rosa lixa, não!
Ele: Será por pouco tempo, filha, eu vos asseguro. Mantenha o rosa lixa no seu banheiro, claro, tendo a sua caixinha de papel Yes sempre na bolsa. Mas no porta-rolo, sempre o rosa. Na despensa, idem. Rolos e rolos de papel rosa lixa. Verás as expressões de desespero. Enquanto tu, claro, tranquila e macia. Ah, importante, esconda os Hipoglós e os jornais também, senão não vale.
eu: Oh, Senhor, como és sábio e sensato. Farei isso, Senhor!
Ele: Acredite, filha, resolverá. Eles clamarão por um Personal, um Neve.
eu: E o papel da impressora, Senhor?
Ele: Trancado, lacrado no maleiro, onde só tu sabes.
eu: Não tenho palavras para agradecer, Senhor. E pelo sim, pelo não, vou ocultar também os pacotes de Perfex, os guardanapos da cozinha e os panos de prato. Nunca se sabe, não é? Na hora do desespero...
Ele: Isso, filha. Ides tranquila, na minha santa paz.
eu: Valeu, sábio! Beijão.
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