Bonecas, lápis e papel, coelhos, galinhas e mato eram meus companheiros. Na cidade ou na roça, tudo o que eu queria era exatamente ... ficar quieta e brincar. Chapinhando em poças de lama, fazendo correr barquinhos de papel nas canaletas quando chovia, brincando com bolhas d'água na piscina, recortando bonecas de papel e seus vestidos. Deixavam-me horas sozinha no quarto brincando, lendo ou ouvindo música, e eu era a criaturinha mais feliz do mundo.
Praticamente uma anciã.
Engano.
Eu adorava brincar. Era risonha, bem-humorada, feliz. Não tinha tempo ruim para mim.
Na adolescência, a "velhice" piorou, porque aí eu virei 'intelectual'. As coisas que eu lia em casa não faziam parte da literatura das minhas amigas. Eu era muito mais nova que meus irmãos, então acabava lendo os livros ... do meu pai, da minha irmã. E comecei a ler cedo, aos cinco anos. E a ler a história da segunda guerra mundial, Virginia Wolf, Dickens e revistas da sociedade brasileira de psicanálise. Pois é. Qualquer papel era uma possibilidade para mim.
E brincava, brincava, brincava. Burra velha já, tinha um exército de Susies (me entreguei agora...) e roupinhas, sapatinhos, casinhas. O primeiro namorado, coitadinho, testemunhou isso tudo: a 'garota' dele brincava de Susie...
A fissura era ter um filho. Para quê? You bet! Para brincar! The "mentally challenged mom" tinha um prazer inenerrável em sentar no parquinho e fazer buracos na terra com pazinha e ancinho. Enfileirava carrinhos de ferro, trazia terra com o caminhão basculante, montava cidades de Lego que impediam nossas refeições à mesa. Ai de quem tocasse naquilo!
Eu era, então, uma menina no meio de dois meninos. Que muitas vezes ficavam (ok, ainda ficam) vexados com a mãe-criança que lhes foi atribuída. Dançávamos no meio da sala, escrevíamos histórias absurdas, cantávamos no carro, e até hoje não resisto a um convite para uma rodada de Monopólio, War e Twister.
Eles nem precisavam de brinquedos. Tinha a mãe como um.
De mim, herdaram o gosto pelo brincar; o humor ácido, ferino e debochado; um non-sense no cotidiano que torna a vida um pouco mais leve.
E quanto mais o tempo passa, parece que gosto mais de brincar. Eles também. Uma espécie de vacina de alegria contra o amargor, as crises, os problemas - aquilo tudo que nós, "adultos", passamos de quando em quando. Somos capazes de rir um pouco até de algumas desgraças, o que tira o 'peso' de uma situação negra.
Meu analista disse uma vez: "teu humor te salva", depois de literalmente gargalhar com um chilique meu que durou uma sessão inteira. E me explicou que Freud já falava sobre isso - a capacidade do humor 'modular' positivamente a psiquê de uma pessoa.
Devo ter a vida eterna, pois.
Perder a alegria de viver é um golpe violento e cruel. É perder-se. Alguns vivem bem sem água, comida e doce. Eu não vivo sem alegria. É o meu ar.
Por isso, brinco até de olhos inchados.
Por isso, também, os comentários 'ferinos' sobre a fazendinha e o aquário de nada me servem. Experimente trabalhar com textos que só falam de desgraça e doença, pacientes terminais, mazelas dolorosas e incuráveis, células que tocam um terror em nossos corpos. No fim do dia, se eu pegar um Sartre, juro que pulo da janela!
De nada podem servir o desdém para uma ex-viciada (ainda nos 12 passos da recuperação) em PS1, 2 e 3; a que ficava até as 3h da manhã tentando passar de nível no Crash Bandicot; a que empunhava joystick e disputava animadas corridas de F-1 com os filhos.
A que penteava as Barbies das sobrinhas - as filhas que não tive. A que ensinou a elas a fazer uma boa sopa de folhas de árvore, papinha de lama, bolos de argila enfeitados com flores do quintal. A que insistia, ano após ano, em esconder ovos de páscoa no jardim, ou esperava todos dormirem para colocar presentes de Natal nos sapatinhos que ficavam na varanda. A que compôs uma música para as chupetas dos filhos...
Me dê um caderno de colorir e uma caixa de crayons. Verá uma pessoa feliz.

aos 26 anos, grávida do primeiro filho, paguei pra fazer rodar um carrossel em Les Halles, Paris, porque cismei que queria brincar
(Que fique dito que meus filhos são meninos extremamente maduros e responsáveis. Meninos 'cabeça', eu diria. Não sofreram sequelas. A não ser estarem invariavelmente com seus belos dentes arreganhados.)
2 comentários:
A minha Susi era jornalista e namorava o Falcon....
Quando eles se casaram, tiveram filhos, que eram as minha fofoletes (lembra destas? Eram bonequinhas que vinham em caixinhas de fosforo decoradas!)
A Barbie e Cia vieram quando eu ja estava saindo da adolescencia...
Beijao!
Deixa quieto, fia... Falcon? O da cicatriz? Pois a minha, na falta de Falcon, namorava um Toppo Gigio, veja só! Isso porque ela não conheceu, décadas depois, o Monstro dos Olhos (do Bruno), uma coisa assim linda, que cuspia uns olhos pela barriga. Ela teria ficado gamada!
Eu SEI que vou ter netas e vou me esbaldar de pentear bonecas!
Bj
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