O tamanho dos sonhos




O que é a vida sem metas e sonhos?

Não entendo, sinceramente, a ‘campanha’ de alguns brasileiros contra as Olimpíadas no Rio. De todas as razões que li/ouvi, nenhuma foi suficiente para que eu deixasse de torcer. Tivemos um Pan impecável na cidade. Mostramos o nosso yes, we can. Acompanhei muito porque acompanho esportes, gosto de esportes, em especial do iatismo.

Pensemos nos atletas brasileiros que pouco têm de incentivo ($$$$) para manter-se no esporte. Quantos abandonam no meio do caminho. Quantos são vencidos pelo desânimo.

No caso do iatismo, é paitrocínio e mãetrocínio que contam basicamente. Só muito, muito lá na frente se consegue um din-din que banque o caríssimo material. Sacrifícios, grana, dor, mãos inchadas, quantidades industriais de filtro solar, mas acima de tudo muito prazer. É o que vejo nesses meninos.

Poucas pessoas têm ideia do quanto o esporte pode ser benéfico, positivo na vida de um guri. O quanto muda ter uma meta. O quanto constroi. É abrir mão de baladas por causa de treinos e competições logo cedo. É aprender a se alimentar direito. É ter amigos. É conviver num ambiente em que, além de velejarem, jogam bola, brincam, riem, se futucam, brigam, disputam, vibram uns com os outros, se ajudam.

Por ‘observação estatística’ minha, os que mais se destacam são excelentes alunos na escola e na universidade. Com os meninos aqui sempre foi assim, até porque sentar no barco sempre foi algo que esteve condicionado ao boletim todo azul em todos os bimestres. Então, nunca fizeram sequer uma prova final. E cansaram de estudar dentro de aviões, em alojamentos, embaixo de coqueiros para fazer prova de segunda chamada que estavam perdendo por força de uma viagem para correr campeonato. E, na volta, os resultados foram sempre azuis. Muito azuis. Bem, um deles estudou durante três anos com bolsa na escola por ser o terceiro melhor aluno do colégio. Ganhou por mérito.

O esporte dá meta. Dá disciplina, ensina superação, dá maturidade, jogo de cintura. Proporciona experiências importantíssimas desde muito cedo.

Sempre incentivei. Procurei estar presente em todos os momentos possíveis, eu também levando traduções e notebook à tiracolo para poder acompanhá-los sem prejudicar o meu trabalho. Ri junto, chorei junto, comemorei junto, e acho por bem me afastar quando o dia de competição não foi bem e sinto o prenúncio de chilique no mau humor que paira no ar nessas ocasiões – é a hora do luto, de aprender a perder, de aprender a errar, e esta é uma hora silenciosa e soliltária. É quando eles crescem mais um pouquinho.

E aqui estou falando de classe média-alta privilegiada que pode bancar o que os ‘desdenhosos de plantão’ chamam de ‘esporte de rico’. Bem, eu vi um menino do sul proveniente de um programa de bolsa-esporte ser campeão brasileiro, e vibrei como se fosse meu filho. Era um guri que cozinhava para os irmãos, levava os guris para a escola, treinava, estudava e à noite fazia os deveres. Hoje está na faculdade, o que certamente não teria conseguido não fosse o incentivo que teve.

Esquecemos dos que começam a carreira esportiva correndo no barro sem tênis, nadando com sunga velha e sem alimentação correta, velejando com material emprestado, batendo bola com raquete rota e empenada. Vai me dizer como chegam lá? Apostando no sonho, tendo meta.

O sonho de ver um filho campeão olímpico é meu, sim. A meta é dele. (“Dele” porque um deu um tempo no esporte por conta de vestibular, faculdade + cursos de línguas – não dá pra reclamar). Aos 14 anos, ele quer algo especial na vida. Treina com dedicação, com sol ou chuva, num frio de rachar. E acha tudo lindo. Aprendeu a chegar em primeiro e em último – ninguém tem ideia do quanto isso ensina. Largar em último e chegar em primeiro = superação. Largar em primeiro e chegar em último = aprendizado.

Isso tem preço?

Mantendo o ‘mote’ da amargura nos últimos dias, estou cada vez mais impressionada com o astral negativo das pessoas de um modo geral. Puxando a sardinha pro meu lado? É, talvez um pouco, sim. Porque vi ao longo dos anos o que o esporte, o desafio e a meta podem fazer na vida de uma pessoa, principalmente de um jovem. Quantos guris o esporte tirou das ruas, botou nas escolas e mandou para a frente, inclusive com cursos profissionalizantes como é o Projeto Grael, por exemplo. Ou o Gol de Letra. Projetos no judô, na natação, no vôlei, no basquete – geralmente idealizados e patrocinados pelos próprios atletas, que puderam ver a diferença que o esporte pode fazer na trajetória de uma pessoa.

No mais, o Rio precisava das Olimpíadas. Somos uma cidade tão machucada, tão tratada como viralata pelo resto do país, com tantas mazelas sérias de difícil solução, que precisávamos ter essa chance de amadurecer, de mostrar que podemos, sim, fazer um evento legal, que funcione, botar o pessoal para trabalhar em prol de alguma coisa. Em qualquer país do mundo o povo trabalha num evento como esse como voluntários. Aqui as pessoas chiam. É preciso mudar essa mentalidade.

Se as Olimpíadas servirem para nos mostrar que ‘podemos’ já terá valido a pena.

No mais, lamento as pessoas negativas, de visão tacanha e limitada, amarguradas e tristes que simplesmente não conseguem a-cre-di-tar.

Eu vejo dois guris acreditando num projeto, num sonho, numa meta. E me recuso a dizer que não podem. Seria, de fato, mostrar que não têm raça. E você fazer alguém desacreditar de si mesmo é uma coisa muito, muito cruel.


***



Campeão estadual estreante aos 10 anos.

Acreditou.



Campeão estadual aos 12 anos.

Campeão brasileiro aos 14 anos.

Acreditou.




0 comentários:

Postar um comentário