Rain

Putz, toda a água do mundo descendo há dois dias. Devo ter girinos na varanda já. As lavandas me olham perplexas, ô bichas fortes e valentes, porque venta uma barbaridade e elas só fazem pra lá e pra cá com suas hastes e seus botões roxos que não despregam delas nem com tufão.

Gosto dessas flores que não vergam e não perdem seus botões com as intempéries. Sempre gostei das pessoas fortes, e plantei-as, talvez, nos mesmos vasos das lavandas, uma espécie de metáfora para lembrar de outros tempos, uma outra pessoa que morava aqui e de cujos olhos que brilhavam faíscas tenho muita saudade.

Com tanto frio glacial, só me dá vontade de aninhar-me no sofá e ficar na companhia de Billie ou Nina. Ainda concluindo o livro sobre estupidez e me dando conta do quanto é saudável um toque de estupidez na gente. Emburrecer um pouco. Ter emoções mundanas e infantis de vez em quando. Vai ver é o que não nos deixa vergar com os tufões. Nem murchar como as passas.

Chega de tanta filosofia barata. Deixa eu meter o pau no nobel do messias do século 21, uma demagogia vergonhosa. Meter o pau no photoshop que cruelmente nos dá 'padrões' de infelicidade em cima de 38 kg, manequim 36. Been there, done that. Vale a pena, não.

Minha mãe diz que emagreci. Passa a mão nos quadris e me faz mais fina.

- É a roupa, mãe.

- Você não consegue ver?

- Não.

Não tenho me olhado muito no espelho ultimamente. Deve ser o que meu analista chamou na última sessão de "compaixão".

Vai ver.

***

Ontem, esperando o táxi na portaria, conheci a vizinha pocotó. Maior dilúvio, gente juntando pares para por na arca, e a moça me adentra a portaria, eu tentando falar com Veneza (olha só, que chique, conheço alguém que está neste momento em Veneza), e só escuto:

- Poc, poc, poc, poc.

Ah, este som! Eu conheço este som!

Olho para a fonte do trotar e os vejo ali, imperiosos: dois tamacões. O quê? O quê? Vermelhos, é claro. Uma plataforma de uns 20 cm no barato, vermelha total.

Ela entra e sorri, simpática a moça. E potoc-potoc caminha até o elevador. Tento adivinhar o tamanho do pé da cinderela. Deixarei numa caixinha à porta um par de molekas.

Pode ficar pior do que ela galopar o dia inteiro (como entra e sai a égua!) e cantar no chuveiro sábado de manhã?

Sempre pode.

Ela comprou um poodle. Filhote. Late e chora no banheiro.

Minha vida é uma delícia. Só vai melhorando.

1 comentários:

ॐ Krika ॐ disse...

Eu gostaria de comentar, mas me faltam as palavras e o ar nesse ataque de riso histerico que eu estou tendo!!! HAHAHAHAHAHAHAHAHAH
Tragicomico!

Postar um comentário