Eu nem ia falar nada sobre isso, não mesmo, mas é cada uma que me acontece, viu, são coisas que só acontecem mesmo comigo, e eu fico pasma de ver que tem sempre um dedão apontando pra mim dizendo – ô, tonta, tomaí! –, fico besta com a conspiração do universo com uma criatura que tem dois neurônios que atendem por Killer e Lindinha, sendo que Killer tá sempre puxando ferro na 'cadimia' e Lindinha ou fazendo luzes ou de molho na Jacuzzi com muito Badedas.
Mas vai daí que outro dia aceitei um contato no skype porque era o Greg, o Greg de Paris, do curso, fiquei feliz pelo Greg ter me achado no skype, embora minha sobrancelha esquerda tenha levantado – ué? Como foi que ele me achou aqui? –, mas tudo bem, era o Greg, e eu adicionei para batermos um papo assim de quando em vez sobre nossas aulas.
Vai daí que fui tomar banho e meu celular não parava de tocar, assim, uma coisa de louco, mas sem identificação, sem número, ih, meu d’us essas coisas nunca são muito boas. Cinco chamadas, sem palavras, um alô, alô, alô que não acabava mais. Daí que no meio de tantos alôs, eu já cansada de encher o pobre sony ericsson de xampu Pantene antiqueda (é, o patrocinador paga, eu tenho que falar, né?) e ouço uma frase em francês, um troço incompreensível.
Ih, meu d’us, devia ser o pobre do Greg tentando ligar, peraí, meu filho, espera um minuto que eu tenho que enxaguar sem trema o condicionador de sete ervas daninhas (sem marca, genérico mesmo).
Vai daí que eu clico no skype, abro e tá lá, ó, o Greg, meu d’us que legal! Ué? O Greg tá estranho nessa foto! Cadê os óculos, os de longe, os de perto, os de mais ou menos? Credo, o Greg tomou sol onde nesta Paris gelada??? E de ontem pra hoje? Que raio de sol esse homem viu que eu não vi? Tá bem, viu, remoçado até, mas parece que esqueceu o filtro solar, ficou vermelho demais. Cor-de-rosa!!! Ué? Greg cor-de-rosa? Cadê a cabeleira do Greg? Raspou, fio, que maldade! Inda ontem você tinha um cabelo tão lindo! Agora careca, carequinha, cor-de-rosa.
Ai.
Ai.
Ai.
Affemariapuríssima, não é careca. Não é o Greg. Aliás, é ‘um Greg’, ou melhor, é uma parte de ‘um Greg’.
Saquei do superdedão del, del e del, toma safado de uma figa, ainda me liga pro celular, tarado, infeliz, fio duma égua!
Bloquear, lixeira, safa, homem!
***
Vai daí que eu tinha que marcar um exame.Um exame daqueles que exigem mil guias, mil burrocracias, mil trocinhos, assinaturas de d’us e o diabo e a terra do sol inteirinha.
Charme? Não funciona em alhures.
Uma história triste. Tudo que eu tinha a sacar era uma história triste. Carinha acompanhando.
E foi o que eu fiz. Na maior cara de pau, fiz um médico ‘viajar para um congresso amanhã’, deixei minha mãe ‘de cama, coitada, tá toda engessada a pobrezinha’, falei de uma ‘suposta cirurgia de emergência que seria determinada por aquele exame, por aquele laudo’, que eu ‘sim, pagaria, faria por fora do convênio se tivesse o resultado na hora, ali, pá, entre um café e outro’, que ‘poderia esperar o dia inteiro se fosse preciso, neve, sol, chuva, tornados, raios que me partissem em duas’, mas eu sairia dali com o resultado, que ‘o cabelo dela [da atendente] era lindo, nossa, querida, que tinta você usa, é um luxo, très jolie e tal, tem um brilho que vou te contar que eu nunca vi num cabelo’.
Done.
Saí dali com imagem, laudo e beijinhos como brinde.
E tudo azul, o que é melhor.



















































