
... the skin believes in touch
the mouth believes in itself ...







“Não poderia haver nada mais triste do que olharem-se lá pelo meio até quase no fim da vida e desconhecerem-se.
Dar a ele a chance de ter um amor. Uma mulher melhor. A que combinava melhor com seus ternos escuros, suas camisas novas, o carro agora de duas portas, gravatas sóbrias e olhar colorido. Ela, tão perfeitamente composta em seu tailleur azul-marinho, escarpins creme como a bolsa de mão, cabelos alinhados. Ah, uma mulher de cabelos lisos! Tão apaixonada por ele! Que cultivava um amor melancólico pelos vidros e pipetas, por cifras e rubricas. Que saberia apontar e nomear de olhos fechados todos os elementos da tabela periódica, seus pesos moleculares e finalidades particulares. A mulher perfeita para a nova formação de vida, a esquadrilha reta, mares sem redemoinhos. A que sabe fazer um bolo em três camadas, os ovos mexidos perfeitos, a salada mais fresca. A que encontra as chuteiras certas, os presentes esperados, a caneta mais brilhante.
Então foi quem coube, inesperadamente para ela, naquele novo olhar que ele tinha para a vida, nas novas ruas em que ele agora caminhava, nos restaurantes que ele agora frequentava. Uma que previa chuvas e tempestades, que sentia o cheiro do vento e diria para onde vai. Que não se envolve com cadernos, cores, perfumes óbvios e batons pela metade. Que saberia usar o vestido adequado para o novo príncipe e caberia com justa elegância natural em sua nova carruagem reluzente.
A expatriada ficou logo atrás, observando o cortejo respeitosa e silenciosamente. Fazendo as contas mesquinhas do seu dia-a-dia. Olhando as botas gastas, a carteira antiga, a caneta vermelha, as páginas usadas da agenda. Contando os dias em território estrangeiro. Vivendo. Vivendo. Vivendo em luz. A que escolheu. Com perfumes óbvios, batom fraco, vestido azul, casaco novo, meias a substituir. Em sua pequena cozinha ela mexe a panela de doce e faz que sim com a cabeça. Ouve a hstória sem comentar, segurando suspiros, mordendo os dentes, desfazendo a boda, sugando o canto do lábio.
Contando com o amor, despediu-se, à porta, com um abraço carinhoso e triste. Esperando não contar histórias e não ouvir outras. Apenas dizendo um adeus há muito tempo escrito e consumado. Um adeus à história que não julgou acabada. E da qual, por um engano sutil, distraidamente virou mais uma página.
Esteve pronta para voltar. Estava pronta para partir.”
(Cadernos de Paris, 2009)




ordinary day














Do fundo do nosso quintal (Jorge Aragão)
Mais um pouco e vai clarear (ê vai clarear)

"Não seduzo com aquilo que me falta. Não apelo para empréstimos. Não minto façanhas.
(...)
Para delirar, observo. Não espremo as laranjas das pálpebras em nome da sede.
Estou muito pior. Eu me piorei para finalmente amar. Se é que entende o paradoxo.
Agora posso melhorar."
minha amiga óbvia