Fortune



... the skin believes in touch
the mouth believes in itself ...

Nature




Intermezzo








chuva,
telhado de vidro

março, 2009




farewell




un peau de respect
merci

Voo



"E quando saem deixam impregnado nos bancos do seu carro, no seu terno e no seu coração aquele maldito cheiro de flor."

(Fal Azevedo)

Lado B

bouquiniste










"Haja hoje
para tanto
ontem."

(Paulo Leminski)


***

"La nuit nous protégeait et à ce moment précis j'avoue avoir pensé que les choses allaient redevenir possibles, ici j'allais pouvoir recoller les morceaux et reprendre pied, nous arracher les enfants et moi à cette douleur poisseuse qui nous clouait au sol depuis des mois, à la fin la maison, les traces et les souvenirs qu'elle gardait de nous quatre, c'était devenu invivable, je ne sortais presque plus et les enfants se fanaient sous mes yeux."

Des vents contraires - Olivier Adam - Ed. de l'Olivier, Paris, France

***

Sonhei a noite toda com não sei o quê.
Mas a trilha sonora era Amy Winehouse - 'Rehab'.

***

"Com precisão cirúrgica, foi dissecando uma história. Soube ser mau como nunca. Soube machucar. Mas paciente é aquele que fica deitado durante um procedimento. É o que se permite dissecar. Agente e recipiente - há um papel para todos. Até quando se invertem."

(Cadernos de Paris)

***

Cadernos do Rio
em breve




***

Oficialmente, o sol entre hoje em áries.
Não que eu ligue pra essas coisas. Ninguém liga.
Só fui informada. Pior: várias vezes.

- Anyway, feliz ano novo, Min.

Feliz ano novo para todos.



Especialmente para o meu lado esquerdo - o lado B.

***

Here: Por que lado B? Porque lado B era o lado dos discos de vinil que tocava as músicas que não eram hit parade, não estavam nas dez mais da Billboard, mas onde, lá pelo meio, a gente sempre encontrava uma pérola, uma música bonita que nos falava ao coração. Porque lado B é a porta dos fundos, onde chegamos molhados, salgados, cheios de areia da praia. Porque lado B não é percebido até que se olhe bem. Porque lado B é a classe econômica do voo. Porque lado B é o plano B necessário quando failure is not an option. Porque lado B é o que escolhemos ouvir quando o lado A já tocou demais. Porque lado B é Rehab. Porque lado B não tem play it again, Sam. Porque lado B é virada de página, é a quarta capa, o avesso. Porque lado B é gauche, é o lado do olho ruim. Porque lado B é escada, não elevador.
There: :O

Comendo pela borda

Ela esperou anos pra fazer isso.
E fez no momento certo.
Mandou bem.

Faltou virar pro lado depois e dizer baixinho ao pé d'ouvido de Bill:

- Yes, I can, babe!


***

Aujourd'hui (ô, palavra bonita!), debate em aula sobre os SDFs
Sans Domicile Fixe
Os sem-teto
(aquela gente que você não sabe como sobrevive ao inverno)
Texto porreta.
O jornalismo francês escreve bem pacas.

***

Aujourd'hui também abertura no Grand Palais da über-exposição sobre Andy Warhol



Um chato de galocha.
Chiant, aprenda.

Mas é cultura, né?
O mundo vai.

You could count me out.

Madrugadas




Madrugada. Ela desliga o computador e frita dois ovos.
Não contente, meia hora depois, brigadeiro no microondas.
Depois não entende por que sonha com Rubinho Barrichelo....

***

Jogo da memória com obras de Pablo Picasso.
Ela contra ela.
Uma ganhando disparado.
O montinho assim, ó, altão.



Rodin

Suspiros



Entrei no táxi e senti aquele cheiro doce: o homem 'criava' flores na-tu-rais no carro.
Por toda parte.
Me senti num carro funerário.
Ri sozinha, de cabeça baixa - não queria magoar a criatura.
Não disse uma palavra além do itinerário.
E rezei para que ele fosse tcheco.



O pior ainda estaria por vir - a trilha sonora.
Quarenta longos minutos de Nat King Cole cantando em espanhol.
("... catito, catito, catito mio, pedazo de cielo que Dios me dio" ...)
Provavelmente eu merecia.
Até Nat atacar de "aquellos ojos verdes" tava tudo indo muito, muito bem.
Aí, pronto - comecei a cantarolar.





Obscenidade - é o nome desse quadro aí.

Nunca antes na história desses olhos viu-se um merengue tão bem batido em cima de uma torta de limão.
Gemidos e suspiros não são opcionais.
O café é só pra disfarçar.
Com adoçante, é claro.

Nanoconto II

"Maluca chega em casa e mais uma lâmpada queimada. Cinco a dois é o placar. Até ir embora daqui, o breu total"

Todas as declarações de amor são lindas

Uma linda declaração de amor

Que não envolve um "por favor, cuide-se; não posso imaginar minha vida sem você"; que não tem coraçõezinhos, inhos, ãos, sempres e nuncas; que não pressupõe gritos enfáticos, assertividades nulas e promessas vãs.

E talvez, por isso mesmo, seja uma belíssima declaração de amor, respeito e admiração de quem vê o caminho percorrido.

Um homem reconhecer a importância de uma mulher em sua vida é algo raro e precioso.
Seja no sim ou no não.
É o que fica.
É a verdade.

Já vi várias.
Essa, especialmente, me comoveu.
E a outra também.

O que me fez lembrar de

Construção

"Tenhamos paciência. Estamos traumatizados. Somos criaturas pós-desastre natural. É um arranhão que custa a formar casca. Não havemos de soprá-lo, nem afogá-lo em unguentos. Algumas curas são tão dolorosas quanto as próprias feridas. E há o tempo certo. Observar com calma, cuidar com zêlo, olhar com compaixão. Balançar no ritmo das marés, das luas - a vida circadiana que nos espera. Espera."

(Cadernos de Paris)

***

Here: Odeio meus joelhos.
There: Não há nada de errado com eles.
Here: Um certo cansaço. Genuflexão excessiva.
There: É, cria calo.
Here: Não. Dói mesmo.

***

Estou lendo um livro sobre a idealização, o projeto e a construção do Museu Quai Branly.
Desde a ideia de criar um museu que abrigasse arte de todos os continentes não-Europa até o concurso aberto que escolheu o melhor projeto arquitetônico, passando pela descrição do projeto em todas as suas fases, sua construção às margens do Rio Sena respeitando a arquitetura do entorno e o resultado de tudo.

Fico abismada com o talento de algumas pessoas.
Posso passar horas ouvindo um arquiteto descrever uma ideia, uma obra.
Sempre fui uma apaixonada por arquitetura, desde quando conheci o Zanine Caldas, até conhecer o Sergio Bernardes pelas mãos do R., depois a obra de Niemeyer e outros arquitetos talentosos e criativos.

R. fazia umas coisas lindas e me mostrava suas criações, suas ideias.
Aprendi, no tempo que passamos juntos, a observar o detalhe, a imaginar e 'ver' o que ainda não tinha sido feito, a ter uma ideia de 'forma'.
Eu ficava impressionada com a capacidade que ele tinha de 'ver', imaginar.
Tem gente mesmo que 'vê' coisas incríveis. E quase todos os dias.
O que exige o abandono de cabrestos e selas.
E a não-confusão de forma |ó| e forma |ô|.










Nanocontos I

"Um fio de saliva vermelha. Morangos, creme e gotas de veneno."

A bela da tarde

A coisa empreteceu mesmo. Ficou assim turva, baça.
Não bastasse eu estar traduzindo um livro imenso, me pedem por todas as cruzes do mundo para traduzir outro.
Outro? É. Outro.
Há razões. Há. E genuínas, todas.
Não me pedem coisas assim sem que seja um bom pepino a resolver.
E sabem, eu resolvo.
Então é dividir meu cérebro em dois e bater pra subir.

Por isso, o momento é de 'limar' os time-eaters da vida.
E dá um baita medo de estar 'limando' os time-eaters errados.
Mas paciência. Aqui não rola milagre.
Rola trabalho mesmo.

Obviamente preciso do tal l'argent -- e agora ainda mais -- , porque ainda não vivo na economia de escambo que era o sonho da minha vida.
A vida é cara, a baguete está pela hora da morte e, dizem, o metrô vai subir.
O que mais amo off-work - música e livro - ficam no esquema on-the-go que eu não gosto muito.
Ler no metrô, ler no ônibus, ler na fila. Ouvir música? Idem.
Mas assim será. Tempo em casa agora é pra trabalhar e estudar mesmo.
Fica o domingo para a mortal descansar, o petidê especial, cinema, passeio, perdições.
Ah, as perdições, claro...
Killer e Lindinha vão dar conta do tranco.
Eu sou uma só e assim mesmo em dúvidas quanto a essa 'unidade de pessoa'.

(Meu pai dizia: quer que algo seja feito? Dê para quem já está fazendo muita coisa.
O universo, os astros e o destino levaram a sério as palavras do véio e baixaram com tudo.
No fim, dá uma dose de adrenalina necessária e boa.
É o que mantém a pele esticada, os nervos em dia e a mente esperta.
Quanto aos ossos, sei não. Eles reclamam. Mas se acostumam. Vão sobreviver.)

Só me chateia o pouco tempo para escrever, mas c'est la vie. First things first.
O que inclui obviamente você e eu.
Sempre.
Sem dúvida.





e preciso de um solzinho urgentemente
fica pro domingo

***

Terminei a resenha de composition (rédaction) e fiz a exposição oral.
Belle de Jour.
Na minha turma, só dois tinham visto o filme.
Quando acabei, foram os dois que levantaram e aplaudiram.
E a prof assim, com cara de Ó.
O resto com cara de Q.

Foi muito bom.
Muito divertido.

Tempotempotempotempo




Compro tempo.
Pago bem, em cash e adiantado.
Possibilidade de fornecimento permanente.
É para ontem.

Perdas e ganhos




ao se fechar uma, abre-se outra
muitas vezes, lado a lado
as duas
mas só de uma
põe-se a cabeça para fora




ao se perder em ruas estranhas
muitas vezes encontra-se
muito perto, bem perto
e quem sabe quase ao lado
a via da felicidade

***

"Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference."

(Robert Frost 1874-1963)

***

"(...) Eu não tive medo, foi isso. Ao contrário da criança medrosa que sempre fui, da pessoa cautelosa que me tornei ao longo dos anos, ali, não tive medo. Não era uma escolha. Algumas coisas vivemos assim. Quando passam, percebemos. É só o que há a dizer. - Eu estive ali."

(Cadernos de Paris, 2009)

***

O título serve a outros contextos

De 5 de novembro a 15 de março, é proibido despejar inquilinos em Paris. É por causa do inverno. É lei. Ontem terminou o prazo. E as passeatas pulularam na cidade. Gente que não tem pra onde ir. E o governo tem a obrigação de prover 'abrigo' temporário a essas pessoas enquanto não arrumam moradia. O problema é definir esse 'temporário'. Tem gente que não paga porque não pode. Tem gente que espera o 5 de novembro e para de pagar. Tem de tudo, como em qualquer lugar.
Você olha as passeatas e 90% são imigrantes. É um problema seríssimo dos imigrantes em território francês: moradia, emprego, saúde e educação para eles.
E é a lei. Sem choro nem vela.
15 de março, tá na rua se o proprietaire assim o desejar e provar que pode fazê-lo.
Como se em 15 de março a temperatura estivesse boa mesmo pra dormir na rua.

O paternalismo não é permanente. Tem data para acabar.

Aliás, como quase todos os fins.



Como todos os outros fins




“Não poderia haver nada mais triste do que olharem-se lá pelo meio até quase no fim da vida e desconhecerem-se.

Dar a ele a chance de ter um amor. Uma mulher melhor. A que combinava melhor com seus ternos escuros, suas camisas novas, o carro agora de duas portas, gravatas sóbrias e olhar colorido. Ela, tão perfeitamente composta em seu tailleur azul-marinho, escarpins creme como a bolsa de mão, cabelos alinhados. Ah, uma mulher de cabelos lisos! Tão apaixonada por ele! Que cultivava um amor melancólico pelos vidros e pipetas, por cifras e rubricas. Que saberia apontar e nomear de olhos fechados todos os elementos da tabela periódica, seus pesos moleculares e finalidades particulares. A mulher perfeita para a nova formação de vida, a esquadrilha reta, mares sem redemoinhos. A que sabe fazer um bolo em três camadas, os ovos mexidos perfeitos, a salada mais fresca. A que encontra as chuteiras certas, os presentes esperados, a caneta mais brilhante.

Então foi quem coube, inesperadamente para ela, naquele novo olhar que ele tinha para a vida, nas novas ruas em que ele agora caminhava, nos restaurantes que ele agora frequentava. Uma que previa chuvas e tempestades, que sentia o cheiro do vento e diria para onde vai. Que não se envolve com cadernos, cores, perfumes óbvios e batons pela metade. Que saberia usar o vestido adequado para o novo príncipe e caberia com justa elegância natural em sua nova carruagem reluzente.

A expatriada ficou logo atrás, observando o cortejo respeitosa e silenciosamente. Fazendo as contas mesquinhas do seu dia-a-dia. Olhando as botas gastas, a carteira antiga, a caneta vermelha, as páginas usadas da agenda. Contando os dias em território estrangeiro. Vivendo. Vivendo. Vivendo em luz. A que escolheu. Com perfumes óbvios, batom fraco, vestido azul, casaco novo, meias a substituir. Em sua pequena cozinha ela mexe a panela de doce e faz que sim com a cabeça. Ouve a hstória sem comentar, segurando suspiros, mordendo os dentes, desfazendo a boda, sugando o canto do lábio.

Contando com o amor, despediu-se, à porta, com um abraço carinhoso e triste. Esperando não contar histórias e não ouvir outras. Apenas dizendo um adeus há muito tempo escrito e consumado. Um adeus à história que não julgou acabada. E da qual, por um engano sutil, distraidamente virou mais uma página.

Esteve pronta para voltar. Estava pronta para partir.”

(Cadernos de Paris, 2009)

Beaucoup des photos



da janela lateral
(os raios de sol incidem na janela e projetam as cores no chão e na parede)




bon jour, petit déjeneur
(licked the spoon)



'tô só dando umolhadinha'



detalhes (me impressiona a confecção deles)



deux vélos, passeio, Saint Paul

***

bonne nuit

Life's not complicated




o melhor de tudo é o ponto


A vida é engraçada.
Ao contrário de um conhecido meu que dizia “a vida é complicada mesmo”.
Não é, não.
A gente complica aquilo que às vezes é simples.

Você diz para alguém que está só e entediado: “vá ler um livro; vá escutar uma boa música; vá cuidar das suas plantas; vá ver um filme.”

Nhé.

Deus do céu!

Uma noite dessas, era eu num canto do sofá enrodilhada feito um hamster até a circulação das pernas sumir, um silêncio divino que me deixava ouvir o clec-clec dos ponteiros do relógio na cozinha, um livro gostosíssimo e leve nas mãos, o foco de luz perfeito em cima dele, chá de jasmim do lado e um ventinho exato que entrava por uma fresta da janela e batia nos pés quentes e cansados.

Não havia complicação.
E mais: não havia nem o que simplificar.

***

Minha mãe dizia que para não complicar as coisas, às vezes era melhor ficar com o real em vez de bater cabeça com o ideal.
Teve um momento em que eu achei ter entendido isso.
Mas depois, bem jogado na cara, eu vi que fiz exatamente o contrário.

Hoje ela me repetiu a frase.
E eu pedi gentilmente que ela passasse para a próxima citação.
E que não fosse bíblica, nem cheirasse a pollyana.
Ela riu um pouco e mais tarde me mandou por e-mail um arquivaço em ppt com umas flores lindas.

Ok, mom.
Got it.




Louvre, teto do salão Apolo




Sexta-feira 13



atrás da porta

(just in case)

Musique pour le week end



às impulsivas, tin-tin, Marie

et parce que j'ai acheté gerberas

Vida de tradutor




Piada interna de tradutores: - ‘Fazer’ uma decisão é uma coisa. ‘Tomar’ uma decisão é outra.

Bem diferente. Bem diferente, repito. Vai por mim, insisto: é bem diferente.
Não vai levar a sério e tascar ‘fazer’ uma decisão em ‘decision making’ na sua tradução, tá? Decide. Mas nada de ‘fazer’, nem ‘tomar’.

Minha tradução – do momento – está cheia de coisas que eu abomino, como por exemplo assessment e evaluation na mesma frase, outcomes e toddlers. Estou falando dessas palavras no contexto med., fique esperto.

Você dirá, “ah, Min, deixa de choradeira”.

É? Então experimenta pegar ‘toddlers’ numa tabela estreitinha assim, ó. Daí eu conto com a inteligência do leitor: se na mesma tabela com colunas estreitinhas assim, ó, você tem infants, babies, toddlers, preschoolers, older children e adolescents, é só pensar, né?

Wrong. Tem de ser tudo mas-ti-ga-di-nho.

Não existe essa coisa de ‘preguiça’ para tradutor. Ou não deveria existir. E recorrer o tempo todo a N.T. é coisa feia, colega. Só em casos especiais, especialíssimos.

E juro, juro que já peguei uma tradução médica onde tinha infante como tradução de infant.

Tá curioso? Você acha mesmo que vou dar o mapa da mina aí?
Google it! Eu tive trabalho. Eu tenho trabalho.

Preguiça, aqui, só para levantar da cama.
É meio “chamem o Carvalhão, por favor”.

***

Falando nisso, a reforma. Eu nem ia comentar, mas...

Eu tinha no meu PC uma lista de milhares, não é exagero, milhares de entradas de autocorreção. Para poupar tempo de digitação de acentos, tremas e determinadas palavras constantes em minhas traduções.
Por exemplo, eu digitava frequencia, e o bonitinho corrigia tomaticamente para freqüência. Ideia, e vinha idéia. Voo, e era vôo.
Já sacou o problema, né?
Estou mudando tudo na unha conforme vou trabalhando.
Vou te contar. Coisa mais chata, viu?

***

There
: Mas você não quer nem ouvir?
Here: Não.
There: Mas por quê?
Here: Sei lá, não estou a fim.
There: Mas por quê?

Daí em diante, entrei em modo ctrl+C/ctrl+V.

***

Gentem, não se apeguem, não se apeguem.
Em se tratando de mim, é tudo o que eu tenho a dizer: “não se apegue”!

***

Minha mais nova tetéia (na Fnac, Champs Elysées, soldes)

Dicionário Casio EW-F-100 que vem com:

- Le Nouveau Petit Robert (français-français)
- Le Robert & Collins Dictionaire (anglais-français)
- Oxford Advanced Learner’s Dicionaire (anglais-anglais)
- Le Robert & Collins Dictionaire (français-anglais)
TUDO isso aí em poucos centímetros.
Funciona com 2 pilhas, tem iluminação de tela (pros ceguetas como yo) e tal.



Lamento informar, mas a ‘discreta’ bolsinha vermelha vem com ele, não.
Foi brinde da moça da Sephora.



O lápis é para dar uma ideia de como o multi-dicionário é de fato pequenino.
O lápis também não vem com ele. Não, não foi brinde.
Comprei para a minha coleção de ‘lápitis’ na Marie Papier da maldita rue Vavin, que levei 40 minutos para encontrar depois de dar uma volta inteira por Montparnasse, passar em frente ao cemitério, acompanhar o fim de um enterro, conhecer a única academia de ginástica de Paris e chegar à tal rue Vavin só para me dar conta de que ela ficava mesmo quase na boca do metrô onde saltei.
O que fui mesmo procurar na Marie Papier?
Um estojo de lápis de cor e um estojo de desenho.
Não, não perguntem.

***

“Verbete” do Urban Dictionary:

Social Networking: The practice of spending time unproductively on social-networking websites, especially when one should be working.

***


***


ordinary day

J'était




Elas mudaram uma estrofe da música.
E ficou perfeito!
Era assim que eu cantava.
Foi assim que eu cantei.

Mas acho que só eu percebi
A mudança na estrofe e que eu cantava assim.
Acho, não.
Tenho certeza.

Vie de merde

Tem o site, onde qualquer um pode falar sobre sua vie de merde.
É um sucesso.

E tem o livro.
Impagável.



Para os momentos em que Sartre & Cia enchem o saco.

***



Tem "o templo".
Para comprar o batom vermelho.
(Clinique No. 16, Pink Chocolate Matte, viu, Ana?)
Para quando a sua cara encher o saco.

Ou sabonete líquido de limão com gengibre.
Lixa para unhas que duram mesmo.
Xampu e condicionador de 'olive' para hidratar os cachos.
E mil e uma coisas de mulherzinha.

Para quando Sartre & Cia encherem o saco [2].

***

A pessoa fala o que quer, ouve o que não quer.
É simples assim. Não tem mistério, nem mimimi.
Há os mais resilientes (desculpe, mas passei a adorar essa palavra).
Mas o dia chega para todos.

Daí vai colecionando desafetos, amarguras, pilhas de limões que nem dá conta de chupar.
Nem aprendeu a fazer limonada. Nem gosta de caipirinha.
E se dá conta, no final, do quanto era sozinha e não sabia.
Enterrada na tal pilha de limões.
Passou o vida in-tei-ra achando que era tu-do.
E morre tendo a vaga desconfiança de que sempre foi, de verdade, na-da.

Ainda bem que aprendi a andar na contramão.
A tal vie de merde, pra mim, é só um livro mesmo.

***

Ontem vi a melhor cara de Q dos últimos tempos.
E duvido que esse momento se repita com tamanha intensidade, meia boca aberta, olhos arregalados e tudo.
Foram os 20 segundos mais interessantes.
E a cara nem foi minha.
Mas, sim, eu a provoquei.
Com uma frase.

Valeu, foi até divertido.
Para mim e para a cara afinal.
(desculpe, amigo)

***

Meu filho vai fazer 18 anos daqui a um mês exatamente.
Estou chocada.
E, sim, emocionada.
(ai, coitado, lembrei: hoje começa o inferno astral dele...)

Eu não ia nem comentar, mas...



Reconheceu?
Como não?

A menina, ali, ó, sentadinha no chão com o livro na mão.
Lendo!
Enquanto uma esfrega a roupa, a outra olha com cara de "você não está fazendo direito" e a terceira está com cara de Q.

Pequenininha*.
Mas sou eu, sim! Nos meus bons tempos de cabelos lisos!

* a dimensão 'diminuta' daquela que lê terá sido coincidência? hum?

Manchetes



É o assunto.
Nem só das havaianas que soltam as tiras e não têm cheiro falam os parisienses*.


"Violée, avortée puis excommuniée"
ici

"L'avortement d'une petite fille de 9 ans enceinte de jumeaux secoue le Brésil"
ici

"Le Vatican cautionne l’excommunication de la mère d’une fillette violée "
ici


*aliás, custam uma pequena fortuna em Paris. Principalmente as que têm a bandeira. Vai entender...

***

Colega começa a ler texto na aula de composição em francês:
"l'amour sur les bancs d'école" - o amor nos bancos da escola

E eu entendo: "a morte dos bancos eletrônicos"

Não foi nem a pronúncia dele.
Era eu mesmo.

Fiz cara de Q.
Mas depois Killer adormeceu e Lindinha entendeu que se falava de amor.

***

"Não quero o mofo das estantes, a companhia de pequenas aranhas e ácaros, a poeira do tempo esquecido. Nem o esquecimento num banco de ônibus, na sala de espera do dentista, no banheiro do shopping. Quero minhas palavras vivas, dançando na tela, brincando com os meus olhos. Já quis muito menos. Aprendi a olhar para os punhos sem pulseiras."

(Cadernos de Paris)

Cadernos de Paris




"Ele me faz falta. Muita falta. Difícil esse tempo que passa e ele não está mais ao meu lado, do meu lado, comigo. Eu finjo que não ligo, orgulhosa, fria. Mas é não ter mais eu mesma esparramada no chão fresco da cozinha conversando com ele horas a fio. É não ter mais. E é a possibilidade de tê-lo ao alcance da minha mão, uma palavra, um gesto, um decibel diferente na voz. E a total impossibilidade da minha alma de fazê-lo.
Eu não soube ficar, não pude mais. Perdi o marcador do livro, perdi a paciência oceânica, perdi o metro, a medida. Perdi o chão.
Eu não soube mais olhá-lo com a respiração de espera, o rosto claro, as mãos mansas.
Então, fui. Peguei meus patins, minha contramão, a flor, o brinquedo, e fui. Como jamais esperava ter ido. Como nunca, nunca, nunca pensei em deixar de olhar o mar que havia ali, nele, em tudo. Fui pelo ralo, pelo sumidouro - onde havia sido colocada em simples e rápidas palavras.
Ele vai dizer um dia que eu não estive ao lado dele quando precisou de mim. É, não estive mesmo. Fui a primeira a chegar e também a primeira a sair. Foi quando ouvi a primeira vez em que ele gritou comigo. Foi quando minha mão esteve a dois centímetros do rosto dele - e não era mais para afagá-lo. E, para não tocá-lo, dei um passo atrás e saí. Aprendi a levantar da mesa na hora certa. O que mostra que até para gente como eu existe salvação."

(Cadernos de Paris, 2009)


*inspirado nos versos de Catavento e Girassol, Guinga e Aldir Blanc
e no reveillon de dezembro de 2008


Washing machine, washing brains

Consta nos astros, nos signos, nos búzios...

Oficialmente, em 8 de março começou meu inferno astral.
Diz a astrologia que é o mês que antecede ao seu aniversário.
E que nesse período tudo dá pra trás.
Trinta dias de infortúnio.
É o que dizem.

Oficialmente, nos últimos dias consegui dois clientes novos off-editora e off-medicina.
Eu tinha esquecido dessa coisa de 'inferno astral'.
Pronto.
Agora que lembrei, o paranoiômetro vai rodar.

*versinho de música do Chico Buarque, uma graça, mas não tenho pra fazer o upload.

***

Pelo sim, pelo não, e pela mocinha precavida que me tornei de uns tempos pra cá, digo assim:

- Sei lá, desisti.

***

Os Cadernos continuam, com seus capítulos e/ou trechos, foto e trilha correspondente.
A partir de amanhã, mas creio que não serão diários.
Prólogo pronto, na tela em breve, ok?
(pode parar com a choradeira agora)

Olhos de março




Dormi 13 horas seguidas noite passada.
É assim: ou durmo, em média, quatro horas por noite, ou durmo demais.
Curiosamente, ontem também foi o dia em que mais escrevi (off-translations).
Chegou uma hora em que estava tão cansada que resolvi gravar em vez de escrever.
Levei o netbook para um café (sem wifi, raios!) e larguei palavras.

Depois de editado, vem para cá.
Por hoje, muito trabalho.

***

"Não se preocupe. Antes, bem antes, eu já terei atravessado a rua."

(Cadernos de Paris)

Mulheres tarjadas


eu quero uma




e deixa tudo mais branco


O maior consumo de antidepressivos é por parte das mulheres.
Motivo?
Transtornos de ansiedade e depressão.
É a medicalização do afeto.

Pensar é melhor que sentir.
E chegamos aqui.

***

"Não se pode mais sofrer em paz. Chorar até explodir os olhos e os pulmões. Deixar sair tudo como um rio - vazante e corrente. À primeira lágrima alguém diz: "não é melhor você tomar uma coisinha?" É. É melhor, sim. Varrer para baixo do tapete é rápido, fácil e indolor. Um dia você se pega pisando em montinhos de lixo em cima do tal tapete. Aí vai precisar sacudi-lo. É quando toda aquela poeira acumulada reaparece e, sacudida do tapete, fica suspensa no ar, cai no chão e lá vai você varrê-la novamente. Assim se faz até o dia em que você finalmente se dá conta que uma faxina completa é mais útil e eficaz. E duradoura. Mas, para isso, é preciso abrir armários, escancarar janelas, deixar portas abertas, jogar fora o que não presta. E o pior: deixar o ar fresco e o sol entrarem na casa. É, sim, uma questão de coragem e disposição."

(Cadernos de Paris)

Cortinas

Cortinas

Há muitos céus por trás

Amadurecer




"The time has come to set aside childish things. The time has come to reaffirm our enduring spirit; to choose our better history; to carry forward that precious gift, that noble idea, passed on from generation to generation: the God-given promise that all are equal, all are free and all deserve a chance to pursue their full measure of happiness."

President Barack Obama

(curiosidade: em francês, pronuncia-se "barrác obamá")

Bem apropriado para o dia de hoje.

***

Ainda em estado zumbi: parcialmente surda, estonteada, e a única possibilidade de trabalhar é na cama, com o netbook no colo.

***

Update: da série "eu nem ia comentar, mas"

Ainda bedridden, aproveitei para fazer umas leituras na internet sobre o dia de hoje.
Ver, sei lá, o que as pessoas inteligentes, cultas e antenadas estão falando sobre o dia internacional da mulher.
Uma hora e pouco de leitura até o suco de laranja começar a formar grumos no meu estômago.
Eu só pensava assim: '"não estou entendendo nada".
Emburreci. Derramei. Ceguei.
Só pode ser.

Li pelo menos uma dúzia de textos, escritos e publicados por 'gente do bem', mulheres antenadas, cultas, escoladas, algumas pós-graduadas, outras profissionais pra lá de competentes, escritoras maravilhosas, filósofas geniais, atrizes, artistas, 'gente contemporânea', sacumé?
E TODOS, literalmente TODOS os textos que li tinham uma carga de raiva, hostilidade, sarcasmo, preconceito, amargura, pessimismo e negatividade que fiquei me sentindo um bofe.
Juro.
Acordei hoje e me senti um bofe uma hora e pouco depois de ler tanta gente raivosa.

Daí, como sou chegada a um plano B, resolvi partir para os textos masculinos.
Ahá!
O que estariam eles falando sobre o dia de hoje? Sobre nós?
De cara, recebi uma mensagem linda de um amigo, um baita carinho.
Tá, nem tudo está perdido, minhoca afásica.
E fui seguindo a leitura. Três blogs e três colunas 'masculinas'.
Foi como se eu pegasse um outro livro para ler sobre o mesmo assunto.
Sim. Muitos deles nos amam, nos respeitam, nos admiram, nos consideram, nos olham com olhos justos e meigos e cúmplices e amigos.
Querem a conciliação, a reconciliação. Querem o companheirismo.
Li coisas lindas sobre nós. Lindas. Maduras, realistas, apaixonadas.

Vai daí que a pergunta procede: como entender esse fenômeno?

Mas não vou gastar meu domingo com isso.
Nem sentindo pena de muitas de nós.
Simplesmente deletei dos meus favoritos mais um bando de mocinhas que eu costumava ler de vez em quando. Gente que ficou muito, muito chata.
Assim como fechei as portas da igreja semana passada.
Assim como venho fechando tantas outras portas.
E olhando janelas serem abertas, uma a uma, para o vento fresco entrar.
Clichê? Pode crer! Cafonérrimo o que acabei de dizer? Com certeza!
So what?
Vocês não têm ideia da quantidade de clichês e discursos decalcados que eu acabei de ler de mulheres tão inteligentes! Feministas! Que têm a palavra 'feminismo' como subtítulo de seus blogs e suas colunas semanais!
Elas podem?

Palavras

Prefiro ficar com Clarice:

"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentir, de entrar em contato... ou toca ou não toca."

Clarice Lispector

Na verdade, é o que sempre faz a diferença.

***

"Quando a lâmina ou o beijo não mais me tocarem, prefiro estar longe daqui. Uma vida sem nervos, pele, pêlos não me interessa. O resto todo está nos livros, nas telas, nas outras histórias, na ficção. Prefiro ainda escrever a minha história com a alma e o coração. O cérebro é a parte mais simples, mais fácil, mais ágil. O homem já o está dominando. Pensar é fácil. Pensar é moleza. Ser inteligente e loquaz não é difícil - é uma questão de trabalho. O coração, não. O coração não é assertivo. Para ele não há verdades absolutas. Ele experimenta, ele é impulsão, impulso. Declara-se a morte cerebral de alguém e o coração continua lá, batendo. Isto para mim quer dizer muita coisa."

(Cadernos de Paris, 2009)

"

Presentes
















Ganhei esta bolsinha com estampa do mapa do metrô de Paris de um lado e do RER (sistema integrado trem-metrô) do outro.

Aqueles mimos inúteis.
Que eu simplesmente adoro.
Coisas de mulherzinha.

Noturnas


torre, à noite

J'ai mal à l'oreille

De tempos em tempos, meu ouvido esquerdo 'surta'.
Ontem à tarde ele deu sinal de vida de novo.
Dor, pressão.
E, de quebra, o labirinto enlouquece.

Saudade do doutor japa, que dava conta disso em cinco minutos de consulta...

Vidadura



"foi alguma coisa azeda, e eu tenho certeza"

***


Recebo pela centésima vez e da mesmíssima criatura uma mensagem ‘fofis’ cujo título é: “vá atrás de quem vc ama.”
Vamos combinar?
Já deu, né?
Uma hora desiste?

***

Here: ... e pro resto todo, eu faço cara de ex-BBB.
There: Acorda!
Here: Depois não diz que não te avisei...

***

Quatro e meia da manhã e a cidade está deserta.
Parece que morreu todo mundo.
O maior silêncio.
Só ouço o tlec-tlec dos meus dedos no teclado do netbook.

Daí ‘sis entra no skype e pergunta:
- Já acordou?
- Não, fia, meus dedos digitam, mas o resto ainda está lá.
- Lá onde???? (grau elevado de ironia/sacanagem; emoticon com olho piscando)
- Rapidinho que tô apertadíssima, já vol...
(ih, a conexão caiu!)

Saudades da revista Mad e sua seção “Respostas Cretinas Para Perguntas Imbecis”.
Tô ficando velha.
Seis quilos a menos, a pele ótima, cachos hidratados, tudo azeitadinho, mas tô ficando galega.

***
Meu computador garrou vida própria.
Ficou assombrado.
Desisti.
Baixei. Opera, Safari, Chrome, o escambau.
Experimentando, enfim.
Usando o Opera e trabalhando com BrOffice no netbook.
E amando!
Quem diria? Tô virando uma ‘alternativa’.
Meditação, florais de Bach, música relaxante da natureza, cupons de promoção.

tsc, tsc, tsc

Só falta sandália de pneu, bata branca, fazer cerâmica e churrasco de nabo nos weekends.
Mas, por jesuscristinho, se me pegarem um dia com pêlos no sovaco e cabelo sem tintinha, podem me abater a tiros.

***

Novo livro.
Ideia que me veio assim, pof.
Sinistro.
Estou me divertindo pra caramba.
Primeiro romance.
(no papel, digo)


Seule

Cadernos de Paris



Conciergerie


"Foram semanas olhando aquele pulôver cinza-chumbo com renas brancas estampadas. Olhava todos os dias e achava tão ridículo. Até que, naquele dia, no quarto dia, é, no dia em que eu estive a um passo de dizer toda a verdade, eu resolvi: 'amanhã, na volta da aula, vou comprar o maldito pulôver'.
Devia ser uma espécie de purgação, mas não foi. Vesti o pulôver ao chegar em casa. E aí entendi porque meus olhos sempre paravam nele na saída do metrô. Aquela peça de roupa, coisa pueril e ridícula, me remeteu ao que entrava pela minha porta com um sorriso lindo, vestindo um pulôver cinza com renas bordadas em vermelho-escuro. Pobre, garoto, sozinho. Quando ele foi embora, me deixou o pulôver. Eu já tinha esquecido.
O que esta cidade faz, então, é me mostrar todas as referências que pensei estarem esmaecidas. Mas, principalmente, me ensina a sorrir para elas, jamais carregá-las como um fardo, uma sina, mas sim um presente em forma de momento mágico que a vida um dia me deu. Acima de tudo, me ensina a não renegá-las."

(Cadernos de Paris)

Moi et mon fils



marco zero, Paris, em Notre Dame


Gustavo em Paris em 2010!

Modo moi et mon fils [eu e meu filho] on.
Alegria imensa.


***

Duas horas de aula, discutimos feminismo em francês.
Por causa do dia internacional da mulher, 8/3, domingo.
Clichês são clichês em qualquer língua, com qualquer público.
Depois, reunião que não acabava nunca.
Morta, exausta, consumida.
Banho, sanduba rápido, cama.

E ainda por cima, estranha chuva na horta: hoje surgiram dois clientes novos de tradução.
Assim, pá. Dois. No mesmo dia.
Educação e esportes.
Vai ser bom mudar de assunto.

Villa-Lobos

Hoje, 5 de março, Villa-Lobos faria 121 anos.
É meu compositor clássico predileto.




placa em frente à residência de Villa-Lobos
simpática e justa homenagem dos franceses ao mestre



ele morou aqui, em Paris.
(Hotel Bedford)

Adoro as bachianas.
Especialmente o Prelúdio das Bachianas No. 4.
Belíssimo.
Muito grande pra fazer o upload aqui.
Mas ouçam. É uma coisa linda.

Enquanto isso...



nós, a zelite que 'parla' français, educadamente esperando o carro do metrô na hora do rush.

Os sentidos




Mandei por email o link da notícia pros meninos.
Eu, como cristã, católica, fico estarrecida.
Espero que meus filhos - cristãos, católicos - também fiquem.
Que sempre questionem as instituições e seus atos.
Independente do que seja 'fé'.
É uma questão de humanidade e bom senso. Não passa por dogmas.
Não tem essa de "mas é uma vida". Não é. Não é uma; são muitas vidas.
Uma criança de nove anos que sofre violência sexual ou whatever não pode gerar uma vida, criar um filho, ser mãe.
Simples assim. Ponto.

***

Cinco minutos depois, leio sobre a volta do desinfeLLiz.
Lembrei da peça de teatro em que Bruno fez o papel do estafermo.
Mauricinho, de gel no cabelo, terno e gravata.
Um aspirante a zelite.
Era uma peça da escola sobre política no Brasil.
Ele acabou num tonel de lixo - ele, digo, meu filho caracterizado de pústuLLa.
Que era, no mínimo, onde o cara de pau devia ter terminado.
Isto na vida real. O que parece não existir mais no Brasil.

***

Baixando a telinha, leio sobre o casal jogado da Niemeyer depois de um assalto.
O rapaz pergunta: "onde isto vai parar?"
Não sei, meu caro. Não para.
É a doença humana. Maldade é doença. É patológico. Em qualquer nível.
Já estive exposta a uma 'face' dela. Eu sei. Dói. Traumatiza.
Update: pegaram os caras.
Ah, coitados.
Disseram que estão desempregados e roubaram porque precisavam de dinheiro.
E jogaram o casal da encosta por causa do que mesmo?
Puxa vida!
E 'jão e eu que anos atrás perdemos a chance de roubar e jogar alguém de uma encosta e nem soubemos!

***

Detesto falar essas coisas, mas só consigo pensar em juntar o padrasto que estuprou e engravidou a menina de nove anos, o LLouco e os animais da Niemeyer e castrá-los para todo o sempre.
Para que não ponham outras bestas-feras no mundo.

***

Eu parei de ler jornal em papel há muito tempo.
Enchi. Enchi de ler essas coisas.
Preferi o método avestruz, o de enfiar a cabeça no buraco.
Ficava só com os cadernos prosa & verso e o 'mulherzinha' (Ela).
Acho que todo mundo precisa de cultura e batom.
Daí era só ler na internet.
O que, com o tempo, vou parar de fazer também.
Vou me tornar aquele tipo para quem as pessoas perguntam: "você não sabia? Você não viu?"
Não sabia. Não vi. Simplesmente não.

***

Primeiro relatório do calouro para a mãe:
- Não tem trote na faculdade de zelite - neguinho entra em sala de aula e trabalha.
- Na aula de cálculo para a zelite, tinha um laptop para cada aluno. Não precisa levar o seu.
- Um absurdo o bandejão da zelite a sete 'reau'. Acho, não. Mas é ele quem paga. Zelite, Zé!
- A cadimia, a piscina, a biblioteca impecável e muitas outras benesses são free para a zelite.
- Ônibus porta a porta com ar condicionado. É. A zelite paga mais 0,15 de 'reau' pra tomar a fresca.

Quero ser chata não, zé, mas tua sopa vai acabar.
A partir de agosto, 'tu' vai levar papel higiênico de casa para estudar na faculdade dos bonzinhos e politicamente corretos.
Aquela mesmo. Que só tem gente boa e gente do bem entre os zeilintinhos que passaram para lá porque pagaram colégio de zelite e cursinho de zelite.
Mas tudo gente fina, viu, Zé? Porque estão na federal.
Vai gramar no buzum sem ar.
Perdeu, 'prayboy'!

Fica frio porque depois 'tu' consegue a bolsa de intercâmbio de zelite na faculdade dos bonzinhos e vai morar em Paris com a mami.
A gente enche a cara de fromage e jambon e acha a vida líndia!

Mais um pouco e vai clarear

Era dia de Natal. Fiz a ceia na minha casa. Só nós mesmo.
Lá pelas tantas, peguei o violão, que havia retornado ao lar reformado, bonitinho, e comecei a dedilhar umas coisas que ainda lembrava.
Daí lembrei deste samba.
Comecei a tocá-lo e Guga veio do quarto, cantando, batendo as mãos.
Faltou o cavaquinho, que eu ainda não tinha.
Faltaram outras coisas, mas tudo bem.

Vésperas de eu partir para Paris.
E foi duro chegar com ele até o fim da música sem me emocionar.
Engasguei feio e, no final, nem disfarcei. Deixei rolar.

O momento foi gravado quando repetimos a segunda parte da música.
Não ponho aqui porque quero egoisticamente guardar aquele momento para mim.
Testemunhado por poucos.
Curtido e repetido, dias depois, via skype Paris-Rio.

Os negritos são meus.

***

Do fundo do nosso quintal (Jorge Aragão)


Mais um pouco e vai clarear (ê vai clarear)
Nos encontraremos outra vez
Com certeza nada apagará
Esse brilho de vocês
O carinho dedicado a nós
Derramamos pela nossa voz
Cantando a alegria de não estarmos sós

* Boa noite, boa noite

Pra quem se encontrou no amor
Boa noite, boa noite
Pra quem não desencantou
Boa noite, boa noite
Pra quem veio só sambar
Boa noite, boa noite
Pra quem diz no pé e na palma da mão
Boa noite, boa noite
Pra quem só sentiu saudade afinal

Obrigado do fundo do nosso quintal

***



Jogo da memória



Bouquinistes às margens do Sena vendem cartões, gravuras, livros antigos e LPs (sim, vinil).
São mal humorados, mas você nem precisa falar com eles.
Escolhe, paga e sai.
Tem coisa melhor?


***

Hoje li que, para os míopes, o bom de fazer 40 anos é não precisar mais de óculos para ler.
Ahn?
Vai ver os quatro anos a mais fazem diferença.
Eu tenho quatro óculos constantemente na bolsa.
- um para longe
- um para perto
- escuros para longe
- escuros sem grau para quando estou de lentes de contato
É.
Os quase quatro anos a mais realmente fazem diferença no meu caso.

***

Aviso aos queixosos em geral: o modo BBB está desligado.

***

Hoje o John chega.
Acho que há muito tempo eu não sentia tanta saudade de uma pessoa.
Quando eu abrir a porta e ele me sorrir branquinho com aqueles olhos azuis brilhantes, acho que vou enchê-lo de tabefes.

Sabores






tem gosto pra tudo

***

"Não seduzo com aquilo que me falta. Não apelo para empréstimos. Não minto façanhas.
(...)
Para delirar, observo. Não espremo as laranjas das pálpebras em nome da sede.

(...)

Estou muito pior. Eu me piorei para finalmente amar. Se é que entende o paradoxo.

Agora posso melhorar."


Fabro

Vai chover



"mais um pouco vai clarear"

As nossas , às nossas


"Aí seu choro tornou-se um pranto sem retorno. Aí ela chorava copiosamente. Era tudo o que não queria. Que ele morresse em seu coração. Porque ela sabia que ele jamais morreria dentro de sua mente. Seu medo, agora, era que ela morresse definitivamente na mente dele. Até o resquício de carinho que ela supunha ele sentir por ela em seu coração. E em sua angústia ela pensou: "que eu morra em seu coração e mente, mas que ele seja eternamente feliz." Ele estaria irremediavelmente para sempre no pensamento dela. Era assim que ela queria, era assim que tinha de ser. Ela simplesmente o amava e nem mais se importava que isso poderia implicar num vôo solo..."


Marie Tourvel



minha amiga óbvia

A joy forever



happy birthday, mom.

Criaturas


foto do Guga (mar/2009)


foto do Guga (mar/2009


foto do Guga (mar/2009)


a primeira flor do pé de manacá (foto do Bruno, jan/2009)


criaturas que fazem casa na casa da gente (foto do Bruno, jan/2009)

As águas do rio




Para Krika


"Querida

Como explicar Paris? Como me explicar?
A primeira coisa que ficou clara para mim foi no terceiro dia.
Quando entrei na loja do Louvre depois de uma visita e me deparei com uma pulseira egípcia com peixes e lagartixas, símbolos da regeneração e de vida nova. Ela custava os olhos da cara para quem estava na cidade-luz em regime franciscano. Mas na minha cabeça eu tinha os símbolos da regeneração e de vida nova, e diante dos meus olhos eu tinha um mundo inteiro que eu queria nas duas voltas daquela pulseira. Não comprei. Fui feita – ou defeita – assim, responsável. Ou fui ficando assim com o tempo, depois das cruzes, das fogueiras e de lençóis amarratados de camas sem fazer durante as longas semanas de que delas eu não me levantei. Ficava, então, apenas com o desejo do renascimento, da regeneração. Eu que soprava feridas com o ar quente da minha boca, agora tinha o ar gelado a me lembrar de uma outra realidade, um outro mundo, outras pessoas, sobretudo eu, outra pessoa que ali, naqueles arrondissements, caminhava com algo sorrindo dentro de mim.
Há um punho erguido, há uma sensação de vitória, de bastilha, de guerra civil, de maio de 1968 atrasado. Há com o punho erguido a cabeça erguida depois de estar escondida embaixo de tantos travesseiros e cobertas. Há um deixar para trás coisas que jamais pensei em deixar, mas por uma necessidade vital de aguarrar o à frente sem penas, sem remorsos, sem lágrimas a mais.
Eu podia dar a você todas as razões do mundo, mas sei que, muito antes de Paris, você já entendia Paris em mim, para mim e por mim. Porque, como eu, acredita naquilo que não se configura em órgão anatômico de uma pessoa, mas algo que transcende a ela e cuja explicação está muito além das nossas arroganciazinhas diárias.
Vim para voltar, amiga. Voltar a mim.
Poder, sozinha, me olhar numa casa sem espelhos. Dar chance aos que ficaram de, também sozinhos, perceberem a renovação, a regeneração, o amor e os perdões. E só assim, e só aqui, eu poderia perder o medo e redescobrir o que é acreditar. Perder a fé não é fácil. Readquiri-la – bem mais difícil. Não falo de coragem, egoísmo ou impulsividade. Nada teve a ver com nenhuma dessas coisas. Que têm, sim, cada uma delas, o seu lado A, a sua face positiva. Precisamos em algum momento da vida ter coragem, egoísmo e impulsividade. Às vezes é até mesmo uma questão de sobrevivência. Dominar uma língua nova, dominar um espaço novo. O que descobri recentemente são coisas fáceis comparadas a dominar um coração novo. Este, o meu, nesta cidade que a todo momento me abraça, me acolhe, me recebe, me acarinha e acima de tudo me dá a certeza, todos os dias, de que é o certo, não necessariamente o melhor, mas o bom o bastante.
Não falo de saudade porque não sei mais o que é. Foi-se ela junto com o medo de morrer, que só descobrimos quando acordamos um dia de nossas vidas sem vontade de viver, de abrir o olho, coar o café, ferver o leite e ver a rua lá fora. Aqui a vontade é de pular da janela e voar no instante em que o sino dá a primeira badalada de manhã.
E é sorrindo que eu levanto e vou viver.
Então era isto, querida: voltar a sorrir.
No fundo, querida, estamos todos sós. E é apenas a sós, sem acessórios, sem anexos, sem planos e sem mapa do tesouro que conseguimos nos olhar, nos ver, nos enxergar – que são três coisas bem distintas, você sabe.
Dominar uma língua estrangeira, dominar uma cidade nova à qual eu pertencia sem saber, a que amei bem antes de percorrer com intuição. Dominar sobretudo os meus demônios, aqueles necessários, convictos e por vezes pouco amigos, mas que, como o lado B, contêm músicas bonitas também, versos de hit parade e pequenas e grandes inconsistências que formam a nossa grande massa básica.
Ver novos materiais e matérias, estar aberta ao novo, ao lúcido que detona o delírio. Sentir amarras que nos colocamos, correntes que nos impingimos e, ou entrar em paz com elas, ou rompê-las de vez – sem violência, sem gritos, sem canhões, mas sob a luz forte do holofote que é e só pode ser o maior dos amores – o próprio.
Sei que por trás do vai-e-vem das minhas metáforas e ideias rebuscadas você encontrará sua amiga de sempre que deixa aqui um abraço apertado e carinhoso e um grande beijo."



(Cadernos de Paris, 2009)

***

E com este, ponho fim aos 'dedicados'.
Vamos trabalhar.


Rio, Paris



a cidade mais linda do mundo - 444 anos



a minha cidade mais linda do mundo