Enquanto a ampulheta roda

"O tempo das injeções cerebrais nos prontos-socorros ainda está longe. Mas não é cedo para notar que a cura das experiências penosas de nossa vida não está no esquecimento, mas no esforço para se lembrar delas em toda sua incômoda complexidade."

contardo calligaris


É por isso que nem tapete tenho em casa.
Nunca tive.
É bem improvável que venha a ter um dia.

***

O leão urra.
A ampulheta roda na tela.
Eu espero.



***

Momento sorrisinho



Em uma lã-rrauze.

É a tal 'inclusão digital'.

Tô até agora encucada com o 'limpamos foto'.
Digamos que mais ou menos interessada.
Just in case.

***

Véspera de pássaros e flores

Pedi ao jardineiro que me ensinasse a cuidar de uns fungos branquinhos do meu pé de manacá.
Primeiro ele me veio com um papo de ‘calda de fumo de rolo’.
Os cabelinhos da minha nuca arrepiaram-se e fiz cara de nojo.
Ele olhou bem a pose da perua estatelada na espreguiçadeira tomando uma absolut com lichia e viu que não ia rolar o rolo.
Então me ensinou a fazer uma ‘calda com sabão de côco’.
Hum.
Fiz.

Daí o guri-rei me pega na varanda fazendo pf-pf com o spray da tal calda que eu fiz numa panelinha.
(Ó, só, como o tempo sobra!)
E, depois, passei o algodãozinho de leve limpando cada folha.
Pois é. Fo-lha-por-fo-lha.
Você também ficou preocupado(a) comigo?
Pois é.
Eu fiquei.

***
A moça trouxe um tupperware de brigadeiros pro Gu, xodozinho dela.
"Pra você levar na viagem", ela disse.
O menino abre o maior sorriso, aquele brancão que ele tem, e diz:

- Ô, querida, foi o melhor presente que recebi.

Caramba, hein?
O garoto sabe das coisas.

***
Uma e vinte e sete da manhã e o site do leão ruge, congestionado.
O bom disso é que não é problema meu.
Nem vi.
Sei nem como faz.

***
Hoje, pela segunda vez em dois anos, tive raiva dele.
Deu vontade de enfiar as unhas no tecido lindo daquele divã.
Puxar um fio da almofada de oncinha.
Mas como pobre tem azar, estou em fase de roer unhas.
Nem isso, meu deus, nem isso!

***
Espirrei o dia inteiro.
Não tô dizendo?

Atchoinc!

(Tá, foi mal.)

Em verde e azul

"Vejo um menino arrumando a mala e outro a separar óleo para um trabalho de química. Eles correm para o fazer, e eu para os pássaros e as flores. Ando atrás deles ultimamente. Fujo da praia, das ondas que remetem a movimento, do som da espuma. Me volto agora para o verde, o colorido passivo das flores e passarinhos que trazem outro tipo de movimento porque chegam para se alimentar. Os que fizeram ninho embaixo da minha janela entram e saem o dia inteiro, agitados e famintos. Me lembram que a vida é essa coisa dos ciclos, do fazer e desfazer ninhos, buscar alimento e, às vezes, simplesmente observar.

Ontem, junto aos meus, olhando-os do outro lado da mesa, me dei conta desses anos todos. De quando olhávamos caminhos de formigas, passarinhos indo e vindo e as flores que escolhíamos na feira. Olho homens que despertam e desabrocham coloridos, voam vivos e entram e saem dos dias da minha vida. Com suas chaves, seus olhares de chegada, seus passos de pés grandes. Homens já, que procuram o mar enquanto eu voo para a serra.

Um quer ganhar o nobel de medicina com suas teorias sobre vírus. O outro, entre pipetas, tubos de ensaio e programas de cálculo, divide sua primeira caipirinha comigo enquanto observamos bichos-pau mergulhando e nadando seus corpos magros na piscina, sóbrios que estávamos e como sempre estivemos.

Não temos nada a provar. Foi o amor que nos trouxe aqui. Talvez uns pássaros e umas flores. Um equilíbrio de verde e azul.

Quando os vejo tão raros, percebo mais ainda o quão pouco eles são meus. O quanto os botei na rua, em ônibus, caminhos desconhecidos, mares imensos. O quanto os fiz viver como se eu não estivesse aqui e ainda assim eles pudessem seguir com a minha invisibilidade cada dia mais presente para eles. Não sei ao certo se foi ensiná-los a fazer malas, a não perder pés de meias, a andar no escuro em casa, a fritar um ovo, a brincar de olhar para o teto e pensar, imaginar, sonhar, desejar.

Então não é por eles que estou aqui. É porque pontes foram erguidas, estradas foram abertas, trilhas foram descobertas. E caminho aberto não tem volta. Não há mato que cubra e esconda caminho que ficou marcado no chão."


(abril, 2009)

Aos vinte e nove de abril





feliz aniversário, filhote
como foi -- e é -- bom participar do seu caminho!

***

Lá vai ele correr seu primeiro campeonato mundial em nova classe
Aos 14 anos
Feliz da vida

É bom gostar do que se faz
Dá nisso

Aleatórios

Moleque conta quantos furinhos existem em um biscoito retangular.
Depois, conta quantos biscoitos há no pacote.
Depois, faz um cálculo de quantos biscoitos a fábrica ganha por causa dos furinhos.
Assim, por alto, ele conclui brilhantemente que a cada três pacotes com nove biscoitos a fábrica ‘fatura’ um pacote.

E nem é falta do que fazer.
É um cara ocupado.

Uma zebra de presente de aniversário cairá feito uma luva para o moleque.
Horas de diversão eco-friendly contando as listras da zebra.
E, depois, tentando decifrar o incrível enigma: ela é preta e branca ou branca e preta?
An amazing kid.

***

“Levar rasteira é inevitável, mas 'cair' de pé, é fundamental”

Frase esperta de amiga bonita num e-mail.
E muito apropriada aos joelhos ralados.

***

"Mal posso esperar o momento de meter a marreta na parede e abrir um buraco onde essas duas casas se separam. Olhar o outro lado e saber para onde vai o futuro. Se é que a gente chega a saber hoje mesmo.
Eu, de macacão cinza com manchas de tinta, luvas de couro e óculos de proteção. E o braço e a marreta não se mexem. Faço um chá e olho a grande parede branca. Nada se move.
Prefiro, então, molhar as plantas. Elas me retribuem afeto e cor. Cuido delas, que me sorriem em branco e violeta.
Paredes não falam, e sou grata por isto."

(abril, 2009)

***

No incrível espaço de longas 24 horas entre traduções - a que seguiu ontem e a nova que virá hoje à tarde - fico caraminholando as opções de 'fazer'.
Vejo o noticiário.
Compro ingresso para ver meu ator predileto no palco com um texto que adoro.
Planejo uma lasanha para o jantar.
Recebo uma nova proposta de trabalho enquanto o noticiário fala sobre a próxima calamidade mundial.
Assim, às oito, o telefone toca e eu terei o que fazer.
Exatamente enquanto planejava o que fazer.

***

Mais uma assinatura e estarei por minha conta.
Foi o que deu.

***

Nanoconto

"Entre uma garfada e outra da moqueca, ele declara -- suspiro acompanhando e tudo:
- Agora estou fazendo análise.
Olho o fio de suco que escorre do meu bife e devolvo um sorriso."

***




Voos

Fui comprar presente de aniversário pro Gu.
Faz 14 anos.
Está muito mais alto do que eu.
Tão bonito!
Calça 43/44, veste as roupas do irmão.
Agora eles têm um 'armário compartilhado'.
Dividem roupas, engraçado.
Houve tempo em que eu passava as roupas de um para o outro.

Meu pequeno está perdendo a cara de guri, ganhando ares de homem.
Uma discreta linha de pelinhos escuros acima do lábio superior o incomoda.
Eu acho graça; ele, não.
Acho graça nesse crescer.
Acho um prêmio, um privilégio assistir, observar, estar ali, em paralelo.

Dividimos dias gostosos.
E eu os olho meus e já muito pouco meus.
Escuto de outras pessoas que eles são 'raros', de educação 'incomum' para os dias de hoje.
Bons genes, boas índoles - eu penso.
E trabalho.
Sim, muito trabalho.
Amor, companheirismo, umas briguinhas, muito papo.
Sorte.

São sadios. Bons meninos. Boas pessoas.
Há bondade ali - eu sinto.
E é o que me encanta.
Que jamais percam isto.



He's hot

A melhor das últimas zapeadas com o controle remoto da tv:

- Aceite Jesus em seu coração. Jesus é quentinho.

Eu fiquei entre uma imagem de casaco de couro e xale de lã.

Então, rapidinho para a moça de unhas grandes que vende aneis horrendos.

***

Incrível o olhar de um cão que 'parece' reconhecer você.
Depois de tanto tempo.

Coffee and conversation




“... we, ugly ducklings, have the permanent job of overcoming what would have been if we were born swans. Instead of swimming in the gracious lake of tranquility and self-assurance, we get used from ever since we can remember to prove our best with great effort. This is not an easy task, my darling. We come to believe – and we are actually fervour about it – that less is more, and that’s how we eventually flourish and succeed. It’s not a matter of achieving. Instead, it’s one of desiring. Different from the swans, we can manage to fly. And we do indeed. Unsteady, frightened and vulnerable at the beginning, we finally reach a point in which life does not depend on measuring sticks, but in the quality of the flight, in the beauty of the journey. And then, landing is not an option anymore.”


(April, 2009)


Balé das gaivotas

video

tinha churrasco no vizinho...

Faz de conta que ainda é cedo







***

na vitrola

"... por favor/deixe em paz meu coração/que ele é um copo até aqui de mágoa/e qualquer desatenção/faça, não/pode ser a gota d'água."

(Gota D'Água - Chico Buarque de Hollanda)


(thanks, John)

Porque hoje é domingo, eu quero




uma âncora
exatamente isto: uma âncora

***

Faz um dia tão absurdamente lindo, que não me resta alternativa - cedo, muito cedo - a não ser sair e expor o rosto ao sol.
Com fps 30, óculos escuros e tal.
Tradutor também é gente.
Como os cães.

Porque hoje



é dia de plantar coisas novas

ervas - manjericão, salsa, cebolinha, hortelã
flores - amores-perfeitos, crisântemos

e de botar as orquídeas para pegar sol logo cedo

Quem diria?
Eu cuidando de planta.
(conversei tanto com o pé de manacá que ele está cheio de florzinhas de novo)

Para completar, descubro que uns passarinhos fizeram ninho no buraco do ar condicionado.
Piam o dia inteiro.
Impossível tirar uma foto sem despencar lá embaixo.
Em se tratando de mim, melhor nem tentar.

Mas vou bolar uma 'gambiarra' para fazê-lo.
Ah, se vou.

***

"A culpa nos torna atentos, missionários dos cílios. O homem só é romântico com a culpa. As flores criminosas crescem à vontade na ponta de seus dedos. Homem culpado é humilde e amoroso como um chapéu na cadeira, um avental no gancho. O sexo é muito mais intenso e voraz com a culpa. Trepa-se como se fosse a última vez sempre. Os pais pedem desculpas pela culpa. Largam a arrogância dos castigos pela audição dos pés. Os bichos aprendem seus hábitos pela culpa. Trocam o cativeiro pela obediência."

(Fabrício Carpinejar)

ele, sempre
em perfeito sincronismo

***

Falo nada.
Ao vivo e em cores.


***
Feriado?
Oi?



***

"... como os cães saindo da água: sacodem a umidade, deitam-se ao sol, aquecem o corpo e os pêlos. E esperam passar. Assim será."



O dia em que Lady Bee perdeu o glamour

Bedridden é uma raça difícil. Basta a criatura não poder levantar e ela quer, precisa, pelamordedeus e já.
Já no quarto, não bastasse sonda urinária e soro - uma dupla infalível que faz você produzir e eliminar uma quantidade de líquido que irrigaria hortas e mais hortas -, a fofa declara que precisa ir ao banheiro.
Pede a minha conivência para tal.
Não posso. Depois de um brigadeiro contrabandeado para a UTI, não posso.
Se não posso resolver um problema, passo adiante.
Enf-ponto. A enf-ponto vai ajudar.
Não, não vai. Ordens médicas, bedridden it is.
Volto ao quarto, portadora de más notícias:

- Nope, darling. Vai ser no fraldão ou na comadre.
- Nunca!
- Então, exploda.
- Me ajuda...
- Concentre-se. Feche os olhos. Respire fundo. Ohm, ohm, ohm. Pense em mil garrafas enfileiradas, todas com rolhas bem presas ao gargalo. Pense num buraco e muito cimento em cima. Pense em si mesmo como um ser superior, capaz de controlar essa montanha que vai e vem dentro de você. Pense em...
- Pelamordedeus, chama o aux-ponto-enf-ponto!

Pela expressão e a cor dos olhos - que de verdes viraram um marrom profundo - decido correr com minhas sandálias poc-poc pelo corredor.
Mas aux-ponto-enf-ponto que não é bobo nem nada já vinha com a tal comadre.
E com minha mãe a tiracolo.
Pronto! Mãe é pra isso. Assume seu lugar, véia. Mas mãe fica véia, e véio é uma raça que de repente, não mais que de repente, vira criança. Ou seja, véia abandona a própria filha em quase explosão com o aux-ponto-enf-ponto no quarto com a TV de plasma.
Eu abandonei mesmo. Levei bolsa e tudo, tchau, honey, beijim, já vou, visse?
Peguei o primeiro taxi e bye.

Contam que no meio da operação estratosférica, entra aquele médico esperado desde o dia anterior. Nem deu tempo de dizer para não entrar. O homem entrou, não respirou fundo, fez pose de lorde e passou visita. Dizem - a mais rápida já vista naquele hospital.

Não satisfeita em pagar o mico dos oito andares do hospital chique, à tarde houve nova explosão e aux-ponto-enf-ponto foi, coitado, desanimado da vida (ô profissão besta!) ajudar sua paciente. E como pobre tem azar mesmo e azar de pobre dura que nem praga de madrinha, finda a operação, me contam que entrou o lorde mor, o cirurgião, a segunda coisa mais linda e fofa que d'us pô no mundo depois de Brad.

Contam que foi a alta mais rápida da história do sétimo andar. Nunca antes na história daquele hospital uma paciente saiu do estado 'quase' para a rua. Festa no andar, fogos, brigadeiros, quantidades industriais de Glade sachê e Bom Ar para dar cabo do rastro de formosura da paciente que, dizem, saiu dizendo obrigada a todos, mas sem olhar nos olhos.

Querida, na próxima vamos para um hospital na divisa com o Espírito Santo. Combinado?

À noite, mesmo exausta, faço uma visita a Lady Bee e encontro-a toda faceira de robe xadrez, de pé, ao telefone. Entro com dois brigadeiros na mão, mas peço, por favor, que coma depois que eu sair dali, e que não vou demorar. Just in case. Quero guardar boas lembranças de Lady Bee sempre, chique, discreta, tímida e principalmente cheirosa.

Um espaguete à carbonara e um Santa Cristina depois, meu nobre acompanhante (ahá - acompanhantes também têm acompanhantes, tá pensando o quê?) pede sobremesa, da qual eu declino ainda animada com a 'perca' de alguns quilos nos últimos tempos.

Vem para a mesa uma gororoba de chocolate. Uma montanha disforme que gritava "perigo, perigo, explosão". Não houve como não juntar a com b e fazer tal associação.

- Você deve estar de sacanagem ccomigo, né?

Teimo que serão mais alguns meses sem comer brigadeiro. Just in case.

***

Tarde da noite, exausta, resolvo desfazer a bolsa e encontro uma camisola de hospital.
É.
Aquele tipo, aquela cor que não favorece nem a Angelina.
Mas essa tem até um estampadinho.
Resolvo experimentar.
Cabem dezoito eus ali dentro, mas dou a volta no cordão, amarro, viu como ficou bonitinha?
E é fresca, macia, cheirosa.
Cinco minutos depois e eu arremesso a dita-cuja longe.
Ih, sei lá.
Melhor não brincar com essas coisas.
Vou fazer paninhos de limpeza com ela.
Just in case.

Já é quinta-feira?

Nós, os caretakers, turno da noite, somos uma raça especial.
Uma espécie de grupo seleto e sofisticado, que desce ao lounge (sim, é hospital chique) de madrugada para fumar e tomar cafezinho em roupas menos nobres: havaianas, calça e blusa que invariavelmente não combinam, cabelos desgrenhados e aquela indefectível cara de guaxinim (= olheiras profundas; olhos de rímel de ontem).
Mas temos sorrisos uns pros outros.
Um sorriso que começa tímido e lá pelo terceiro encontro ci-ca (cigarro-café), já podemos nos chamar pelos primeiros nomes além de reclamar do frio, do café e dos bip-bips dos monitores.
E no dia seguinte, é claro, reclamamos mais um pouquinho da moça que entra às cinco e pouco da manhã com a bandeja do café; da que entra cinco minutos depois com os comprimidos; da que entra três minutos depois para esvaziar a sonda. E você desiste mesmo de dormir.
Enfim, reclamamos porque não dormimos, porque nosso 'paciente' custou a dormir, porque o tênis faz quee-quee no chã limpo, porque o sabonete do banheiro tem cheiro de nada e porque ontem à noite trouxeram minguau na ceia. Eca. Mil vezes eca.
Somos, sim, seres especiais.
Nos entendemos pelo olhar como velhos amigos.
Nos acompanhamos sem sermos pacientes.
Nos acompanhamos como acompanhantes que somos.
É quase certo que não voltaremos a nos ver.
Ou, quem sabe?
Né?

***

Contrabando de brigadeiro para dentro da UTI.
Uia!
Claro, com a conivência da médica, mas a total ignorância do pessoal da UTI.
Até uma meia é difícil entrar sem que eles saibam.
Imaginem um brigadeiro.
Mas a criatura estava lá há 25 horas sem comer, passou o pão que o diabo amassou, putisgrila, merece um brigadeiro, né?

Veio ele. Gordo, pretinho.
Os zoinho da moça brilharam.
Tascou o bicho de uma sentada só na boca e cerrou os lábios tal qual uma onça faminta.

- Vou deixá-lo aqui derretendo meia hora, só curtindo o gostinho... Que delícia!

Eis que vem a enf. (todas são 'enf-ponto-alguma-coisa', uns cães brabos que só!) com dois comprimidinhos e um copo d'água.

- Doutora, hora do seu remédio.

A coitada fez ar de choro.
Que azar, putz!
Fazer o quê?
"ô, deifaí que eu fá tobo"? - falando com o canto da boca fechada.
Ou abrir a boca pra falar direito e revelar aquele pretume todo nos dentes?
A pobre empurrou os dois comprimidinhos pelos lábios cerrados, deu um gole minúsculo na água e um sorrisinho amarelo.

- Pô, sacanagem... Foi-se quase tudo!

É.
Pobre não tem sorte mesmo.

***

Mil vezes um enfermeiro (não, 'eles' não são enf-ponto).
Como são delicados no lidar com o paciente!
Que mãos!
Que banho, hein, 'sis!

Bachianas



a minha preferida entre todas
sempre

sabe A música que você põe pra tocar naqueles momentos?
pois é
é ela
A música

'perca' dez minutos, feche os olhos
e ouça toda a beleza e a doçura dessa obra prima


obrigada a você que me mandou

From the lounge

Seis horas depois, é interessante ver a expressão de um médico que salva sua paciente de tantas complicações inesperadas
O abraço e o beijo dados por ele na família inteira à espera
Um sorriso no rosto que passava ao largo do cansaço e da tensão

Bom ver que ainda tem gente assim por aí

***

Em duas idas à cantina, dois espetáculos de falta de educação e grosseria alheias.

Um claramente abusivo tamanha a carga de agressividade, grosserias, sarcasmo, ironia, queixas etc.
Com a mulher e a própria mãe, uma senhora já, ali internada e passeando ao ar livre.
Tive ânsias de fazer uma coisa com o quibe que ele comia a contragosto.
Só vi um caminho possível para o tal quibe.
O homem já me olhava estranho, talvez querendo saber por que eu o encarava tanto.
Bullying mesmo, na mais perfeita manifestação.
Um doente, um infeliz.

E como para todo sádico e opressor existe um masoquista oprimido, mami e 'espousa' aguentavam o tranco caladas, passivas e quase 'conformadas'.
E eu torcendo pro cara me achar com cara de geleia e me tascar um "e aí, tá olhando o quê, perua?"

Uma pena ele não ter falado comigo, crescido como macho pra cima de mim.
Era só o que eu precisava ontem.
Um "come on, make my day, asshole".
O tal "Um Dia de Fúria".
Logo eu, que não sou disso.

E mais: cheguei à infeliz conclusão de que 'por favor', 'boa tarde' e 'obrigado' foram-se no mesmo saco dos 's'.
Ninguém mais 'usa' plural.
Tanto quanto esqueceram o mínimo de boa educação que deveriam usar com todos, principalmente com quem está do outro lado do balcão, servindo com simpatia e cordialidade.
E não eram crianças ou aborrecentes, não.
Adultos mesmo.
Barba na cara, cabelo branco e tudo.

***

Um viva à minha veinha, que comportou-se como uma lady o tempo todo.
Eu, confesso, não teria conseguido.
Não, nunca, jamais, com um filho há seis horas lá dentro correndo risco.
Depois, aquele cheiro na testa da filha.
Como só as mães sabem cheirar seus filhos depois de passado o perigo.

***

Onze horas de sono non-stop.
Eu merecia.

Trabalho, casa e o the same old de sempre.
Depois uma passadinha na UTI e, acho, um chope para ajudar a descer não só ontem, mas as últimas semanas.

What is to have a dream

O que é ser gente.

Mulher, gordinha, 47 anos, mora na rabiola do mundo.
Sobe ao palco de um programa frequentado por gente descolada que ambiciona ser pop star.
Gatinhas, gatinhos, gente de cabelo cool e atitude idem.
Ela vem com seu corpinho de rancheira, vestido batido e fora de moda, cabelo sem ver cara de hairstyling.
Diz que seu sonho é ser cantora profissional.

Observem a atitude, a expressão e o pré-julgamento dos jurados e da plateia.
Observem como olham a capa do livro.

Mulher pronta para ser o pato da vez, o motivo de gargalhadas, o mico do ano.
Mulher abre a boca e canta - "I have a dream", diz um dos versos.

E cala o mundo de preconceitos.
Com humildade, segurança e talento.

Observem como os rostos vão mudando conforme ela canta.
Observem, no final, o que dizem os jurados.
Que presente, que honra e que 'wake up call' - como bem disse a jurada.

O que é ter estrela.
O que é sonhar.

Não pude deixar de me emocionar e de entubar tanta coisa.
Mas é que hoje estou no hospital acompanhando a cirurgia de aneurisma da minha irmã Bia, e estou naquele ponto de os olhos encherem d'água se me trouxerem um cafezinho.

http://www.youtube.com/watch?v=RxPZh4AnWyk

Mão esquerda



au lieu de




o dia em que o sol nasceu como um dardo no olho esquerdo

***

"Observei atentamente os gestos deles. Passei a noite entretida nesse observar. Achava graça na vida e nos ares de anúncio de margarina.

Ao mesmo tempo em que ela falava sobre um assunto interessantíssimo, cobria a taça com a mão em concha para que o garçom não servisse mais vinho no copo do marido. Ele nada fez. Concordou como sempre. Até com a última garfada no prato ainda não terminado, pois já era comida suficiente na opinião dela. Ou com recusar o cálice de licor porque não se daria bem com as três taças de vinho já tomadas.


Há anos - eu reparava - não discordavam de mais nada. Andavam abraçados pelas ruas, de mãos dadas, e a vida era um sorriso permanente. Não que ela lesse os pensamentos dele. Não. Ela pensava por ele, falava por ele, vivia por ele. Uma espécie de acordo subliminar: ela era; ele estava.

Cada vez me impressiona mais uma vida perfeita. A beleza americana - rosa sem perfume - dos que vivem para a plateia a mais perfeita das vidas."

(Cadernos do Rio, abril 2009)

Sweet Eighteen

feliz aniversário, filho





um beijo e todo o meu amor

April fool


"Essas palavras secas e sem rédeas, 
Bater de cascos incansável.

Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida."

Sylvia Plath
(tradução de Ana Cristina Cesar)



Nanoconto -- Revelação -- Nanoconto

"A segunda garrafa trouxe uma linha. A última - garrafa, linha e crença. O buraco era mais embaixo, portanto. E mais profundo. E no sul, não havia mais Equador."

***

Estou desconfiada de que Killer é gay.
Nada contra.
Mas é que a convivência com Lindinha está ficando esquizo pra caramba.

***

"Mais adiante, o que restou a ferir foi muito pouco. Não havia mais território a secar, nem árvores a queimar. Restaria somente o embaçamento míope da ilusão."

Digressões de antevéspera

18 anos

Não rola carro, nem qualquer 'veículo que use combustível'
Antes era clichê dos filhos da zelite aos dezoito: papai dá um carro
Agora, no 'século da informação', os mauricios e marcelos querem um notebook

Assim será

Lindo, zero bala, em suaves trocentas e vinte prestações
E, claro, filho de zelite tem note melhor que o da mamis
É o que ele acha

***

Outro dia brinquei com um amigo, conversando a respeito da internet:
"se você deu um mau passo na vida, eu descubro"

Fiquei conhecida tempos atrás como a 'perdigueira da net'

Mal sabia eu.

***

Domingão de sol e pernas esticadas à beira d'água, ouvi a pior das histórias
Sobre um 'quadrilátero amoroso'
Ângulos fechados, os vértices, noventa graus
Lágrimas, paixões e desesperos

Já foi tempo em que 'triângulos' eram o papo da hora

A novidade da hora é a figura amorosa composta de 2 e meio
Não tem nome pra isso
Mas vou criar

Fico só pensando na era dos pentágonos e heptágonos amorosos

Ui.

***


e a coisa mais ridícula é no fim do dia estar com dois retângulos brancos no rosto

Dia de visita










***

São plantas difíceis.
Não são pra mim.
Vai ver, por isso mesmo ganhei três.

***

Spam:

"You have dated too many women and your heart is closed for reconstruction?
How about healing your heart by meeting a charming
Russian woman at [....]
Don't refuse from this chance it might be your destiny!"

Medo.

The word of all times













Jasmim



toda semana arranco um galho com as pequenas flores




e as guardo dentro do meu relicário


E ainda acho que quanto mais flores arranco
Mais elas brotam

Overwhelming




two weeks

le livre est sur la table







Nature II






coisas que nascem agarradas em outras

Fool