Bedridden é uma raça difícil. Basta a criatura não poder levantar e ela quer, precisa, pelamordedeus e já.
Já no quarto, não bastasse sonda urinária e soro - uma dupla infalível que faz você produzir e eliminar uma quantidade de líquido que irrigaria hortas e mais hortas -, a fofa declara que precisa ir ao banheiro.
Pede a minha conivência para tal.
Não posso. Depois de um brigadeiro contrabandeado para a UTI, não posso.
Se não posso resolver um problema, passo adiante.
Enf-ponto. A enf-ponto vai ajudar.
Não, não vai. Ordens médicas, bedridden it is.
Volto ao quarto, portadora de más notícias:
- Nope, darling. Vai ser no fraldão ou na comadre.
- Nunca!
- Então, exploda.
- Me ajuda...
- Concentre-se. Feche os olhos. Respire fundo. Ohm, ohm, ohm. Pense em mil garrafas enfileiradas, todas com rolhas bem presas ao gargalo. Pense num buraco e muito cimento em cima. Pense em si mesmo como um ser superior, capaz de controlar essa montanha que vai e vem dentro de você. Pense em...
- Pelamordedeus, chama o aux-ponto-enf-ponto!
Pela expressão e a cor dos olhos - que de verdes viraram um marrom profundo - decido correr com minhas sandálias poc-poc pelo corredor.
Mas aux-ponto-enf-ponto que não é bobo nem nada já vinha com a tal comadre.
E com minha mãe a tiracolo.
Pronto! Mãe é pra isso. Assume seu lugar, véia. Mas mãe fica véia, e véio é uma raça que de repente, não mais que de repente, vira criança. Ou seja, véia abandona a própria filha em quase explosão com o aux-ponto-enf-ponto no quarto com a TV de plasma.
Eu abandonei mesmo. Levei bolsa e tudo, tchau, honey, beijim, já vou, visse?
Peguei o primeiro taxi e bye.
Contam que no meio da operação estratosférica, entra aquele médico esperado desde o dia anterior. Nem deu tempo de dizer para não entrar. O homem entrou, não respirou fundo, fez pose de lorde e passou visita. Dizem - a mais rápida já vista naquele hospital.
Não satisfeita em pagar o mico dos oito andares do hospital chique, à tarde houve nova explosão e aux-ponto-enf-ponto foi, coitado, desanimado da vida (ô profissão besta!) ajudar sua paciente. E como pobre tem azar mesmo e azar de pobre dura que nem praga de madrinha, finda a operação, me contam que entrou o lorde mor, o cirurgião, a segunda coisa mais linda e fofa que d'us pô no mundo depois de Brad.
Contam que foi a alta mais rápida da história do sétimo andar. Nunca antes na história daquele hospital uma paciente saiu do estado 'quase' para a rua. Festa no andar, fogos, brigadeiros, quantidades industriais de Glade sachê e Bom Ar para dar cabo do rastro de formosura da paciente que, dizem, saiu dizendo obrigada a todos, mas sem olhar nos olhos.
Querida, na próxima vamos para um hospital na divisa com o Espírito Santo. Combinado?
À noite, mesmo exausta, faço uma visita a Lady Bee e encontro-a toda faceira de robe xadrez, de pé, ao telefone. Entro com dois brigadeiros na mão, mas peço, por favor, que coma depois que eu sair dali, e que não vou demorar. Just in case. Quero guardar boas lembranças de Lady Bee sempre, chique, discreta, tímida e principalmente cheirosa.
Um espaguete à carbonara e um Santa Cristina depois, meu nobre acompanhante (ahá - acompanhantes também têm acompanhantes, tá pensando o quê?) pede sobremesa, da qual eu declino ainda animada com a 'perca' de alguns quilos nos últimos tempos.
Vem para a mesa uma gororoba de chocolate. Uma montanha disforme que gritava "perigo, perigo, explosão". Não houve como não juntar a com b e fazer tal associação.
- Você deve estar de sacanagem ccomigo, né?
Teimo que serão mais alguns meses sem comer brigadeiro. Just in case.
***
Tarde da noite, exausta, resolvo desfazer a bolsa e encontro uma camisola de hospital.
É.
Aquele tipo, aquela cor que não favorece nem a Angelina.
Mas essa tem até um estampadinho.
Resolvo experimentar.
Cabem dezoito eus ali dentro, mas dou a volta no cordão, amarro, viu como ficou bonitinha?
E é fresca, macia, cheirosa.
Cinco minutos depois e eu arremesso a dita-cuja longe.
Ih, sei lá.
Melhor não brincar com essas coisas.
Vou fazer paninhos de limpeza com ela.
Just in case.