coisas que nascem na grama, assim, no meio do nada
Fiquei deitada na grama uns bons minutos até conseguir o melhor ângulo. Depois, claro, soprei a branquinha até voarem todos aqueles pelinhos. Coisas da infância.
***
Não há nada melhor do que um sábado de chuva e frio. Sério. E não sou londrina, mas parte de mim é. A alegria que eu sinto quando abro a janela num sábado de manhã e cai aquela chuva fininha, e as nuvens estão cinza e estamos numa temperatura humana de 22 graus só pode ser coisa de carioca gagá.
***
Open courses da Yale University. Um dia você ainda vai fazer um. Ou não.
Ontem à tarde os passarinhos faziam o maior salseiro no peitoril da minha janela. Pulavam, trinavam, cantavam como se fosse uma tarde de verão. Voavam felizes entre as plantas da minha varanda, o ar-condicionado do vizinho e o peitoril do homiófice. Parecia que brincavam entre eles, uma espécie de pique-esconde, coisa assim.
Acabei descobrindo que são.
atendem pelo mimoso nome de caga-sebo o que para quem tem um vaso de marias-sem-vergonha na varanda tem tudo a ver...
no Palaphitas, à beira da Lagoa
um espelho
as good as it gets
***
Uns 30 atchins depois, Lindinha com garganta inflamada, Killer - como todo homem que se preza - prostado na cama, e eu volto para o capítulo de saúde dos adolescentes, sexo drogas & rock'n roll.
O envelope com capítulos da editora para traduzir diz que não emagrece com chá de casca de perobinha.
Nem com reza forte.
Cadê que os olhos abrem?
***
Há pessoas que têm uma dificuldade ancestral de ser feliz.
É caso entranhado nas vísceras.
Deve ser uma coisa muito, muito difícil mesmo.
***
Almoçavam de mãos dadas.
Ele, um chato.
Ela ostentando grossa aliança de ouro no dedo anular da mão esquerda.
Sorrisos, arrulhos.
A tinta do cabelo era compartilhada – mesmo tom exato.
Os sorrisos compartilhados eram fartos e tímidos, como os passos, as mesmas suéteres de gola rolê.
Um casaco de couro dele.
O celular dela toca na mesa.
Ele pula, pede o celular grosseiramente, diz que ‘ela não vai atender’.
Ela dá o celular para ele.
- Alô, alô, alô, alô.
Ninguém responde.
Ele devolve o celular.
Silêncio de ambos.
Minha abobrinha recheada de mussarela de búfala dá voltas no estômago.
Ele come comida separada, alguns itens que ela tirava da bolsa, em saquinhos, caixinhas.
É o amor.
***
There: Onde?
Here: Paris.
There: Jura?
Here: Hum, hum.
There: Fala sério, sem brincadeira!
Here: Paris.
There: Oh!
Pára tudo! Uma ideia passou aqui: um ou dois barquinhos de oferenda de yemanjá e eu faço a mesma gracinha na minha varanda.
***
"who needs a heart when a heart can be broken?"
Tina Turner, ontem, no rádio. (What love's got to do with it)
***
"as janelas da alma podem ser cobertas por vitrais coloridos".
Uma belíssima imagem do amigo Roney em ótimo texto sobre relações online/offline, reais/virtuais.
Janelas da alma, percebo, também têm cortinas, persianas, blindex. Umas têm grades. Outras, redes de proteção - impossível pular nelas e delas. E insufilm - você sabe que tem alguém ali dentro, só não dá para ver. As interditadas - toras de madeira, pregos, e a luz só passa pelas frestas.
coisas que nascem no meio das pedras do meio do caminho
***
No celular, o ícone de mensagem de voz grudou, não descola.
Não obstante não ter uma única mensagem de voz na caixa.
Eu mando apagar.
Há semanas.
Não apaga.
A maldita orelhinha lá, todos os dias.
E já faz mais de um mês.
Grudou depois de um determinado recado.
Desde então, no matter what, a orelhinha continua e me dizer que tem recado.
O encosto. Em sua versão mobile.
***
Finalmente ontem consegui ver O Leitor depois de tanto vai-não vai.
Um assombro.
Essa moça, a Kate Winslet, é uma atriz fantástica, completa.
Mereceu o prêmio, sim.
Eu já a tinha visto em Revolutionary Road com o DiCaprio; aliás, um mistério tanta 'rejeição' pelo filme. E lá, mais uma vez, ela dá um show.
***
"Ao fazer a faxina, esvaziar a lixeira, nos livrar dos restos, sempre achamos que o trabalho acabou. Mas, não. No fundo da lata, no canto da sala, embaixo de algum móvel, achamos logo depois um pó, um traço, um rastro. É ali onde continua o trabalho, a pergunta, o atalho."
Pôr-de-sol laranja com o resto do céu azul turquesa.
Lá de dentro do ofurô, de molho na água quente, lareira acesa, vinho, silêncio absoluto, e a grande vidraça mostra que a perfeição existe e a gente nem sabe de onde ela vem.
Só vê.
E agradece mil vezes por ter visto.
pintura
descanso
Prometi, mas não cumpri.
Voltei com uma muda de trepadeira de flores brancas e uma muda de maria-sem-vergonha.
A primeira comprei no horto, onde fui atrás de amores-perfeitos (ganhei as sementes para plantar, vamos ver no que dá).
A maria-sem-vergonha fui catando pela estrada, com raiz e tudo, em pequenos tufos.
Depois plantei num vasinho, aliás, o amável Julio foi de motoca pra mim lá no hortobio buscar terra vegetal, adubo e já trouxe a bichinha plantada.
Deve pegar.
B. quis saber, lá pelas tantas, o porquê dessa vida de jardineira.
E eu sei lá?
Nunca gostei de plantas.
Planta por planta, assim, sem ‘utilidade’.
Gosto de flores.
Sempre tive flores em casa, até comprar minha primeira árvore de flor para a varanda.
Daí para o ‘bosque’ que ando cultivando, foi um pulo.
Lavandas, alfazemas, jasmim, trevos franceses que dão uma florzinha branca linda, amor-perfeito, a trepadeira branca e as marias-sem-vergonha.
Além das flores roxas e das três orquídeas que, sensíveis, moram dentro de casa mesmo.
Difícil explicar como é bom cuidar delas todos os dias e como é gratificante quando nasce uma flor nova, ou quando estão tristonhas e depois de cuidadas ficam viçosas.
Estranho, mas tomei gosto.
Todos os dias, depois de trabalhar, desligo o PC e vou cuidar das bonitinhas.
É um ritual que, quando acaba, me sinto relaxada e feliz. Útil. Melhor.
Volto da serra nos fins de semana com uma nova, uma espécie de ‘projeto’, desafio, algo novo para cuidar.
Acho que a coisa veio daí: um longo papo sobre ‘cuidar’ – cuidar dos outros, cuidar de mim, cuidar de algo.
Escolhi a mim e às plantas.
E tem sido bom, muito bom mesmo.
Para o Zé, a quem um dia tive o prazer de conhecer & ouvir, fica aqui a minha homenagem ao cara que nos deu uma das mais belas composições da música popular brasileira.
Entramos e tinha uma mesa de dois já ocupada.
Um homem e uma mulher.
Já de cara, reparei que o gajo era daqueles que fala alto.
E muito.
Não bastasse o volume barítono em apresentação, o sujeito era um nojo: grosso, mal educado, estúpido, inconveniente.
Num dos “comentários” que fez em volume 20, deixou a senhora constrangida, chateada, foi grosseiro, indelicado.
Falou o jantar inteiro assim.
De cada cinco palavras, seis eram palavrões.
E eu duas mesas adiante, tentando me concentrar.
Lá pelas tantas, ele solta uma grosseria para ela, uma coisa assim horrível.
Ela apoia as duas mãos no queixo e por uns segundos nossos olhares se cruzam.
O meu dizia:
“Vai. Levanta, joga e sai”.
Coisa que um dia eu quis tanto fazer e não fiz.
Até hoje me arrependo.
Mais tarde, conversando com o maitre que preparava o meu prato ali na mesa, comentei sobre o sujeito nojento.
- É filho do fulano de tal.
Ah, tá.
Então filho de famoso pode.
**********
Not so long ago, ouvi um caso estarrecedor sobre ceras depilatórias. Dessas que a gente usa em casa para ... er ... perder o jeitão de Conga, a mulher gorila.
Criatura com sérios problemas com ... er ... pelos, já havia tentado de tudo, crusive a tal depilação a laser que, dizem, dói feito o demo e é muito cara.
E eu só ouvindo.
Vai daí que Criatura resolve passar férias na Bahia e, ao chegar lá, percebeu que só daria para ir à praia de calça jeans, se é que vocês me entendem.
Criatura corre na primeira farmácia e compra uma cera depilatória.
Criatura é corajosa.
E eu só ouvindo.
Criatura passa a cera depilatória seguindo as instruções da caixinha.
Na hora do famoso (e doloroso) rec-ai-c*****!, veio a tira de plástico e nada da cera.
Ficou ali, tudo grudadim, cera e ... er ... pelos.
Criatura tenta desesperadamente tirar a mongonga dali (ouch) e nada.
Cera, pelos, nada se movia. E todo o resto grudava.
Onde quer que ela encostasse os dedos empastelados daquela gororoba, grudava – lençol, cabelo, roupa.
Uma cena dos infernos.
Diz Criatura que olhou em volta e resolveu passar ali (ouch) tudo o que estivesse ao alcance para desgrudar aquela massaroca. E os pelos. Nada.
Apelou até, diz ela, para uísque e pinga do frigobar.
Num instante de morenice, deitou um tubo de hidratante e a coisa foi soltando aos poucos. Nunca, mais, conta Criatura, atraveu-se a usar cera depilatória (que, segundo ela, estava com a validade vencida e ela não percebeu).
Criatura 2, geneticamente associada a Criatura, resolve, antes de almoço festivo regado a bacalhau e vinho, que pegava mal aparecer de ... er ... bigodes.
Resolve então a anta procurar uma tirinha de cera depilatória extra-suave e própria para peles sensíveis com aloe vera e tal para se livrar da maldita sombra que brigava com seu clinique n° 16 e o belo bronzeado que ela até então ostentava.
Criatura 2 nunca ouviu Criatura.
Desde sempre.
E, para piorar, tem ascendente em Touro, o que lhe confere uma teimosia cega e surda.
Pois bem.
Criatura 2 saca da tirinha de cera, aperta bem contra a linda boquinha e rec-ai-com-mil-c****** alados-que-dor-miserável!).
E?
Pois é.
E.
Criatura 2 ficou com um traço de cera e sombra em cima do lábio superior, coisa linda, um mimo, viu?
E a gororoba grudada ali não arredava um milímetro.
Criatura 2 tenta não entrar em desespero, mas é claro que o pânico engessa a mente e quando ela vê já tem felpos de toalha, papel higiênico e um pedaço de sabão em cima da boca.
Criatura 2 fica nervosa e acende um cigarro.
Que gruda nos dedos, na boca, meu deus, que anta!
Criatura 2 se recompõe, pois nada, nadica, nem todos os santos a fariam sair daquele banheiro – àquela altura devidamente trancado com duas voltas de chave – e pedir ajuda a quem? Quem? Mas é claro, a dois filhos nessa faixa muito meiga de 14 a 18 anos que pagam o que for para ver um mico desses e, pior, não hesitariam em trair a própria genitora, filmar tudo e tacar no iutubiu.
Criatura 2 usa um ‘gato’ para abrir o armário do banheiro e vislumbra um vidro de óleo johnson’s, que não faz a mínima ideia de como foi parar ali, mas sentiu claramente que foi coisa da providência divina, dos anjos da guarda e de um esquecimento bendito qualquer.
Criatura 2 embebe um disco de algodão com o óleo e passa em cima da mongonga.
Criatura 2 então vê no espelho, horrorizada, que agora ostenta orgulhosamente um bigode grisalho – todos os fiapos de algodão jaziam ali.
Pena o Natal estar tão longe porque ela comprava uma roupa sexy de mamãe noel e fazia uns trocados.
Era tudo o que precisava.
Nem sair pelo basculante ela podia.
Nem o porteiro e os faxineiros podiam vê-la assim.
Nem ela mesma podia se ver assim.
Criatura 2, agora completamente fora de ‘sis’, espirra todo o conteúdo do vidro de óleo no rosto e esfrega com um pano, já pensando em passar mesmo uma lixa de unhas ou até areia do vaso de plantas.
A gororoba vai cedendo, esfarelando e saindo do rosto.
Criatura 2, deprimida e arrasada com a própria burrice, mas consumida por um inevitável ataque de riso, ostenta agora uma faixa enooooorme e vermelha onde antes havia apenas uma sombra que a remetia a seus ascendentes.
Criatura 2 precisa fazer uma maquiagem completa no rosto para poder sair do próprio banheiro, quiçá pegar o elevador com dois moleques e ir para a casa da mãe que, por sorte genética, exibe apenas umas ruguinhas em cima do lábio e desconhece a palavra ‘depilação’.
É claro que ao chegar à festa, Criatura 2 ainda tem de ouvir Criatura dizer às gargalhadas, “ah, mas eu te avisei, né?”
Como avisou para não ir a uma certa montanha russa anos atrás e, é claro, Criatura 2 deixou Touro falar mais alto, não viu aparentemente nada de mais e arriscou.
Mas essa é uma outra história.
Que envolve uma linha reta a 100 km/h para o banheiro mais próximo.
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Fotossíntese grupal.
Nada que passe perto de suas mentes poluídas.
Apenas – e tão somente – respirar ar puro e ver o verde juntos.
O que é sempre muito, muito bom – o verde, o ar puro e pessoas queridas.
Checklist que inclui vela de hamamélis, sais de lavanda L’Occitane para o ofurô - se é pra ser, é pra ser com categoria.
Terrines de pato que eu trouxe do freeshop francês, um ou dois prossecos, minhas botas de cano alto (ô, saudade!), meu sueter de gola rolê roxo-batata que eu comprei na Min, no boulevard Haussman.
Jogos de gamão, tranca e monopólio, se chover.
Mas não vai. E mesmo que.
Algemas para as mãos e para o carro – não vou comprar mais mudas de lavanda e alfazema. Mas ando doida por uma muda de maria-sem-vergonha.
Diz pra mim que ter um vaso de maria-sem-vergonha na minha varanda tem tudo a ver, não tem?
Lá: A senhora vai querer o quê? Cá: Hmmm. O senhor tem bloody mary? Lá: Temos, sim, senhora. Cá: Então é isto: um bloody mary com vodka absolut. Lá: Ok. Um bloody mary de absolut. ... Lá: Jefferso! Vai um bRody mary de bisolute.
***
"O que mais doía nele era saber à distância o tom da voz dela ao dizê-lo. Saber qual era o cheiro da lateral do pescoço, o gosto da face, a textura dos cabelos dela nas mãos dele, a temperatura da pele do antebraço, o compasso dos batimentos cardíacos, como sentia-se na curva do ombro onde depois ele pousava a cabeça e esperaria - por saber- a mão dela em seus cabelos e o beijo de leve na testa, quando então não se moveriam daquela posição até um dos dois abraçar mais apertado. Era o que sabia, de longe. O que jamais deixaria de estar ali."
Comecei meu dia muito mais tranquila depois de ler isto.
E, depois do bom papo de ontem, no qual discutiu-se com fervor a diferença entre laranjas e bananas, ainda termino a noite ouvindo que eu devia me candidatar a deputada.
Mas era o que me faltava! Com o horror visceral que eu tenho a política, as chances são mais do que nulas. And besides, I'm not smart enough. Tenho o estômago bom, mas a pele fraca.
Voltando ao que estava dizendo ontem, o que falta é vontade. Algumas medidas seriam bem simples, a saber:
1) Formulários preenchidos ainda no avião para turistas estrangeiros, aos moldes daqueles que preenchemos quando vamos aos EUA. Sabem aquelas perguntas do tipo "você pretende cometer algum ato terrorista no país, está portando granadas ou mísseis, yada, yada, yada?" Pois é, por aí. "Você pretende levar meninas de 12 anos para o seu quarto de hotel e comê-las?" Além disso, um "statement" no final a ser lido e assinado pelo turista, do tipo aceito/não aceito. "Fique ciente de que em nosso país pedofilia e sexo com menores de idade são crimes inafiançáveis e sujeitos a prisão e deportação, cassação de visto e proibição de retorno ao país. Você leu e aceita? Sim, não, yada, yada."
2) Prisão em flagrante e custas judiciais por conta do governo de origem, bem como demais despesas de deportação. Processo e indenização. Fotos espalhadas em cartazes pelos aeroportos brasileiros como exemplo.
3) Responsabilização legal - os pais de menores pegos com turistas seriam responsabilizados legalmente, presos em caso de reincidência, processados e passíveis de perda da guarda da criança. Idem para os "agenciadores" de menores. Cadeia, processo, multa.
4) Os hoteis coniventes com tal prática também seriam responsabilizados com perda de alvará, processo e multa altíssima. Os hoteis que apoiassem a campanha teriam um selo do tipo "este hotel diz não à prostituição infantil". Idem quanto ao comércio.
Quanto aos demais casos de abuso (não-sexual) e constrangimento infantil, é o caso de "cumpra-se a lei". É só ler o Estatuto do Menor (ECA) para ver o que é "constrangimento" infantil - o que, na minha opinião, é o caso da menina que citei ontem.
Já ameacei um sujeito com base no ECA. Ah, fiz. Foi por causa de um bafafá que aconteceu no clube ano passado, quando um desinfeliz resolveu "crescer" pra cima do meu filho, arrancou-lhe um jogo das mãos, gritou, fez cena, enfim, um desses adultos desequillibrados que acha que uma criança tem que aguentar tudo quietinha.
Até hoje essa cena é lembrada por quem viu. Até hoje recebo elogios pelo comportamento educado e equilibrado do meu filho, que em nenhum momento "perdeu o foco". Ainda bem que tenho amigos que o defenderam na hora. O infeliz ficou com cara de papel higiênico lixa.
Não deixei barato. Fiz carta para o clube, exigi providências, reparação e um pedido de desculpas, já que ficou claro para todos que houve abuso e constrangimento. A coisa durou meses, fui aconselhada a "deixar pra lá", mas é uma pena, eu sou ariana com ascendente em touro, um problema, viu? Levei até o fim e consegui o que queria. E não era expulsão do sujeito, não era suspensão, nada disso. Queria só que ele, de frente para meu filho, reconhecesse que passou dos limites e pedisse desculpas. Só isso.
Se tanto fazemos para garantir a saúde física das crianças - ótimas campanhas de vacinação, por exemplo -, se somos capaz de criar bolsa-escola, bolsa-isto-e-aquilo, por que não olhamos para a saúde emocional delas? Porque, como eu disse ontem, a dor da alma não aparece, não empelota, não cria casca, não fica vermelha, nem dá pintinhas pelo corpo.
Se exigimos que elas respeitem ("respeite os adultos", não é assim?), é preciso ensinarmos que elas merecem ser respeitadas. Não pode gritar com o professor? O professor não pode desrespeitar o aluno! (Outra briga que já comprei também, é, sou encrenqueira mesmo). Escárnio, deboche, o tal "zoar" é constrangimento, sim. E um adulto sempre está em posição de ter mais maturidade, experiência e conhecimennto para saber lidar com essas coisas de maneira sensata.
Fechar os olhos, não ver, "deixar pra lá" é tão mais fácil! Só esquecemos é que elas crescem, terão 20 anos, terão filhos e que o que fazemos e omitimos hoje terá uma repercussão amanhã.
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As pessoas julgam-se inteligentes pra caramba. Um dia, tomam um susto memorável.
(Com nome e endereço certos)
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Mais três capítulos. Depois dos bebês, agora, a seção de adolescentes. China-kids sorrindo na capa. Deve ser num mundo perfeito onde elas não põem alfinetes na boca e nem enfiam carros nos postes depois de beber. No final, eu conto.
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Fui fazer um daqueles quizzes viciantes do facebook (tô viciada naquela josta!) que um "contato' me indicou para fazer: "Qual livro brasileiro você seria?" Olha, fui tipassim super honesta nas minhas respostas. Não sou daquelas que mentem para testes e quizzes em geral. (Dar uma elza em quizz é coisa de gentinha, vai.)
Daí veio o resultado: "O Alquimista". É, dele mesmo... Putisgrila, viu? Tô dizendo que pobre não tem sorte mesmo... Não se pode nem mais ser honesto nos quizzes hoje em dia!
Vou fazer de novo. Não me conformo. Vou mentir nas respostas descaradamente. Me recuso a aceitar um troço desses!
***
Ganhei umas flores lindas. Já vieram plantadas no vaso. Mil recomendações. Não pode molhar as flores, não pode molhar as folhas, não gosta de "golpes de ar", água só na terrinha e por aí vai. Depois das orquídeas - cheias de não-me-toques também - agora essa, cujo nome eu não sei mas vou descobrir, cheia de não-podes.
Agora estou aqui, andando em oitos pela casa, pensando onde vou botar a mimadinha. Como se eu não tivesse mais nada pra fazer.
Sou, como minha amiga K., uma anta ignorante em matéria de TV. Então, só fico sabendo dos 'babados' se algum bom amigo me traz à Terra novamente - quando me mandam links, ou quando os vejo em outras páginas.
E foi o que eu vi num link que B-II me mandou. Claro que me remeteu ao que escrevi ontem. Guardadas as devidas proporções -- ou nem -- dá no mesmo.
O que vi foi uma menina, pequena ainda, com carinha de shirley temple, ser exposta a humilhação pública. Vi zombarem da menina, cutucarem, espezinharem a pobre até que ela perdeu-se, desconcentrou-se e caiu em prantos.
Pior: vi um adulto incitar uma plateia a fazer o mesmo.
Pior? Tem.
Vi a mãe fazê-la voltar ao palco, aos prantos, para dar continuidade a um espetáculo lamentável.
Bullying? You bet.
Mas é pior do que bullying. Bem pior. Vi mais uma infância roubada por "modelagem" por grana, ganância e irresponsabilidade.
Ah - dirão alguns - mas a menina gosta, a menina quer. Mesmo? So what? É para deixar então? Deixar tudo? Isto significa cegueira em relação ao que é melhor para a criança? Significa deixá-la chorar, ser humilhada publicamente, machucar-se, passar horas - as horas em que deveria estar lendo, estudando, brincando de boneca - gravando um programa estúpido? Significa uma mãe não perceber a fragilidade e a tristeza e a dor da própria filha e achar que um copinho de água mineral a faria voltar para o palco e dar continuidade ao circo porque é atração, dá dinheiro, compra celular do bom, roupa de marca e carro importado? Significa não se dar conta da tristeza de uma filha, uma criança pequena ainda?
Para mim é abuso. Como outro qualquer. Abuso de um ser humano, uma criança, uma pessoa, uma criaturinha em formação ainda. E, juro, me dá medo pensar nessa menina daqui a alguns anos. Pena é pouco. Me dá enjoo, vergonha, raiva. Saber que essa verdadeira galinha dos ovos de ouro é indefesa, sozinha.
Depois li que algumas autoridades mais atentas, tomando conhecimento do vídeo, resolveram fazer alguma coisa. Vamos ver. Sou descrente. Fiquei assim. Uma pena.
UPDATE:
Desculpem os que não gostam/gostaram do assunto. Aos que se irritam com a divulgação do caso na mídia, no twitter, nas redes sociais.
Está mais do que na hora de olharmos essas coisas depois de alimentar, cuidar e acarinhar nossos bichinhos de estimação, depois de molhar nossas plantinhas.
Lamento, mas o caso da menina me comoveu, me afetou diretamente. Não pude, não consegui me calar.
Um de meus filhos sofreu com bullying durante dois a três anos, o que deixou marcas nele que só agora mais recentemente estão sendo resolvidas e apaziguadas. Precisou de ajuda profissional. E essa mesma profissional me confirmou que ele tinha ficado marcado pelo que sofreu. Com carinho, amor, compreensão e paciência, 'amadureceu' a questão e hoje encontra-se seguro, assertivo e equilibrado.
Eu fiquei quieta? Não. Umas poucas pessoas acompanharam e souberam do que se passou, das humilhações, dos achaques, de ser colocado na rodinha e ridicularizado, xingado; de ter seu material esportivo 'abduzido' ou estragado; de ter suas coisas 'abduzidas', jogadas em cima de telhados, afundadas no mar; de receber um trofeu de campeão estadual em sua categoria e ali, no pódio, ser xingado pelo segundo e terceiro lugares porque havia ganhado honestamente, sem roubar nas regatas; de ter medo e não ser compreendido, respeitado, apoiado; de voltar para casa chorando, humilhado, triste.
Fiz tudo o que pude na época, conversei com as pessoas envolvidas, com adultos que poderiam me ajudar a preservá-lo. Procurei reforçar sua auto-estima, mostrar que o errado não era ele, mas sim os outros. Cheguei a pedir que ele não fosse mais. Cheguei a 'autorizá-lo' a -- e a pedir que -- desse umas boas porradas em quem o agredia para ver se resolvia...
Ele tinha o 'grave defeito' de ser "bonzinho'. Era um menino calmo, tranquilo, amoroso, amigo de todos, educado, gentil, delicado. Era um pecado ele ser assim. Era errado. Era um guri na dele, que não achava a menor graça em ridicularizar os outros. Não sabia bater. Não conseguia. Sequer para se defender. E eu fazia o máximo que podia por ele, principalmente no sentido de evitar que ele sofresse mais.
Foi um imenso sofrimento para mim. E para ele. Por isso me doeu tanto ver aquela garotinha exposta daquele jeito por um profissional, um adulto. E pior, com a conivência da mãe, que deu apenas um copo d'água para a menina, sem aparecer, sem dar as caras, mas dali, da porta dos 'bastidores', dizia para a menina voltar para o palco. Como se ela merecesse aquilo. Como se dispusesse de mecanismos para lidar com aquilo.
No mais, me impressiona quem simplesmente prefere não ver.
É duro quando se trata de uma cena que envolva um animal sendo torturado, mas não uma criança? É triste ver uma árvore sendo cortada com serra elétrica e vindo ao chão, mas não uma criança cuja infância, pureza e sensibilidade vão sendo ceifadas aos poucos? Impressionam os casos de pedofilia? Chocam as cenas de prostitução infantil? É triste ver documentários de crianças na Somália passando fome, esquálidas e miseráveis? E por que a menina em questão é diferente? No que é diferente? Porque a dor é da alma e, portanto, não 'aparece'?
O que será mesmo que ela queria dizer quando repetiu tantas vezes, chorando, "minha cabeça dói, dói muito, isso dói muito"? Será que era mesmo a cabecinha dela que estava doendo? Ou será que era uma dor onde não aparece e onde é muito mais cômodo não olharmos?
Lembrei de quando estive naquela cidade três anos atrás com meus filhos, por conta de um campeonato de vela. Do lugar lindo onde fiquei, das coisas lindas que conheci, do povo amável, de pessoas que me trataram com tanta gentileza, do artesanato criativo, de praias encantadoras, da comida deliciosa.
Lembrei do único dia em que saí à noite e, depois de ter feito uma espéie de tour à tarde pela cidade, decidi que sairia sem os meninos para ver como era primeiro. Tive a impressão de uma cidade insegura e violenta, então quis ver primeiro.
A miséria me impressionou. O descaso público, a sujeira, o fedor. Um lugar tão lindo e era aquilo ali. Eu estava num apart-hotel com os meninos, uma vista deslumbrante (vide fotos) e por incrível que pareça eu não podia ir a pé com eles na rua até o clube - a distância que separava meu apart do clube eram meros 100 ou 200 metros, e não podíamos andar naquela rua sem corrermos o risco de sermos assaltados (com revólver, sim) por moradores de uma imensa favela erguida e murada que tomava a extensão daquela avenida. Eu ia de táxi. E por recomendação do próprio hotel, dos próprios taxistas. Chegamos a ver/ouvir alguns assaltos.
Por isso, saí à noite sozinha. O taxista me deixou na avenida à beira mar onde há uma famosa feira de artesanato e comida e marcou hora para me buscar. Nessa avenida encontram-se os melhores hoteis da cidade, os quatro e cinco estrelas, lojas chiques, restaurantes caros, lanchonetes e boutiques.
O que vi foi a coisa que mais me impressionou até hoje numa cidade brasileira - a prostituição infantil, a exploração de menores. A miséria humana me impressionou mais do que a miséria física. O que fica claro nessa reportagem do link aí em cima.
Parei num mc donald's para fazer um lanche. Lotado. Algumas mesas num local protegido e outras num local aberto. Já na fila, meninas e meninos imundos, esquálidos e mirrados - uns 20, entre nove e 16 anos mais ou menos - pediam dinheiro para lanche ou se ofereciam para programa em troca de um mc lanche feliz. Era um enxame. Uma coisa louca. Eu sequer conseguia pensar no que comer. Para mim, no caso mulher, pediam o "resto que eu não fosse comer". Para os homens sozinhos na fila, ofereciam seus corpos em troca de um sundae. E por ali ficavam, cercando as pessoas, tocando rebu na porta da lanchonete e abordando as pessoas.
Vi uma menina entrar num carro depois de rápida negociação à janela. Os outros gritaram, uivaram, comemoraram a "ida". Eu fiquei boquiaberta. Ela devia ter uns 14 anos no máximo. Estava imunda, faminta, os cabelos um nó só.
Já sentada em uma das mesas externas, não consegui passar da segunda mordida no sanduíche. Estava nauseada, enojada, triste. Incomodada. Constrangida. Horrorizada. Vi outras crianças serem abordadas por homens (e por algumas mulheres - agenciadoras, vim a saber mais tarde) e saírem dali com uma nota de 2 reais na mão, um pacote de batatas fritas, um hamburguer, uma camiseta de propaganda.
Não deu. Chamei uma das crianças e entreguei o meu lanche praticamente intocado. Pedi que não brigassem pelo lanche, que tivessem calma. Eu não sabia o que dizer. Não sabia se dava dinheiro, se chamava a polícia. Fui reclamar com o gerente, conversar com ele, mostrar o que estava acontecendo ali. Ele disse que dali a pouco chegariam os 'anjos' - comissárias de uma Ong que tenta impedir as abordagens de turistas estrangeiros em busca de meninas.
Mas e a polícia? Cadê a polícia? E o juizado?
"Não vem", disse ele. E eu já o tinha visto enxotando a garotada dali sem sucesso. Me disse que era triste e pouco podiam fazer.
Saí dali, fui andar na tal feirinha, comprei umas coisas e parti no meu táxi de volta ao apart, onde os meninos reclamaram porque queriam ter ido. Eu disse que não os levaria e expliquei por quê. Fui sincera - não queria que vissem aquilo. Era muito, muito pior do que a miséria que eles já tinham visto na cidade e com a qual ficaram impressionados, tocados, comovidos. Mas aquilo era agressivo demais, e conversei sobre isso com eles. Não conseguiram entender bem como "adultos fazem isso com crianças", ficaram revoltados.
No dia seguinte, fui fazer outro tour, este pela cidade em si, pelo centro histórico, praças, ruas. Havia uma praça linda, toda cercada, onde antigamente, em séculos passados, segundo a guia, "as boas moças de família faziam sua caminhada vespertina e os rapazes ficavam de olho, para depois pedirem às famílias para visitá-las e cortejá-las". Vi umas senhoras bem velhinhas sentadas em cadeiras de montar fazendo tricô, bordando, costurando. E a guia apontou para as senhoras e disse que eram as "vovós agenciadoras", ou seja, tinham uma caderneta onde anotavam programas que marcavam para as filhas, netas, sobrinhas, afilhadas e "agenciadas".
Oi?
É, foi o que me contaram. Ali elas marcavam os programas para as moças à noite, muitas delas menores de idade. Mais uma vez perguntei por que nada era feito, se o esquema já era conhecido. Não tive resposta convincente.
O que percebi foi um esforço do setor turístico e hoteleiro (com algumas exceções) no sentido de combater a prostituição infantil e o abuso de menores. Esses esforços são voltados principalmente para o turista estrangeiro, que vem ao nosso país já sabendo da impunidade relativa se pegarem menores de idade para o sexo. Mas a sensação foi de uma gota num oceano.
Ainda saí uma noite para dar uma volta e fiquei reparando os turistas - a maioria na faixa de 50-60 e muitos anos -, aqueles tipos que a gente já viu por aí, abordando meninas no calçadão. A vontade era de pular no pescoço e encher de bolacha. Não vi polícia ou responsáveis intervindo. Não vi "adultos" defendendo, zelando por aquelas crianças. Não entendo como o governo não faz nada, não vai atrás dos pais dessas crianças, não responsabiliza ninguém, deixa essas crianças à própria sorte, abandonados, que se virem. Que peguem (e transmitam) doenças, que tenham suas infâncias roubadas assim, que comecem a vida achando que o resto da vida é isso e está tudo bem.
Os turistas vêm para cá e fazem isso certos da impunidade, ou da possibilidade de corrupção, de molhar a mão de um guarda, de se safarem com os dólares poderosos. Deviam ser presos em flagrante. Presos mesmo. Crime inafiançável. Seus governos que se virem para defendê-los. Suas famílias que se virem para resgatá-los. Deviam ser expulsos e impedidos de retornar ao país. Não é assim com a gente lá fora?
O paraíso é logo ali. Com algo a mais no meio do pão gergelim, do molho especial, da batatinha.
Não é muito diferente do que acontece aqui no sul maravilha de outras formas. Que sabemos quais são. E para as quais também fechamos nossos olhos.
Chovia a cântaros, e às sete da noite criatura dormia o sono dos justos depois de uma noite em claro e um dia de trabalho. Mas como masoquismo é artigo em voga, ela resolve vestir suas botas de cano alto (u-hu), seu vestido bonito e partir, cabelos molhados e tudo, para um festival de lagosta.
Sim, é de dar pena uma vida assim. Porque logo que molhou a última planta, desabou um toró medonho, e ela teve de aturar o risinho de 'eu te disse' do guri que estudava cálculo um na sala.
- Eu disse pra não molhar as plantas porque ia chover...
Mas então, o festival de lagosta.
Gostei, não. Tudo com gosto de caldo knorr.
Mas valeu o papo. Valeu ter passado umas poucas horas com gente tão simpática e legal. Valeu ter passado parte desse tempo ouvindo sobre todos os malefícios do cigarro, enquanto eu contava as guimbas dos meus B&H no cinzeiro, e aquilo só me dava vontade de fumar mais. Mas elogiaram meus filhos - é o que vale.
E o problema é a novela. Aparentemente, eu sou a única criatura na cidade - quiçá no país ou no planeta - que não assiste. Não, não é uma espécie de religião ou crença, nem bestice pseudointelectual, nada disso. É só falta de saco mesmo para acompanhar um troço que dura meses e vai acabar do mesmo jeito que acabam as outras - uns casam, outros morrem, crianças nascem, pessoas se separam, uns viajam e a pobre empregada sempre acaba no mesmo lugar: na cozinha, espremendo laranja para o suco.
Até os homens da mesa cumprimentavam-se com uma saudação que, juro, não lembro mesmo, mas acho que era algo como 'hare, hare, baba, baba', ou coisa assim. Falavam do galã, da sogra má, da menina triste, de alguém que teve filho de outro alguém mas ele não sabe, sacou? E, claro, com a sorte que eu tenho do meu riso frouxo em momentos impróprios, passou um indiano de turbante e tudo, pasta de couro, terno, aquela pele em tom de cinza e olheiras de guaxinim. E minha voz interna implorava, "não, Min, por favor, não agora..."
As pessoas são fieis. Param entre a lagosta e a sobremesa e vão ali na tv mais próxima ver o tal encontro de alguém com não sei quem. Falam, discutem, opinam sobre o destino daqueles personagens, são fieis àquela história. Eu tenho dificuldades com isso. Acompanhar, seguir. Meio que virar escrava de coisa ou história. Porque sempre que gosto de um xampu que não tem cheiro de bala, três meses depois param de fabricar. Gosto de um picolé de tangerina? Não tem no verão seguinte. Tem uma loja maravilhosa que vende bolsas e sapatos a preço de banana? Ela fecha.
Batom e perfume são os únicos que me seguem. Eu a eles, e eles a mim. Em qualquer lugar do mundo, qualquer loja, qualquer birosca, está lá o meu cheiro de lima-limão predileto, yet expensive. O batom - me apaixonei por uma determinada cor 19 anos atrás. Não tô brincando, 19 anos atrás. Viajava pela Europa com meu rebento na barriga quando de repente, não mais que de repente, achei o tom perfeito de vermelho que não assusta. Há anos uso o mesmo, certa de que um dia vou ouvir - oh, I'm so sorry, but it was descontinued. Então faço estoques secretos, ninguém sabe, mas tenho doze tubos de batom, do mesmo, guardados aqui. A mesma cor, o mesmo tubo prateado, o mesmo vermelho. Just in case. Como se o dia do 'sorry, it was descontinued' fosse o fim da minha ligação com a terra. Coisa louca, eu sei, mas não dá para ser normal o tempo todo.
Mas, então, a novela acabou e foram todos se entupir de torta de chocolate, conversando sobre a triste sorte da mãe solteira. A mim, só coube ouvir. Não posso opiniar sobre a vida da moça. Mal opino sobre a minha. Uma mulher que estoca o mesmo tom de vermelho há 19 anos não pode abrir a boca para opinar sobre a vida de ninguém.
Sentada à mesa de seis. Seis amigas herdadas. Seis histórias, e fiquei pensando, olhando os rostos, o que cada uma trazia para ali.
Não há uma única mesa com mais uma mulher além de mim em que eu não escute sempre a mesma história. A mesma. Mesmíssima. That same old movie. Mudam os personagens, o figurino, o cenário. Mas o plot é sempre o mesmo. Começo, meio e fim. Principalmente fim.
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Virei a noite. Melhor, passei a noite em claro. Vai ver, por isso, ela hoje me adentra o quarto com um pavê de côco. Tem gente mesmo com um talento especial para ler seus pensamentos.
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"Escrevo a história de Elisa com um cuidado imenso para não machucá-la. Não no papel. Elisa perdeu sua melhor parte, a mais preciosa, a irrecuperável. Por isso, a mão na caneta é macia para não lhe cortar mais a pele."
No meio da floresta, lá no alto da cidade, tem um lugar assim.
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Eu e minha horrível mania de prestar atenção à conversa da mesa ao lado. Mas não dava pra não ouvir. E de vez em quando, meus ouvidos sensíveis a determinadas 'collocations' pescavam alguma coisa.
Casal bonitim, faixa dos 20-30 ou 30 e poucos. Sotaque muito off-Rio, na fronteira de lá. Mercado financeiro ou coisa assim. Falavam de trabalho grande parte do tempo. E quando o assunto resvalava para o pessoal, ainda assim o trabalho era contexto.
A coisa exalava medo ali. É, medo. Eram duas pessoas tateando uma à outra. E nenhuma abria a guarda. O rapaz, um pouco mais. Ele tentava. Sempre com 'apelo profissional'. Fez três francos elogios profissionais a ela, todos devidamente ignorados, sem resposta, nem a sobrancelha esquerda levantou, nem porejou suor no beiço dela. Ela fechada em copas. Cabelo puxado para trás, roupa careta, celular poderoso na mesa e, pasmem, quando o gajo foi ao banheiro, ela ainda abriu um jornal e teclou umas coisas no celular. Armadura justa e bem colocada. Perfeita. O sotaque, ah, o sotaque...
Poderosa, ela não se deixava levar. Tinha uma armadura tão bem posicionada que me deu inveja. Juro, tenho inveja dessas coisas às vezes. Parecia que cada palavra, cada gesto, cada gole, cada trago no cigarro era estudado, controlado, medido.
E, não, não era um jantar de negócios. For sure. Deu para perceber. Estavam ali 'relaxando'. Hum.
E eu confirmei a minha tese: poucas coisas são mais atraentes numa mulher hoje em dia do que 'poder'. Poder em suas mais variadas acepções. A mulher hoje 'pode'. Pode tudo. Isto ela acha. E ela chega lá. Ganha uma baita grana, estica os ombros, levanta o queixo e vai. Poderosa, pauzuda, distante, fria, inatingível. Daí senta à mesa num lugar assim, que cheira a paz e amor, e exala poder pelos poros. O cara estava lá, no fundo, babando.
Não tem nada, nada que dê mais tesão num homem do que mulher poderosa, pauzuda. Vai por mim. Quanto maior o salto, mais preto o tailleur, mais títulos no currículo, mais assertividade, mais eles desejam. Vai por mim. É por aí.
Donde podemos concluir que... Ah, deixa pra lá. Melhor não falar das lavandas em flor e do empadão que está no forno e da tradução que sai no fim da tarde e de cartas de amor e de músicas e de olho no olho e de corações desarmados. Isto não tem a menor importância.
Dia cheio, dia de pastorear minha ovelha, terminar a tradução de mais um capítulo, fazer quadros e tabelas do mesmo, botar terra nos vasos das plantas, arrumar pouso definitivo para a minha begônia, enfim. Dia. E faço o quê? Acordo tarde. Eu sei. Foi a foto do ... como é mesmo? ... que a Bia me mandou ontem. Vai ver.
Eu não vejo novela, gente. Não adianta comentar capítulo e me perguntar se o 'como é mesmo?' não é um gato e tal. Deve ser, mas eu não sei, e provavelmente não saberei jamais. Mas vem ela e me manda a foto do 'como é mesmo?' e eu acordo com o sol alto, os biguás já passaram e as ararinhas já se mandaram aos gritos. Vi nada. Dormi feito uma pedra. Coisa que é rara assim feito eclipse ou o Gu guardar as roupas no armário.
***
Mesa de dois em Ipanema. Uma promoção gourmet e eu nem sabia. Vejo uma equipe de filmagem e vem uma moça até a mesa.
- Estamos filmando para um programa gourmet do canal xpto. Algum problema de vocês aparecerem?
Oi?
- Por quê? - Sei lá, às vezes o cliente não quer, o cliente não pode.
Oi?
Daí que só cabia mesmo a pergunta:
- E aí? Você quer? Você pode? - Nós queremos? Nós podemos?
Foi um pulo para os bolinhos de arroz com um bom carmenère.
***
Mudam as regras, e vejamos o que vai ser. Universidades aderem ao novo Enem - as boas federais. Para quem acompanhou um vestibular, é uma baita mudança. A prova do Enem é uma; as das universidades públicas e particulares é outra. Particularmente, achava a prova do Enem mais inteligente - não mede o que você decora, as fórmulas, os vícios. Avalie como você raciocina, como interpreta dados, como os explica, como os associa a outros eventos. Ou seja, avalia o sua 'pensar' de fato. Se você é um hamster na rodinha, tá ferrado.
E ainda as cotas. Hum. As cotas.
O Gu quer fazer medicina (*continuo eu me fiando na ideia de que ele ainda tem 14 anos e que isto pode mudar) É moreno e fica moreno-jambo com dois dias de sol. Daqui a três anos, vocês me verão gritando com ele:
- Larga esse livro já, garoto! Anda! Já para a praia!
***
Eu queria ter a cara de pau que algumas pessoas têm de falar o que querem. Principalmente sobre as outras. E sobre si mesmas por tabela, sem se darem conta. Sem se darem conta do ridículo a que se expõem, do mico que estão pagando e da máscara que cai em duas ou três linhas, num interjeição, num tonzinho. E em público, tipo audiência nacional.
Medem as outras no mesmo metro que usam para si mesmas. E o próprio metro é sempre, sempre maior, melhor, mais bonito. Acham-se. São. Aumentam-se reduzindo os outros.
Há uma enorme arrogância, uma dose imensa de elitismo, preconceito e intolerância na falsa capa da humildade. E assim continuam enganando-se e enganando. Mas, é claro, riscos existem para serem corridos.
Eu continuo olhando as palavras como bumerangues.
#prontofalei
Não é assim? Vivemos no mundo #prontofalei. É assim que funciona.
Tô fora. Vou molhar minhas plantas, trabalhar e cantar meu mantra para pastorerar minha ovelha mais tarde.
Eu que há tempos não saía e não via tv, acabei 'arriscando' fazer as duas coisas no mesmo fim de semana. Fui comer uma pizza num daqueles lugares que, assim que você sai do táxi, escuta a sua voz interna - "ih, está bombando". Fui tão bem recebida por quem estava na mesa à espera, que nem liguei para "mais um lugar da moda". Pizzaria paulistana, nome paulistano, serviço paulistano. Sou a que gosta de coisas esquisitas, como citrinos e alicci. Gosto de pizza de alicci. Realmente, estava um show. Assim como o papo. Assim como os amigos que se queixaram da minha 'ostridão'. Já pensavam em mandar uma brigada me resgatar.
Quanto à tv, reinaugurei o controle remoto com as pilhas quase já meladas pelo desuso, e fui ver o concurso de miss. É isso mesmo: concurso de miss. Melhor do que isso - sem óculos. Eu sei que vocês me entendem. Troço tosco de doer, mas é sempre bom ver moças bonitas e viçosas, respostas óbvias, as caras de lâmpada. A moça que ganhou era de fato linda. E tinha cara mesmo de brasileira. E vem de estado sem tradição em concurso de miss. Eu queria mesmo era ver os bastidores, as mães das misses. Isto sim é programão.
***
Bacalhau impecável. E, como em todos os anos, muito prosseco e papo cabeça. Depois, horas de fio dental, of course. Bacalhau é um prato que devia vir com com fio dental à parte, tipo, como guarnição obrigatória.
Agora, é semana de trabalho duro para curtir outra fotossíntese no final.
Dei um pulinho no shopping. Meu, é , sim: eu me odeio. Quem em sã consciência se enfia num shopping na véspera do dia das mães? Ainda mais dura? E sem vontade nenhuma de comprar presente, posto que eu detesto comprar na base do 'tem que'. Mas fazer o quê? Nessa altura da vida não vou causar bico na véia.
Resolvi almoçar antes de gastar aquilo que não tinha. E já que estava dura, fui mesmo para o restaurante mais caro do shopping, aquele que tem "comida italiana mediterrânea". Enchi a cara de alho assado com alecrim, nacos de parmesão e atum com gergelim e molho agridoce. Lotado. Tudo lotado. Incrível, mas todo mundo tem mãe, né?
Andei (rapidamente) pelos quatro andares e nada. Nada. Nenhuma ideiazinha. É claro que chinelos, penhoir, corte de tecido, bobes de cabelo e talco estão fora da lista para a criatura hiperativa, 'muderna' e - vamos combinar - fofa. Claro que entrei na loja predileta dela, de onde saí rapidinho depois de lembrar da consulta ao saldo bancário ontem. Sorry, mom, no lavender bath salts this time. Não posso pagar aquilo por um punhado branquinho que vai se dissolver na água da banheira e, depois, pelo ralo afora. Sacanagem.
O desespero tomava conta de mim e, pior, esqueci o iPod em casa. Então, eu 'tinha que' ouvir as hordas, os jeffersons e as jéssycas correndo pelos corredores do shopping e mamis e papis fingindo de surdos e cegos, famílias inteiras - papai, mamãe, filhotes, vós, vôs - que passeiam, falam pelos cotovelos, andam a -2 km/h e insistem nas paradas bruscas quando você está com a quarta engrenada. Gente que - ó, céus, ainda! - leva seus bebês fofos, em plena pandemia de gripoinc, para aprender a andar no shopping, com direito a foto e tudo. Gente que vai tomar sorvete de casquinha no shopping e só andar (devagar, é claro). Gente às pencas. Gente feia feito o demo, gente horrorosa, gente peituda, gente peluda, gente barulhenta, gente lenta, gente sem educação, gente que não tem grana pro aluguel mas compra uma tv de 47 polegadas e divide em 24 vezes, gente que compra coisa que não lhe cabe, gente que usa saltos enormes e anda feito pato com fralda suja.
Eu odeio gente.
Engraçado é que exatos 20 segundos depois de entrar no shopping, a primeira frase que me veio à cabeça foi: "Quanto tempo falta para eu ficar velhinha e ir morar na minha choupana em Búzios, cuidar da minha horta de manjericão, plantar limão-galego e comer anchova assada todos os dias?"
Falta muito. E nem sei se chego lá.
Acabei comprando um sapatinho fofo com sola de borracha, lacinho, coisa cuti-cuti e cara da fofa que, eu sei, vai adoraaaaaaar. É dela, e ela precisa pra ser feliz. Justo. Justíssimo. Eu não esqueço que nasci com quase 4 kg e 54 cm, uma novilha praticamente, foram horas de parto, a coitada parou de fumar, teve dores dos infernos, depois eu tinha crises de amidalite e otite horrorosas, febres altíssimas e, embora fosse uma "santa" (ó, é ela quem diz, viu?) de criança, ela ainda teve que aturar a minha adolescência, eu chegando em casa às quatro, o tipo que acampava em Muri e ainda por cima cismou de cursar Letras e ser tradutora. Cara, e eu no shopping reclamando! E ainda tenho a cara de pau de dar um sapatinho com sola de borracha antiderrapante que 'grita' pelo amor de deus, mãe, olha pro chão enquanto anda? Eu sou uma cã mesmo.
Ainda tem o bacalhau para pegar amanhã lá no ráiquiuparta, equilibrar o pirex entre os dois vasinhos de lavanda, fazer cara de lâmpada quando ela abrir a porta e disser "hum, o que há com você? emagreceu? está com olheiras? sua alergia na mão piorou? há quanto tempo você não vai ao oculista? o que houve com a sua pele?" Mãe é mãe, e a minha tem um radar pior que o do rei de todos os morcegos. Cheiro. Ela dá uma boa cafungada assim que eu passo pela porta e sabe exatamente como foram os meus últimos 47 dias.
Então.
Saí do shopping ilesa. E os outros clientes também. Vim para casa e peguei a revista que não assino, mas ela separa todos os domingos para mim. Na capa da revista, um post-it amarelinho grampeado (ela é do tipo que grampeia post-its, sacou?) onde se lê meu nome e "artigo sobre tradução nas páginas 114 e 115". Cujas pontinhas ela dobrou para dentro.
Adotei uma carinha dessas Não é uma gracinha? Rodei a estufa inteira, vi coisas lindas, roxos, amarelos, brancos, violetas, vermelhos
E saí com um troço desses aí Eu não disse que gosto de coisas esquisitas?
Conhecida como 'orquídea sapatinho' Porque ali no meio, ó, parece um tamanquinho, um sapato
Juro que não vejo Pra mim, é um rosto. Rosto mesmo Repara só O cabelinho pra cima, as duas orelhas meio penduradas e o narigão no meio
E, tô dizendo, quando passo na sala, a sensação de alguém me olhando. (deve haver um bom remédio pra isso, vai...)
***
"Se foi bom para mim, foi bom. Se não for, já não estarei mais lá. Se eu voltar, é porque terei algo mais a dizer. Eu voltava. Até em asas. Um dia, não fui mais. E você ficou - ficará - sem ouvir o quanto eu quis ter ficado."
(Metrópole, maio/2009)
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Fui ver Divã. Adorei. Primeiro, porque há muito eu não ria tanto. Segundo, porquê. É, porquê. Ah, John. Acertou em cheio! Eu também vi. No final, a gente percebe: não é um filme sobre um casal, sobre um casal que se separa. O filme é sobre ela. (E é dela, putz, que baita atriz!) O que ela viu e não viu. O tal cego quando vê a luz. Podia ter ficado cega de novo. É comum. Mas não ficou.
Um brevíssimo sorriso - cabeça baixa, marca registrada - quando ela diz:
- Não, não era amor. Era melhor.
É, fia. Acontece.
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C., querida: é preciso ter coragem mesmo. Foi preciso.
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K., tô comprando alface orgânica. Me ajuda!
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A quantidade de botões nos meus vasos de lavanda é um fenômeno. Vai dar flor pra caramba. Nem eu achei que fosse dar certo. É sempre assim.
Tô me achando. Me sentindo a própria rainha da Provence. Mais um pouco e estou de vestido branco rodado, avental multitask de jardineira, deixarei o cabelo crescer e o prenderei em uma longa trança. Dearlordi! É a visão do inferno! O bom é que tem sempre um avião da Gol que passa aqui em cima e me faz cair na real. Ou o carrinho da pamonha. Ou alguém reclamando que o queijo acabou. Gente, como a realidade é boa e generosa!
A gripoinc chegou com tudo e ficamos assim, esperando acontecer. Cheiro de paranoia no ar, guris de olhos arregalados perguntam o que fazer para evitar. Eu, a med-charlatã, digo o básico: lavar as mãos com mais frequência, evitar locais fechados e cheios de gente. Daí o guri me vai, resfriado e tudo, ao show do Oasis. Legal. Recado entendido, pois. Eu não sei por que me perguntam as coisas e depois fazem exatamente o contrário com uma dose enorme de requinte. Meanwhile, lendo as notícias da manhã enquanto a doce maria limpa tudo por aqui, paro lá pela terceira estupidez, algo como uma filha que dá três tiros na própria mãe e, não contente, ainda joga a pobre genitora precipício abaixo, enquanto numa festa de adolescentes alguém leiloa meninas, aquela atriz agora está pronta pra levar outro pé na bunda e mais um jogador de futebol em crise vai ganhar zilhões para continuar em crise. Gente do céu! Tá duro, viu? Não por associação livre, lembro com pânico que hoje é sexta e domingo é aquele dia. Aquele, né? O dia das crônicas insandecidas sobre o dia das mães. Vamos lá sentir raiva do mundo porque temos um dia - é o que nos farão ler no domingo, bem depois de eu ter degustado o meu café na cama anual, bacon, ovos, suco e panquecas. Eu imprimi a foto de um lindo anel com um baita citrino retangular, mas acho que não vai rolar. Inveja? Eu teria. Azar o seu. E lembro que não comprei nada, nadica, nihil para mamãe, e que depois do meu discurso sobre a gripoinc shopping center não está nos meus planos. E - ô, anta - acabei de comprar ingressos online para ver um filme no cinema (ambiente fechado e gente) do shopping (ambiente fechado e gente). Nem eu me escuto mais. Na falta de máscara, planejo uma fantasia de Zorro. Eu fico bem de preto, não acho que vai ficar esquisito entrar no shopping, comprar o baldão de pipoca e entrar no cinema, ai-ô, Silver! Vencida a preguiça monumental que se abateu sobre o meu ser hoje, abro o arquivo de tradução aos bocejos. Tá duro. Aviões passam em esquadra fazendo círculos de fumaça no céu, coisa linda de se ver. E por que mesmo? Sei lá, mas é bonito, e já que vou até a varanda ver o espetáculo, resolvo ver como vão minhas plantas. As lavandas dando botões, vai ficar uma coisa linda. O pé de manacá cheio de flores brancas e roxas e livre dos pontinhos brancos graças àquela calda de sabão de côco que borrifei, as alfazemas exalando aquele cheiro de bebê e a muda de jasmim se segurando no vaso como pode. Sinto cheiro de bolo de chocolate. Conversamos sobre o amor na rede, a fulana loira que joga no ventilador alheio, as relações fugidias e de gratificação imediata e infantil que temos (oi?) hoje em dia. Eu sei, eu sei, tenho que trabalhar. Tenho a meta do dia, a produção as chucuzentas palavras a fazer até o fim da tarde, e eu penso em encomendar uma bacalhoada para domingo. O arroz eu faço, as flores eu ponho no vaso, o vinho eu gelo e abro, a mesa eu arrumo, o batonzinho vermelho eu passo na boca, pode ser até que role uma salada, não sei. E a preguiça avolumando. Sexta-feira. Só penso que amanhã é dia de nada, fazer nada, acordar tarde, ler o caderno literário e pensar que faz mais de um mês que eu olho em volto e não entendo nada do que aconteceu.
Virou até assunto de divã. A fofoca, o ti-ti-ti da hora.
Dona fulana tem profissão pouco nobre, mas tão ... er ... "útil" nos dias de hoje. Passa os dias, as noites, as horas no rede ... er ... "namorando" virtualmente. Tá, vamos deixar de rapapés: a dona roda bolsa na rede. Sacou? Com vários endereços falsos, a brincadeira é atrair famosos e não-famosos e deitar love com a webcam ligada, microfone e tal. Dona fulana resolve, um dia, um belo dia, a-há, botar na fogueira. Jogar no ventilador. Faz uma página, dá nome aos bois e às ... er ... "partes" dos bois. Tasca não só os nomes, mas as fotinhos dos gajos, das ... er ... "partes" dos gajos, os filmes da webcam, os diálogos. Tudim. Uma beleza só.
A coisa cai na boca do povo, na rede, nas listas de discussão e nas páginas de e-jornais. O povo corre pra ver. Uns, por curiosidade. Outros, genuinamente apavorados.
Jogadores e técnicos de futebol (novidade?), ex-BBBs (surpresa?), namorados de gente famosa, parentes de famosos, maridos, noivos. Saca "o amor da sua vida"? Pois é. Ele tá lá. Ele, as parrrrtes dele, os suspiros, os gemidos, os tapinhas no dèrriere de fulana, olhinhos virando e tal.
Quantos aos "anônimos", desconhecidos - e há muitos -, ela se limita às fotos do rosto e do não-rosto, filmes da webcam e comentários jocosos about.
Agora, vem cá. Cê já pensou enquanto vê um trem assim dar de cara com o seu ... er ... "jerônimo" lá? Já pensou?
É isso. Vale um tratado de antropologia, psiquiatria, quiçá de arquitetura até. É assim. É isso aí que estamos nos tornando. É isso que virou. Não dá vergonha e vontade de pular o muro e virar um ser do reino vegetal? Ah, eu tenho. Ou virar um hamster: picar o jornal miudinho, fazer ninho e hibernar parte do dia num aquário.
“Above all, don't think you've goofed somewhere along the line, don't try to retrace your steps to correct the error. No, as W. H. Auden said, "Believe your pain." This awful bear hug is no mistake. Nothing that disturbs you ever is.”
Tá de saco cheio da vida?
Entediado?
Mimimi?
Leia.
Está em inglês, mas por módicos chuchucentos/palavra, traduzo pra você.
Uma ode ao tédio.
E como fazer dele seu aliado.
Melhor amigo.
Best pal.
Dude.
Amante, se preferir.
***
Tempos atrás, descobri o tal iGoogle, trocinho útil que transformei na minha página de abertura na internet.
Dá para personalizar ao gosto do freguês – temas e ferramentas.
O que tem no meu que é realmente útil para mim:
- Google Calendar Viewer
- Google Agenda
- Lista de Tarefas
- Google Translator
- Le Monde
- NYT Home Page
- CNN.com
- O Globo – últimas notícias
- Le Figaro
- Meteorologia
- BBC Brasil
- Conversor de Medidas
- Pesquisa no Google Maps
- Relógios Mundiais
O tema é de Edward Monkton Coisa meio cuti-cuti, mas vou trocando conforme o humor.
Não que o humor esteja exatamente ‘cuti-cuti’, mas achei uma graça.
Para ter organização, informação e utilidade numa só página, achei tudo de bom isso aí.
Fica a dica.
***
"... agora sou um cachorro em loja de louça fina."
Conheci um horto bem bacana. Lugar agradável, dona super gracinha. De aparelho nos dentes, a moça era só sorrisos. Parei ali por acaso. Tipo, você está na estrada, vê uma placa e pá, breque e curva. Havia ali toda a sorte de plantas e mudas. Eu, que gosto de coisas esquisitas como tulipas de clima temperado, fiquei circulando entre os verdinhos, tudo muito bonito, arrumado em fileiras. Já tendo perdido a esperança de achar o que sempre quis - mudas de lavanda e alfazema -, ia levar uma mudinha de jasmim, pois a que o John me deu não 'pegou' e virou um galho seco, aquele com quem eu converso de vez em quando na varanda. Perguntei - e nem sei por quê, mas em voz quase inaudível - se a moça tinha mudas de lavanda. Perguntei como se fosse uma raridade. Tinha. Não só as mudas, mas lavanda já plantada. E alfazema também. Fui inundada por uma alegria sem explicação - pelo menos neste momento. Comprei três vasos e saí dali em festa.
Dois dias depois, volto e compro mais três mudas, outras de alfazema e o jasmim. A moça me olhava com cara de ponto de interrogação - "que diabos, essa dona entra aqui e me leva o estoque de cheiros!" Ainda bem que a mala ia no banco, porque o porta-malas da perua virou uma floresta. Voltei com pulmões oxigenados, fotossíntese feita à exaustão e aquele cheio de bebê johnson dentro do carro. E presentes. Uma alfazema vai pro John, pra compensar a minha raiva e as unhas no divã. Uma lavanda vai para madame croissant, outra apaixonada por lavanda. E uma para a minha mãe, a responsável pela minha paixão por lavanda. Ok. Obsessão por lavanda.
Dizem - dizem, não sou eu - que alfazema "espanta energias negativas" e que lavanda "acalma". Ambas vêm em boa hora. Em pouco tempo, segundo os meninos, não se entra mais na varanda. Com uma boa foice e com sorte, poderemos ver o nascer do sol.
***
Absolutamente deliciosa a tradução de psicologia infantil. Fases do desenvolvimento. Adoro.
Outro dia, numa livraria, achei um livro traduzido por mim. Reconheci pelo título. Peguei o tijolão, abri e estava lá meu nome. E títulos. Uau! Eu tenho títulos! Apesar de oficialmente 'desempregada' agora, de volta ao estado PF, foi bom ver um atestado do que fiz - a tradução e o nome. Lembrei dos anos da faculdade, do tanto de estudo, das horas de pesquisas e do quanto é bom chegar aqui fazendo aquilo que eu gosto. E faço até direitinho.
***
Olhei do quarto como vai ficar a obra. E, juro, só consigo ver um ofurô na ex-cozinha. A experiência de me cozinhar naquela tina de cedro uma hora por dia foi algo inenarrável. Eu diria - viciante.
"Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Mordo devagar o fruto dessa inquietação."
(Lya Luft)
***
a vida - a real -
não aceita photoshop
nem todas as imagens podem ser apagadas,
consertadas, melhoradas
como as palavras num livro
como as cartas seladas
são como são
e somos como somos
feito - está feito
a fazer - é assunto dos ventos
e do que circula e vagueia pelos pequenos e grandes vasos