Dias assim



jardim



vumbora



preguiça



trabalho operário

***
Tempo esquizo.
Frio, chuva, nuvens, sol, calor.
E volta tudo de novo, como uma ciranda.
Assim como a pressão: 16 por 10, 14 por 10
Comida sem sal.
O encanto das ervas faz esquecer do que é insosso.
Trabalho, trabalho, trabalho.
Um longo capítulo sobre doenças psiquiátricas, alcoolismo, enfim, tudo aquilo que é demais.
Ou de menos.

***

- Sonho estranho hoje.
- É a cama.
- Hoje foram peixes nadando na beira do mar transparente e uma fila de pessoas com perucas black power.
- Tá difícil essa... boiei.
- Tô aqui queimando a mufa pra entender.
- Nada fálico?
- Os peixes?
- As perucas.

Longo suspiro e silêncio.

- Já sei.
- Hum.
- Peixes, cabelos black power.
- Hum.
- When the moon is in the seventh house...
- Eita!
- The Age of Aquarius, sacou? Peixes, black power...
- Pô, tudo a ver. Você é um gênio!

***

E tudo isso sem uma caipirinha de tangerina por força das circunstâncias.
Deve ser a sopa à noite.
Essa coisa de batata baroa e inhame... sei, não.
Dá barato.

***

Estreia











Aos 14 anos, a estreia em seu primeiro campeonato mundial.
Uma grande torcida para que seja uma experiência positiva.

Have fun, champ!

Vida



A vida devia vir com bula

Apresentação
Fórmula
Princípio Ativo
Posologia
Modo de Usar
Indicações
Ação Terapêutica
Contraindicações
Advertências
Interações

E principalmente

Condições especiais

Tourão



bonitão
(e cheiroso)

***

Meu interesse pelo novo filme Harry Potter é zero.
Mesmo.
Não consigo gostar.
Nem dos filmes, nem dos livros.
E passei a mesma antipatia para os meus filhos.
Mesmo sem manifestar tanto desagrado meu.

Eles gostam de biografias.
Vai entender?

Aliás, zapeando o acervo de uma livraria, fui parar na mesa de best sellers.
Uma chuva de livros sobre vampiros.
Eu sei - um mundo de gente comprando.
Não consigo gostar desse tipo de fantasia.
Além do mais, é material certeiro para pesadelos horríveis.
Passo.

***

Por incrível que pareça, mais uma oferta de trabalho - um livro de radiologia.
Meu, o que acontece?

Já sei: o mundo saiu em férias.
Eu, não.
Entendi.

***

Sol?
Onde?

***

Chove

Devo ter bebido o adubo das plantas.
Dois trabalhos em andamento ao mesmo tempo.
Aí liga um colega com quem adoro trabalhar e me oferece mais um trabalho.

É tudo med.

Sem folga, sem mais de 15 minutos de recreio.
Meio que sumi pro mundo.
Minhas sobrinhas chegaram e ainda não as vi. Sábado, com sorte.
Minha mãe de mimimi porque eu não ligo tanto.
Uma amiga de mega-mimimi porque eu não entro mais no mesenê.

Deve ser a síndrome pós-agora-eu-sou-eu.

Quero meias nos meus pés gelados.
Quero, mais tarde, uma taça de vinho, um naco de queijo e jogar conversa (boa) fora.
Quero colo.
Claro que quero!

***

Última forma: um convite irrecusável pra comer hamburguer com batatinhas-sorriso no J&L.
Ah, não dá.
Não sou de ferro!

***

E me desculpem a falta de assunto-cabeça hoje.
A cabeça tá exausta e sem assunto.
No momento, trabalho é meu nome.
Dia desses eu falo algo que preste.

Agora, eu

Agora eu sou eu.
Ou seja: eu e meu número coincidem.
Depois de dois dias perdidos na burocracia.

Ontem dei entrada no processo e paguei.
Achei que tudo se resolveria assim.
Pelo menos era o que estava escrito no site da Receita.

Bah.
Tolinha!

Segunda etapa hoje lá no Centro.
Fosse centro espírita, meu pai baixava e ria de mim, eu sei.
No site constava o horário de funcionamento de 8 às 19h.
Lá fui eu, às 9h, contando que neguinho ia chegar, tomar café, lixar as unhas, mostrar o álbum de fotos do netinho e falar do pagode do fim de semana.

Primeira fila: é o quê? - pergunta a simpática atendente.
É isso aqui.
Ela imprime uma tira e me entrega.
Era uma senha.
Para ser atendida a partir das 12h.
Eram 9:10h.

Respirei fundo e olhei os dois imensos relógios presos ao teto.
Um marcava 6:30h.
O outro, 13:50h.
Senti um calafrio percorrendo a espinha.

Voltei eu, depois de coçar até sangrar e desprender pêlos.
Às 11:50h eu estava lá, com meu envelope, cara de cidacã, com fome.
Sentei em frente à tela de senhas eletrônicas e vi o desfile de siglas e senhas para tudo a ser resolvido ali por cidacães como eu.

Minha senha dizia CPF17.
A tela piscou CPF33 assim que eu sentei.
Ops.
Fui ao guichê, entrei num cubículo e falei com um segurança.
Que, com cara de folha de papel dupla personal, me disse: "não há uma ordem exata; o seu atendimento é previsto para a partir das 12h; é sentar e esperar."
Novo calafrio subindo a espinha.

Olhei um homem comendo biscoito Maria e pensei em comprar uns três ou quatro biscoitos.
Pra comer regado ao GuarapRus que compraria da menina ao lado da mãe.
Do CPF 33, foi para o CPF 9, depois para o CPF 24, depois para o CPF 39 e aí CPF 16.
Custei a acreditar que eu seria a próxima.
Ao meu lado, um CPF não sei o quê levanta e sai, resignado: "estou aqui desde as 10h."

Novo calafrio.
Em outro canto.

Ouço gritos. Indignação. Queixa. Mimimi.
Uma moça loira e bem-vestida, aos berros, estava ali desde as 10h.
Dizia ela que tinha agendado uma senha para ser atendida às 10h, tinha compromisso e tal, que aquilo era uma palhaçada, e mimimi.
Eu penso no prazo de entrega da minha tradução que vence dia 20.
Na pilha de roupas para a máquina.
No almoço.
Na pilha de roupas para guardar.
No Brad Pitt, no Fagundes, no Andy Garcia, numa plantação de nabos, num avião caindo, num míssil atingindo o prédio, nós voando pelos ares.
Minutos depois, a moça entra no cubículo, a tal moça ARF 3.

Vejo piscar o CPF 17.
17 é cachorro no bicho.

Lá fui eu, cheia de bons dias, tudo bem e tal.
Um homem horrendo numa camisa amarelo-ovo e cordão de ouro grosso no pescoço me atende, pede uma carrada de documentos com aquela cara de, ah, mas duvido que ela tenha trazido a certidão 139.224 e o comprovante de residência.
Engano dele.
Eu levei tudo, mas tudo mesmo, sobre a minha pessoa-cã.
Sabe aquela certidão de nascimento, a primeira, antiguinha, ainda escrita à mão pelo escrevente?
Pois é, eu levei.
Conta de luz, gás, telefone.
Cópia de documentos dos meus pais até.
Meu diploma do jardim de infância.
O certificado de participação nos jogos estudantis de 1984, quando fui artilheira do meu time de futebol com quatro gols.

Eu e minha história em xerox autenticado.

Ele empilhou tudo, conferiu tudo, fez duas ou três perguntas, teclou duas ou três coisas no computador, me estendeu um papel e disse que, enfim, eu era eu.
30 segundos, foi o que durou.

Fui andando para a saída e os relógios ainda marcavam 6:30h e 13:50h.
Muito oportuno.
A cara daquilo tudo.

O homem ainda comia biscoito Maria.
A menina já terminara seu Guaraprus.
Dois que haviam entrado na minha frente estavam sentados novamente na fila.
Outra fila.

Saí dali, eu e meu número que agora me pertence como deveria ser desde o início dos tempos, e fui almoçar.
Pedi um prato chamado "viagem ao fundo do mar".
E uma coca-cola tarja preta.
Perfeito para a ocasião.

Paciência

Alteração de cadastro do CPF.
Vou no banco dar entrada no pedido.
A porta apita.
O simpático meganha diz para eu deixar celular e chaves na caixinha.
Ok.
A porta apita.
Ele diz para deixar a bolsinha de moedas na caixinha.
Ok.
A porta apita.
A coluna avisa: come on, make my day!
O simpático meganha diz para deixar...
Eu não escuto:
esvazio todo o conteúdo da bolsa na caixinha, que fica lotada de comprovantes de cartão de crédito de dois anos atrás, quatro isqueiros, três colírios, três óculos, necessaire, santinha, porco de crochê, carteira, um mini-canivete suíço, iPod, fones, caneta, hidratante, Chapstick, bala Halls, chiclete Mentos, um bonequinho da Vivo que não sei como foi parar ali.
Aproveito e viro a bolsa de cabeça pra baixo para limpar as poeirinhas de cigarro, micro- papeizinhos, papeis de bala e restos mortais de um Club Social.

Eu passo.
Faço a tal alteração no CPF com o simpático gerente.
O banco tem dois caixas - os dois ocupados: um boy e uma velhinha.
Pego senha.
Crio raiz.
Ouço histórias de flanelinhas que roubam carros, a filha doente, a neta aprovada na prova do exército (com fotos), unhas quebradas, dores nos rins.
Paciência.
Pago $5,50 e saio dali com a sensação de ser uma otária num país que me garfa um absurdo de imposto e ainda me obriga a provar que eu sou eu, filha da minha mãe com o meu pai e cidacã cumpridora de suas obrigações fiscais.

***

No finalzinho da tradução do livro de enfermagem pediátrica, me oferecem a tradução de um livro de anestesiologia.
Oba.
Até final de setembro, a coisa está tranquila.
Meu Deus... setembro!
Mais um pouco e estou montando árvore de Natal...

***

Nada como o analista em licença para se começar a ter sonhos estranhos.
Que misturam, de uma só vez, jacarés, mousse de maracujá, tintura henna para os cabelos e um livro.

***

Chego em casa e ele tem costeletas.
Sim, costeletas e um discreto cavanhaque.
Voltou da matrícula na universidade federal e, por conta própria, deu um jeito no visual:
sai Maurício, entra Elvis.

Eu reviro os olhos, mas lembro que já fui pantera, Gal e Elis Regina um dia.
Sim, tenho que admitir: eu já tive 18 anos.
Digo por trás de um sorriso que está ‘irado’, que ele é lindo, não tem jeito de ficar feio.

Como diz minha sábia mãe, podia ser pior: um piercing, uma tatuagem no pinto, cabelos roxos.
Paciência.
Perto de mim, o cara é um santo.

***

Saudade do meu pequeno e só tem dois dias que ele está lá.
Acordo de madrugada, gelada, e penso se ele levou um pijama quente para dormir.
E um casaco.
E a roupa de neoprene.

Eu não tomo jeito mesmo.


Óia


via



Mais ou menos isso.
Ou 39 anos.

Artes

Chego de cara para a obra, pequena, mas obra é obra. Qualquer poeira é desatino para mim. E nem sou alérgica. Mas encontro as plantas molhadas -- alguém teve pena delas. Enfim começam a ter uma certa simpatia pelo meu movimento cheiro-verde e água para os passarinhos. Há restos de comida, louça lavada, um cheiro que não identifico, mas me parece, ao longe, pinho.

Volto daquela casa, cada dia mais a minha casa; os cães, cada dia mais meus cães; as plantas cujos ciclos começo a reconhecer; amigos que vão se tornando irmãos, que começam a conhecer tom de voz, olhares e respirações.

Três horas de estrada depois e o vizinho reclama de onde estaciono o carro. Não é onde ele quer e talvez não seja onde eu deveria, mas a ciática me acompanha há dois dias e não tenho forças e paciência para discutir. Seguro firme a caixa de cactos e suculentas nos braços e acho por bem parquear alhures. Ele deve, penso eu, a julgar pelo sotaque, ter seus problemas. E tem tempo de às nove da noite descer de seu descanso dominical para reclamar da uma vaga. Ora, há pessoas que são assim, e com elas convivemos, e delas sentimos pena quando não há mais espaço para raiva e ressentimento.

Foi um sábado inteiro tentando resgatar uma vela perdida, lutando com os cabelos contra o vento de 30 nós e sentindo o prenúncio de um domingo na cama com a coluna travada. Abaixa-se para pegar uma coisa, um chinelo, um cisco, uma joaninha, e a maldita vem como um choque e paralisa tudo. Ora, há colunas que são assim, não vergam, mas travam, e há que se conviver com elas da melhor maneira: cânfora, mentol, analgésicos e uma tarde de sono. Não há mais espaço para outras dores que não sejam na espinha.

Eu com vontade de comer panquecas tarde da noite, mas sequer tem farinha em casa. E quando o supermercado feito online chega, não posso guardar as compras. Sento no banquinho e sorrio. É lidar com limitações e tirar o melhor de tudo. Uma sopa de pacote não me faz dobrar a coluna, e é quente e confortável como colo de mãe. Se bem que um brigadeiro àquela hora seria o colo de uma família inteira.

Trabalho em silêncio acompanhada dessas plantas estranhas – umas que espetam e outras que parecem morrer de sede, embora me digam para não molhá-las. Nem tudo são flores, penso eu, estas serão diferentes e terão um ciclo de poucos cuidados e muita observação. Ora, há plantas assim, que não são como queríamos, mas têm vida alternativa e nem por isso menos interessante.

Um frio ártico entra pela janela num dia claro de doer os olhos. Não recolho revistas e nem leio notícias. Desenho o projeto do armário novo, observo o rapaz que lixa e pinta uma porta como se fosse um Michelângelo e penso – todos nós, de alguma forma, temos uma arte.

A minha é esta. Audição e visão em viagem silenciosa.


***


Mas vi isto.


Uma vergonha.

E 3 mil pessoas esperando na fila de transplante de córnea.

Ele é o médico que cuida das minhas.

E tem gente que reclama da fila do banco.


***


A madrasta é loira.

Comme il faut.

Arroz com feijão II

Vinte e quatro horas: foi o que tive de folga entre uma tradução e outra.
Não que eu me queixe.
Mas ando cansada demais.

Ia tirar uma folguinha de uma semana no final do mês.
'Ia' do verbo 'não vou mais'.

Sem tempo para um monte de coisas.
Incluindo o blog.
Incluindo redes sociais.

Meu sonho de consumo é rede, sim, mas daquelas onde a gente deita e fica pra lá e pra cá.
Por enquanto, o máximo é esticar o corpo para trás na cadeira maviosa e curtir dez segundos de balanço.

Mas porei imagens.
De lá e de cá.

Beijos

***

Eu também ando ouvindo "Smile".
Deve ter sido uma enorme coincidência.
Las hay...

Arroz com feijão

Revisar a tradução antes de entregar é uma das coisas que eu mais gosto de fazer no meu trabalho.
Principalmente porque mostra o quanto sou prolixa.
Enxugar um texto é tudo de bom.


***


Aprecio as pessoas óbvias.
Não apreciar no sentido de ‘gostar’, mas ficar de longe, de rabo de olho, observando os clichês.
A simplicidade óbvia dos outros, então, é uma aula magna de tipos psicológicos.


***


Alguém me acorda ao telefone às 05:40h da manhã.
Meu coração é forte mesmo.
Duas noites sem dormir, e acordar com o telefone às cinco e quarenta da manhã só me mostra que realmente, com sorte, muita sorte, na vida eterna eu descanso.
Nesta, impossível.
Um cochilo no máximo.


***

Jogávamos um jogo que consistia basicamente em saber blefar.
Acabei com quase 30 cartas na mão.
Já fui boa nisso.



durou três minutos


Desnatural


Pai e mãe só deveriam debruçar-se sobre o berço e a cama de um filho.

Pai e mãe jamais deveriam debruçar-se sobre uma caixa, cerrar ferrolhos e se despedir de um filho.

Toda e qualquer despedida entre pais e filho deveriam ser só um boa noite.

Pai e mãe não deveriam jamais pensar em acordar no dia seguinte sem um filho.

Deveria ser proibido pelas leis do universo e da natureza um filho ir embora antes dos pais.

Jamais.



“Se pudesse decidir pra onde ir
Riria.”

(Rodrigo)

Farewell

Au revoir, menino-poeta.
Descansa agora.


Que pena...

Tréguas

Dezessete.
Até agora foram dezessete ligações e quatro visitas técnicas em casa.
Somos eu e a operadora de tv a cabo.

Em 44 anos de vida, nunca vi uma relação tão surreal, diálogos tão loucos.
A ponto de, ontem, ao ser informada de que a ligação estava sendo gravada, pedi a gravação.
Juro que pedi.
Dizem que entregam aqui em 10 dias.
A ver.

Mais não falo e os bois não têm nome porque tudo está sendo devidamente registrado.
Vai ser o primeiro caso de um amigo advogado.
E a primeira vez que processo alguém.

***

Descobri que num canal, às 2h da manhã, passa Dallas.
Nada como ver JR e a canalhada toda e chegar à conclusão de que eles ainda estavam no jardim da infância da maldade.

***

20h e eu tomava minha sopa de batata baroa com brie e minha taça de rosé.
Na santa paz.
Assim que sentei, o homem da mesa ao lado olha em detalhes para a minha pessoa.
Olhar de deboche.
Instantes depois, fixa os olhos no meu maço de Benson & Hedges em cima da mesa.
O dele era de Lucky Strike.
Olhar de deboche.
Ele revira os olhinhos e faz um comentário gracinha com a companheira ao lado.

- "Olha só. Madame usa xale e fuma cigarro fino. Elas estão evoluindo na cadeia alimentar."

Fiz de conta que não ouvi.
Prefiro pensar que aquela garrafa de uísque que ele mamou e os pasteis de camarão que ele comeu tiveram destino doloroso e pouco nobre esta madrugada.

Da série "gente que perdeu a noção do perigo".

***

"Paris foi uma trégua. Entre as guerras púnicas e o campo de batalha que se armava pelas minhas costas e à minha revelia, Paris foi a minha trégua. Mereci e fiz por merecer. Aprendi ali a maior das lições: de quando em quando, a vida nos dá tréguas."

(Cadernos de Paris)

***