Agora eu sou eu.
Ou seja: eu e meu número coincidem.
Depois de dois dias perdidos na burocracia.
Ontem dei entrada no processo e paguei.
Achei que tudo se resolveria assim.
Pelo menos era o que estava escrito no site da Receita.
Bah.
Tolinha!
Segunda etapa hoje lá no Centro.
Fosse centro espírita, meu pai baixava e ria de mim, eu sei.
No site constava o horário de funcionamento de 8 às 19h.
Lá fui eu, às 9h, contando que neguinho ia chegar, tomar café, lixar as unhas, mostrar o álbum de fotos do netinho e falar do pagode do fim de semana.
Primeira fila: é o quê? - pergunta a simpática atendente.
É isso aqui.
Ela imprime uma tira e me entrega.
Era uma senha.
Para ser atendida a partir das 12h.
Eram 9:10h.
Respirei fundo e olhei os dois imensos relógios presos ao teto.
Um marcava 6:30h.
O outro, 13:50h.
Senti um calafrio percorrendo a espinha.
Voltei eu, depois de coçar até sangrar e desprender pêlos.
Às 11:50h eu estava lá, com meu envelope, cara de cidacã, com fome.
Sentei em frente à tela de senhas eletrônicas e vi o desfile de siglas e senhas para tudo a ser resolvido ali por cidacães como eu.
Minha senha dizia CPF17.
A tela piscou CPF33 assim que eu sentei.
Ops.
Fui ao guichê, entrei num cubículo e falei com um segurança.
Que, com cara de folha de papel dupla personal, me disse: "não há uma ordem exata; o seu atendimento é previsto para a partir das 12h; é sentar e esperar."
Novo calafrio subindo a espinha.
Olhei um homem comendo biscoito Maria e pensei em comprar uns três ou quatro biscoitos.
Pra comer regado ao GuarapRus que compraria da menina ao lado da mãe.
Do CPF 33, foi para o CPF 9, depois para o CPF 24, depois para o CPF 39 e aí CPF 16.
Custei a acreditar que eu seria a próxima.
Ao meu lado, um CPF não sei o quê levanta e sai, resignado: "estou aqui desde as 10h."
Novo calafrio.
Em outro canto.
Ouço gritos. Indignação. Queixa. Mimimi.
Uma moça loira e bem-vestida, aos berros, estava ali desde as 10h.
Dizia ela que tinha agendado uma senha para ser atendida às 10h, tinha compromisso e tal, que aquilo era uma palhaçada, e mimimi.
Eu penso no prazo de entrega da minha tradução que vence dia 20.
Na pilha de roupas para a máquina.
No almoço.
Na pilha de roupas para guardar.
No Brad Pitt, no Fagundes, no Andy Garcia, numa plantação de nabos, num avião caindo, num míssil atingindo o prédio, nós voando pelos ares.
Minutos depois, a moça entra no cubículo, a tal moça ARF 3.
Vejo piscar o CPF 17.
17 é cachorro no bicho.
Lá fui eu, cheia de bons dias, tudo bem e tal.
Um homem horrendo numa camisa amarelo-ovo e cordão de ouro grosso no pescoço me atende, pede uma carrada de documentos com aquela cara de, ah, mas duvido que ela tenha trazido a certidão 139.224 e o comprovante de residência.
Engano dele.
Eu levei tudo, mas tudo mesmo, sobre a minha pessoa-cã.
Sabe aquela certidão de nascimento, a primeira, antiguinha, ainda escrita à mão pelo escrevente?
Pois é, eu levei.
Conta de luz, gás, telefone.
Cópia de documentos dos meus pais até.
Meu diploma do jardim de infância.
O certificado de participação nos jogos estudantis de 1984, quando fui artilheira do meu time de futebol com quatro gols.
Eu e minha história em xerox autenticado.
Ele empilhou tudo, conferiu tudo, fez duas ou três perguntas, teclou duas ou três coisas no computador, me estendeu um papel e disse que, enfim, eu era eu.
30 segundos, foi o que durou.
Fui andando para a saída e os relógios ainda marcavam 6:30h e 13:50h.
Muito oportuno.
A cara daquilo tudo.
O homem ainda comia biscoito Maria.
A menina já terminara seu Guaraprus.
Dois que haviam entrado na minha frente estavam sentados novamente na fila.
Outra fila.
Saí dali, eu e meu número que agora me pertence como deveria ser desde o início dos tempos, e fui almoçar.
Pedi um prato chamado "viagem ao fundo do mar".
E uma coca-cola tarja preta.
Perfeito para a ocasião.