Quando meu primeiro filho nasceu, ela vinha algumas vezes por semana, logo cedo, com muitas sacolas carregadas daquilo que eu, na minha incompetência de mãe de primeira viagem, não conseguia gerenciar.
Trazia a feira da semana, tudo lavado e descascado, potes com comida, pastéis feitos em casa, e o olhar de espectatora, já que, segundo ela, não tinha jeito com crianças nem galetos novinhos.
Ficava aqui, olhando, apreciando o meu vai-e-vem entre roupas, fraldas, chupetas e cansaço.
No fim do dia, invariavelmente ficava com o bebê e me mandava ir para o quarto descansar, dormir.
Ficava com o bebê desajeitadamente em seu colo, e eu nunca entendi por que aquela mulher não sabia segurar direito um bebê, coisa tão fácil, tão instintiva para mim.
As virtudes dela eram outras - e eu viria a sabê-las com o tempo.
Na verdade, ela estava ali para fazer companhia a mim. Para me trazer comida. Para me dar o colo e o aconchego que eu, ao me tornar mãe, parecia ter perdido. E o fazia do jeito dela, com seu corpanzil, sua voz forte de barítono, suas decisões e suas palavras firmes.
Ontem, ao vê-la ir de vez, lembrei daqueles momentos. Quase sempre regados a gargalhadas fortes que acordavam o meu bebê e nos assustavam. Mas sempre regados a sorrisos, generosidade, bondade. O olhar do bom e do bem - era o que ela me trazia. E é a palavra 'bondade' o que me vem à cabeça para defini-la.
Anteontem, ao vê-la partir, ao ver sua última respiração, foi como se um anjo se afastasse de mim - her last breath of life. Sua última respiração foi nas minhas mãos. Depois de tentar uma ressuscitação cardiorrespiratória por vinte minutos, sem querer desistir dela, como se do alto da minha onipotência eu pudesse trazer à vida novamente algo que já tinha partido. Como se eu não quisesse desistir dela. Como se, por me sentir sempre grata a ela, eu tivesse que retribuir tentando mantê-la viva até que os médicos chegassem.
Eu, por um instante, senti, em meio às massagens cardíacas e às respirações boca-a-boca, que a estava segurando ali inutilmente. Ela já não queria ficar. E há muito tempo. Por não poder assistir à sua partida passivamente, como mera espectadora, tentei quando já não havia por quê. E quando ela de fato expirou e ficou quieta em minhas mãos, percebi o que dela se desprendia - essa coisa que chamamos de 'alma' e que era justamente o que não queríamos perder. Cumpri meu papel até o fim, segurando as lágrimas, fazendo de conta para a plateia que ainda teria um jeito, uma maneira, uma solução.
Fiz meu papel de deus errado. Quase podia ouvi-la dizer "pare, me deixe ir, você sabe que eu quero ir". Por acreditar - sem credo - em "algo melhor depois daqui", que somos só casca, que teremos algo "melhor" 'lá' do outro lado, qualquer que ele seja, pedia mentalmente perdão a ela por estar ainda ali tentando, enquanto meu outro lado, o lado A certamente, se despedia dela, agradecia, fazia o rito do adeus silenciosamente.
Depois do ritual estúpido dos homens, as certidões, os procedimentos frios e o 'the end' passando na tela, busquei as roupas dela, vesti, penteei os cabelos para trás e coloquei entre as mãos dela um terço que, eu sei, seria um desejo que ela teria. Depois escolhi as flores, ajudei a fechar a tampa e aí, sim, só consegui chorar muito e dizer "me desculpa", num franco ataque de deus de araque.
Em nossa última conversa, ao telefone, eu contava a ela sobre as flores da varanda, as mudas brotando, aquilo que estava nascendo. Eu dizia que nunca tivera jeito com plantas, que me surpreendia com o que eu plantava e nascia dias depois, florescia, "vingava".
Ao que ela respondeu:
- Quem cria filhos tão bons e bonitos como os seus, só pode criar flores.
Foi nosso último diálogo manifesto. Mas guardo essas palavras, tentando esquecer as imagens daquela batalha campal em cima daquela 'casca'.
Terei sempre uma gratidão imensa pelo que ela representou na minha vida. Pela amizade, o estar sempre por perto, os telefonemas a cada vez que chovia forte para saber se eu estava em casa, o caldo de galinha que só ela sabia fazer para mim, a maneira de me dizer de tempos em tempos que tudo ficaria bem.
E por isso, a cada vez que uma flor nova nascer por aqui, terei aquela frase na minha cabeça e saberei que, de algum lugar, ela estará sorrindo e dizendo: "Viu? Mais uma."





