Someone to watch over me

Para Leda




Quando meu primeiro filho nasceu, ela vinha algumas vezes por semana, logo cedo, com muitas sacolas carregadas daquilo que eu, na minha incompetência de mãe de primeira viagem, não conseguia gerenciar.

Trazia a feira da semana, tudo lavado e descascado, potes com comida, pastéis feitos em casa, e o olhar de espectatora, já que, segundo ela, não tinha jeito com crianças nem galetos novinhos.

Ficava aqui, olhando, apreciando o meu vai-e-vem entre roupas, fraldas, chupetas e cansaço.

No fim do dia, invariavelmente ficava com o bebê e me mandava ir para o quarto descansar, dormir.

Ficava com o bebê desajeitadamente em seu colo, e eu nunca entendi por que aquela mulher não sabia segurar direito um bebê, coisa tão fácil, tão instintiva para mim.

As virtudes dela eram outras - e eu viria a sabê-las com o tempo.

Na verdade, ela estava ali para fazer companhia a mim. Para me trazer comida. Para me dar o colo e o aconchego que eu, ao me tornar mãe, parecia ter perdido. E o fazia do jeito dela, com seu corpanzil, sua voz forte de barítono, suas decisões e suas palavras firmes.

Ontem, ao vê-la ir de vez, lembrei daqueles momentos. Quase sempre regados a gargalhadas fortes que acordavam o meu bebê e nos assustavam. Mas sempre regados a sorrisos, generosidade, bondade. O olhar do bom e do bem - era o que ela me trazia. E é a palavra 'bondade' o que me vem à cabeça para defini-la.

Anteontem, ao vê-la partir, ao ver sua última respiração, foi como se um anjo se afastasse de mim - her last breath of life. Sua última respiração foi nas minhas mãos. Depois de tentar uma ressuscitação cardiorrespiratória por vinte minutos, sem querer desistir dela, como se do alto da minha onipotência eu pudesse trazer à vida novamente algo que já tinha partido. Como se eu não quisesse desistir dela. Como se, por me sentir sempre grata a ela, eu tivesse que retribuir tentando mantê-la viva até que os médicos chegassem.

Eu, por um instante, senti, em meio às massagens cardíacas e às respirações boca-a-boca, que a estava segurando ali inutilmente. Ela já não queria ficar. E há muito tempo. Por não poder assistir à sua partida passivamente, como mera espectadora, tentei quando já não havia por quê. E quando ela de fato expirou e ficou quieta em minhas mãos, percebi o que dela se desprendia - essa coisa que chamamos de 'alma' e que era justamente o que não queríamos perder. Cumpri meu papel até o fim, segurando as lágrimas, fazendo de conta para a plateia que ainda teria um jeito, uma maneira, uma solução.

Fiz meu papel de deus errado. Quase podia ouvi-la dizer "pare, me deixe ir, você sabe que eu quero ir". Por acreditar - sem credo - em "algo melhor depois daqui", que somos só casca, que teremos algo "melhor" 'lá' do outro lado, qualquer que ele seja, pedia mentalmente perdão a ela por estar ainda ali tentando, enquanto meu outro lado, o lado A certamente, se despedia dela, agradecia, fazia o rito do adeus silenciosamente.

Depois do ritual estúpido dos homens, as certidões, os procedimentos frios e o 'the end' passando na tela, busquei as roupas dela, vesti, penteei os cabelos para trás e coloquei entre as mãos dela um terço que, eu sei, seria um desejo que ela teria. Depois escolhi as flores, ajudei a fechar a tampa e aí, sim, só consegui chorar muito e dizer "me desculpa", num franco ataque de deus de araque.

Em nossa última conversa, ao telefone, eu contava a ela sobre as flores da varanda, as mudas brotando, aquilo que estava nascendo. Eu dizia que nunca tivera jeito com plantas, que me surpreendia com o que eu plantava e nascia dias depois, florescia, "vingava".

Ao que ela respondeu:

- Quem cria filhos tão bons e bonitos como os seus, só pode criar flores.

Foi nosso último diálogo manifesto. Mas guardo essas palavras, tentando esquecer as imagens daquela batalha campal em cima daquela 'casca'.

Terei sempre uma gratidão imensa pelo que ela representou na minha vida. Pela amizade, o estar sempre por perto, os telefonemas a cada vez que chovia forte para saber se eu estava em casa, o caldo de galinha que só ela sabia fazer para mim, a maneira de me dizer de tempos em tempos que tudo ficaria bem.

E por isso, a cada vez que uma flor nova nascer por aqui, terei aquela frase na minha cabeça e saberei que, de algum lugar, ela estará sorrindo e dizendo: "Viu? Mais uma."


Silêncio



hoje é dia de silêncio

um anjo se pôs num dia de sol

Linha direta I

eu: Deus?
Ele: Eu!
eu: Tudo em cima?
Ele: Só!
eu: O senhor me responde uma pergunta?
Ele: Se eu puder, filha...
eu: Por que, com todos os diabos - ai, foi mal, desculpe! - sempre que eu finalmente sento para trabalhar de manhã depois da feira, do café, do mercado, alguém vem me dizer que não tem farinha de trigo para fazer o empadão de camarão?
Ele: Ah, filha... Este é um dos mistérios da santíssima trindade. Jamais teremos resposta. Paciência, filha, paciência...
eu: Por falar nisso, o senhor não teria uma xícara para emprestar?

***

Por incrível que pareça, as caixas estão todas exatamente no mesmo lugar.

***



marias-sem-vergonha em seu esplendor

Troféu limão

Coloco o CD para instalação de um dicionário eletrônico.
Primeira pergunta ao abrir o programa de instalação:

- Deseja instalar xpto?

Vontade de responder:

- Não, imbecil, botei o CD de instalação aqui, mas não quero instalar!

***

O gajo senta na mesa de quatro e encara um por um.
Começa um interrogatório.
Lá pelas tantas, dá de cara comigo com expressão de Q.
Pergunto como é mesmo o nome dele.

Ao que ele responde, caprichando nos sotaques:

- Aqui no Brasil é Valter. Nos Estados Unidos me chamam de Uálterrr Na Alemenha me chamam VVVálterrr. Na França, é Valtééér.

Só me veio isso à boca (mas não 'saiu', claro):

- E na cama, tua nega te chama como?

Ah, é cada uma, viu?

***

Minha fase II da 'mentalização' do pingente de florzinha no vaso teve êxito total.



Agora é do meu pescocinho.
Presente pra comemorar a boa colheita.

Thank you!

Com os devidos créditos pelo talento, pela criatividade e por produzir peças tão lindas e fora do comum, é do Antônio Bernardo.
Produto 100% nacional.

***

Acho que me apeguei às caixas...

***

Tô cheia de trabalho, então o assunto é esse mesmo.
So sorry.
Prometo melhorar.
Inclusive de humor.

Still in the box




Esta coisa lindinha veio do blog da minha amiga querida.
O 'Chaleira de Ferro'.
"Especiarias, ervas e outras coisas naturebas" é como ela define o espaço dela.
Que, sei eu, será bem mais que isso.

Em tempo: minhas mudinhas de ervas estão crescendo.
Vou tirar fotos.
Assim que, claro, eu encontrar a máquina.

***

Hoje é dia da diarista - a minha, a sua, a incomparável e doce Meri (de Rosimere).
Ela olhou em volta e fez olhar de pena.
De mim.
Fez café fresquinho e, just in case, vai deixar umas empadinhas de queijo.

Dia três, gente!

O armário tá montado.
Ficou uma belezura.
Ainda vazio.
Ainda não coloquei uma presilinha ali dentro.
Uns sachês de lavanda para tirar o 'cheiro de fábrica' e só.
Até o fim da semana ele estará recheado.
Não dá tempo.
Eu trabalho do dia todo, e a última semana tem sido sair de casa às 17h e voltar depois de meia-noite.
E nem é vida fácil, quem diria?
É mais trabalho mesmo.
Que, espero, valha a pena eu acordar todos os dias às 6h com cara de zumbi (dels, kéde o penico?), os olhos ardendo e a sensação de que não dormi um minuto sequer, embora eu saiba que apaguei assim que o primeiro cacho alcançou a fronha do travesseiro.

Exausta.

***

Não tem gente que tem energia ruim?
Ah, tem.
E eu sou uma 'esponja' pra essas pessoas.
Cinco minutos ao lado de uma assim e eu absorvo o bad karma, schulirp!

Ontem foi uma.
Assim que sentou-se, senti um arrepio.
Ops.
A pessoa me 'mediu' de alto a baixo.
Tipo 'o que ela é?'
Não era nem 'quem' ela é, era 'o que' mesmo.
É o que basta pra mim.
No exato instante em que percebo o clima, posso escutar os pesados portões de ferro baixando, o som dos ferrolhos, a chave sendo engolida, persianas e cortinas baixadas, janelas trancadas e os rottweillers sem coleira bem na porta.

Só falta eu dizer: "pode vir com o seu saca-rolhas que minha tampa é de rosca".

Eu, hein?
Chuta que é macumba!

***

"Eu parei de catar nata no leite, coar espuma, colecionar o que vem à tona.
Uma hora dessas consigo beber o leite."

My life in the box - A Saga

Martelos, marteladas.
Furadeira e furos
São dois a martelar e furar aqui ao lado.

Jesus, me chicoteia!

Dia dois.
Sem lado B.

Perdi até o penico onde pisava de manhã ao acordar.

Em algum lugar estará o diploma do Delf A que o Gu precisa apresentar para fazer o Delf B.
Em algum lugar estará outro par de meias.
Em algun lugar, meu casaco vermelho.

Minha mãe liga.
Eu conto a saga.
A tudo que eu digo, ela exclama, "que lindo!"
Oi?
Devo estar vivendo em uma realidade alternativa.

***

Amiga querida:
se eu não tivesse perdido a minha credulidade, o brilho, a alegria incondicional, alguns sentimentos nobres e o esperar o melhor das pessoas, eu sinceramente desejaria, um dia, com sorte, muita sorte, ser como você e a sua alma boa e generosa.
Podíamos ter duas de você no mundo.
E as coisas seriam um pouco melhores.

***

A coisa tá tão, mas tão preta por aqui, que já não consigo mais ver as plantas na varanda.
Caixas e pilhas de coisas e sacos são a paisagem da janela.
Ainda bem que chove e elas não precisam de mim.
Aos beija-flores e caga-sebos, peço desculpas pela ausência de água açucarada pela manhã e à tarde.
Lá para quarta ou quinta-feira a gente se vê.
Com sorte.

***

Enquanto isso, traduzo um capítulo sobre náuseas e vômitos.
É o que eu digo: há coisas cármicas em certos momentos da vida.

Bad hair day

O montador do armário está aqui.
Parece que vai se tornar membro da família (dada a 'velocidade' da criatura).

O humor não anda bom.
Digamos que pelo segundo dia acordo e piso no penico cheio.

Dor de cabeça.
Frio.
Enjôo.
Pele ressecada.

Meu reino por um spa.
E dois litros de coca-cola rótulo vermelho.

***

Papo muito agradável com um casal venezuelano jovem.
As mesmas reclamações que fazemos aqui.
Governo, violência nas cidades, falta de esperança.
Nós e nossos caudilhos.

***

My life in a box isn't quite funny.

***

Um dia, um dia haverá ordem de novo nesta casa.
Tenham paciência.
Eu ando porejando paciência.
Nada a ver com áries e touro.
Deve ser a maldita lua em câncer.

***

Falling, but not in love

Tomei um belíssimo tombo ontem.
Tabaft.

Claro que em público.
Lugar lotado.

Não sei por que cismam em levantar uma pessoa que levou um tombo.
Não entendo.
O melhor a fazer é deixá-la ali, quieta, curtindo seus cinco minutos de vergonha em paz.

O pé dói hoje.
Mas pior mesmo é a dor de cabeça.

Estou com cara de quem acordou e pisou no penico.
Cheio.
É claro.

***

Fui ali colocar minhas estufas de mudas de ervas ("o herbário") no único raio de sol que tinha na varanda.
Sol por míseros dez minutos.
Foi-se.
E todas as mudinhas estão brotando.
As ervas e as florzinhas.

O danado do amor-perfeito ainda não deu o ar de sua graça.
São três vasos com terra escura.
Quem olha, não entende.
Mas eu sou teimosa.
Cismei que vou ter amor-perfeito na varanda.
Se não forem esses, serão outros.

***

I told you: he's just not that into you.

***

Minha casa parece uma praça de guerra.
Caixas, caixas e mais caixas.
Coisas espalhadas por todos os lados.

Acredite, eu estarei 'portando' a mesma roupa até terça-feira.
Aliás, duas.
É uma para ficar em casa e trabalhar e outra para sair.

***

Aliás, tive uma ideia brilhante olhando para a parede vazia onde ficará o armário novo:
vou desenhar na parede.
Sempre quis rabiscar uma parede e nunca pude.
Melhor: vou comprar uma lata de spray.
Grafiteira, pois.

O Bê deu uma ideia legal: escrever na parede trechos de poemas, romances e músicas que eu gosto.
Taí.
Vou passar o domingo assim.

Fora do armário

Incrível como tenho um quarto grande sem armário. Sem coisas. Um espaço vazio, e o quarto faz eco. Sim, eco.

Ficou uma sombra suja de espaço ocupado e história. Só isso mesmo. Não ligo.

As caixas empilhadas na sala, e eu rezando para ninguém casar até quinta-feira, porque os vestidos estão no fundo, assim como o único sapato "social", assim como a bolsa de pedrinhas (achei!).

Os casacos de lã ficaram no fundo de outra caixa e, como eu previa porque tenho uma sorte do cão, desceu um ar glacial no Rio de ontem para hoje. Viverei até quinta com duas roupas e com o que quer que esteja "por cima" nas caixas.

Não achei o cachecol amarelo que meu pai me deu quando voltou do Uruguai, mas as meias que "ganhei" da TAM estavam misturadas aos maiôs - vai entender?

Os dois gracinhas que vieram ontem desmontar o armário e daqui saíram às 21h debaixo de uma chuva torrencial estavam felizes: o armário vai para a netinha de 11 anos. Uma gracinha de menina a quem tenho um prazer enorme de ajudar. Está agora na escola particular, joga num time de handebol feminino, tem computador e canta no coral da igreja. Uma boneca. Agora, com armário novo.

O que juntamos ao longo da vida nos dá a dimensão da nossa inutilidade. Não é preciso tanta coisa. Do que já tinha sido 'ceifado' alguns meses atrás sobrou muita coisa a ser ceifada, e assim será. Quero espaço. Preciso de espaço.

Cansativo foi, mas também um alívio. Será ótimo preencher um novo espaço com aquilo de que realmente preciso para viver. E nada mais.

***

He's just not that into you.

***

O nível de mau humor aqui sábado às 7h da manhã atinge níveis alarmantes.

É o tal maldito curso do Cambridge (CPE) pelo qual, um dia, ele vai me agradecer por ter insistido tanto no diploma.

***

Nada justifica grosseria, 'trolling', 'bullying' - palavras da moda.
Nem XY, nem uma vida sexual 'pacata'.
Muito menos um mapa astral desfavorável.

Eu que sou ariana com ascendente em touro e todos os planetas em fogo não saio por aí cuspindo marimbondos.
Prefiro a terapia, a jardinagem e a meditação para que as pessoas não tenham meus piores momentos.
Porque, se é para ter, eu diria que são inesquecíveis.

Bom dia, eu sou uma mulher de cachos

Se seus fios são esticados e certos, você não vai entender. Pode pular.

Mas se você tem cabelo ruim como eu, vai se encontrar aqui.

Vai se encontrar com aquela que acorda de manhã, abre um canto do olho, confere que o mundo dorme e ronca, rasteja feito enguia no Oceano Índico até o banheiro, olha-se no espelho e diz “bom dia, gaforinha”.

Antes mesmo de escovar os dentes e lavar o rosto, dedica-se a um ritual de ‘assentamento’ capilar com tudo aquilo que a natureza em toda a sua perfeição criou: água. Dá aquela sacudida, ajeita, amassa, assenta, e aí, sim, é capaz de preparar uma xícara de café. Volta para a cama com aquela cara de ‘eu sempre acordo linda e assentada assim’, fecha os olhos e faz cara de papel vegetal.

Sim, eu sou uma mulher de cachos, e as manhãs são impiedosas. As manhãs de vento, então, são a prova de que a natureza conspira contra você e a conjunção astral não está a favor dos seus anéis fartos e macios. Em poucos minutos, você é alçada de bela a fera.

Nem sempre foi assim.

Quando eu era pequena – sim, um dia eu fui – minha mãe se dedicava a enfeitar meus cachinhos com mil presilhas fofas e cuti-cutis que ela guardava numa gaveta de presilhas. A-há! Eu tinha uma gaveta só de presilhas. Que mamãe chamava de ‘bonitinhos’. E só eu tinha. Sim, porque lady Bee havia sido agraciada pelos deuses com o mais perfeito liso chanel, não bastassem os olhos verdes. Ódio! Acordava, ligava os faróis e lá estava – lisa, todos os fios se reconheciam como velhos amigos íntimos. Eu saía com as presilhinhas nos cachos – acho eu, uma tentativa da minha mãe de dominar o que nem mil cientistas geniais conseguiriam -, mas na primeira curva da Ataulfo de Paiva, metade dos enfeites já estavam fora da cabeça, e até chegar ao destino final, eu já havia removido o restante, que estaria então rearranjado em linda escultura pós-moderna em minhas mãos.

Cachos são indomáveis, têm vontade e personalidade próprias. Cachos têm sentimentos profundos, eu tenho certeza. Cachos têm uma filosofia de vida especial – sobreviver, encontrar espaço e harmonia num mundo escorregadio. E cruel.

Posteriormente, fui apresentada à touca e ao secador de cabelos. Tudo para confirmar que eu seria uma grande deprimida no futuro. Eu fazia a touca para um lado, enchia de grampos, metia a tal meia fina na cabeça e, no meio da noite, era melhor acordar para fazer a direção inversa, ou eu acordaria no dia seguinte lisa, sim, mas toda cambada para um lado. Então era passar o dia inteiro não só com a dor de cabeça pelo puxa-puxa e pelos grampos enfiados com raiva da natureza arredia, mas com o pescoço toscamente caído para o mesmo lado dos cabelos comunistas ou direita-radical, jamais centristas.

Não há moderação nos cabelos com cachos. Nem é possível chamá-los de liberais. São rebeldes mesmo. E sem causa outra que não seja enlouquecer sua dona.

Depois foi a fase do secador e da Farrah-Fawcett. Eu, você e a torcida do Flamengo. Quem nunca foi pantera por um dia que atire a primeira pedra! Eu lavava a gaforinha, ia para a frente do espelho e lá vinha a escova, da raiz até as pontas, num puxão que eu sentia trazer junto Killer e Lindinha – os dois neurônios – debatendo-se em desespero. Ficava lindo. Era só não chover. Era só o cara não passar a mão nos meus cabelos. Era só ficar imóvel e evitar qualquer corrente de ar. Era só combinar com o universo para tudo ficar estático até o fim da noite. Depois, era só dormir sentada e sem encostar a cabeça em nada. E, no dia seguinte, a realidade era implacável: aquele trabalhão todo tinha ido por água abaixo.


Adeus, Farrah; bom dia, Gal.

Um dia, vi uma conhecida com a cara grudada na tábua de passar roupa, passando os cabelos a ferro. Aquele cheiro de cabelo queimado, a expressão de dor e calor, o rosto vermelho, um potencial de erro enorme. Foi a imagem do inferno. Eu tinha orgulho do meu narizinho arrebitado. Não podia arriscar-me a perdê-lo. Jamais tive coragem, pois.

Passei, então a olhar as mulheres negras na rua e seus cabelos alisados. Ora, pensei eu (e Lindinha, porque Killer não é muito afeito a esses assuntos capilares e, como todo neurônio Y, ficou irreversivelmente traumatizado e sequelado com a escova): se dá certo com elas, por que não comigo?

Respirei fundo, me enchi de coragem e parti para a seção de alisantes. Passei semanas lendo caixas, rótulos, instruções e advertências. Claro que Lindinha, como todo neurônio X, pouco liga para as tais "advertências". Comprei uma caixinha daquelas e parti para o banheiro. Segui as instruções, tinha timer e tudo. Difícil descrever o resultado daquilo, mas lembro perfeitamente de ter entrado no elevador de manhã indo para a faculdade e sentir que tinha morrido um rato ali dentro há meses. Pelo restante da manhã, fui brindada com olhares tortos, caretas e revirar de olhos – o rato morto era eu! Euzinha. Eu fedia a carniça, e podia-se ver urubus sobrevoando onde quer que eu fosse.

Quando os efeitos daquilo passaram, só me restou a conformidade e o choro. Eu seria para sempre uma mulher de cachos. Então que tirasse proveito deles. Não conseguia, era fato. O mundo era liso. E escorrido. Eu seria para sempre um poodle num mundo de afghan-hounds.

Um dia, depois de terminar um longo e pesado relacionamento, entrei no cabelereiro mais caro do Leblon, deixei ali toda a minha mesada e me entreguei: “Faça o que quiser”. Joguei a toalha mesmo, desisti.

O cara fez um corte curtinho, tratou o cabelo com trocentos cremes e eu saí dali direto para um chope e para os ‘oooohhhhs’ dos amigos. Ficou show, lindo, uma graça. Mas cabelo cresce, creme se vai, e a realidade sempre volta a cair na sua cabeça como uma bigorna em cabelos crespos.

Tentei - já em casa nova, vida nova, mas a mesma gaforinha de sempre - um alisante mais ‘muderno’, coisa fina, sô. E na primeira vez em que usei, a única diferença sentida foi o cheiro de rato morto 'só' há uma semana. Pior: ao passar o tal creme alisante, caiu um pouco na porta do banheiro e, ao limpar a geleca, veio junto a tinta da porta. Ops! Imaginei então o que a tal ‘substância’ poderia fazer com Killer e Lindinha, a essa altura já completamente lesados, coitados. Nunca mais. A química também não resolveria a natureza sacana.

Passei a usar os cabelos bem curtinhos. Ao primeiro sinal de 'tóin', tesoura. Vivi anos em estado de joãozinho, mas feliz da vida: eu eliminara os traços da natureza vil e incompetente. Acordava com a mesma cara (e cabelo) de ontem, tudo ali, assentadinho. Gastava pouco xampu, pouco creme, e nenhum vento era mais capaz de alterar meu humor ou me causar crises de pânico, sudorese e soluços.

Até que a coisa virou moda. Eu cruzava na rua com um monte de joãozinhos. Chegávamos a sorrir, orgulhosas, umas para as outras. E eu detesto essas interações anônimas. E a coisa piorou quando uma famosa escritora metida a engraçadinha começou a usar o cabelo hiperjoãozinho igual ao que eu usava. Eu detestava a tal mulher. Fiquei revoltada. Quis meus cachos de volta.

Decidi deixar o cabelo crescer e assumi os cachos. "Saí do armário". Só que o estágio in-between cabelos (tradução: o cruel estágio de crescimento de cabelos ruins) é desumano. Você não é e nem deixa de ser. Você não está e não sabe quando estará. Quem está deixando os cachos crescerem de novo só conjuga verbos no futuro. Present is not an option. E longe é, sim, um lugar que existe. E no caso de quem vai ter cachos novamente deus sabe quando, longe é longe mesmo. É preciso ter fé. E muita fé. É preciso tirar as lentes, deixar os óculos de lado e se assumir como um borrão até poder se olhar novamente. É preciso crer nas embalagens dos cosméticos criados para ajudar gente que tem cachos. Ler aquelas palavras com fervor: amacia!, assenta!, hidrata!, brilha!, renova!

Hoje tenho um imenso orgulho dos meus cachos. Virou uma espécie de religião. Cuido deles com carinho e louvor. Deixo que eles peguem até mesmo um tornado classe 5 sem medo. Saio do mar sacudindo a cabeça tal qual um poodle de raça pura e sei que eles vão cair certinhos, lindos e brilhantes em cascata no meu pescoço. Enrolo um único cacho – o mesmo – nos momentos de tédio ou silêncio necessário. Virou um companheiro. Uma espécie de dica, pista, sinal. Eu mesma os aparo, tinjo e hidrato. O ‘pequeno ritual inconveniente da manhã’ não é nada perto do prazer de tê-los quentes, macios e cheirosos perto do meu rosto.

“Bom dia. Eu sou uma mulher de cachos. Com muito orgulho.”


Parte II

Não, ainda não foi.

Eu olho pro armário ainda cheio e de portas fechadas e mentalizo as roupas saindo, saindo, saindo, pairando no ar, entrando dobradinhas nas caixas (nas seis caixas = huahuahuahua!).

Já ouvi minha própria voz gritando pro armário: "Saiam!"

Ninguém se mexeu.
Nem elas, nem eu.

(ói, versinho!)

***

Sono aqui é mato que cresce rápido.
Quem mandou comer lombinho de porco (ok, ok, mas era sem sal) no almoço?

***

No momento, morta, roxa, azul de inveja das pessoas que vivem com 2 calças, 3 blusas e 1 sapato.
Calcinhas?

***

Sinto-me uma centopéia estúpida.

***

Acabei de ler esta pérola de sabedoria:

"Envelhecer não é tão ruim quando se pensa nas alternativas".

Oi?

(óbvio que foi escrita por um homem)

***

Eu vi um pingente lindo de vasinho de flor num anúncio do Antonio Bernardo.
Yes.

A fase I de "mentalização" já foi iniciada.

***

Meninos, sabendo do tamanho da obra que vai ser esvaziar o armário, guardaram as compras de supermercado e lavaram a louça.

Se eu fizer uma cara de mimimi mais convincente, será que esvaziam o armário?
E fazem meu jantar?
E põem a roupa na máquina?
E penduram a roupa?

A fase I de "biquinho" já foi iniciada.

Ainda fora do armário

Bom dia,
como diria a Fal, vamos baixar a cabeça e trabalhar porque temos que entregar 27% de imposto.

***

A crônica é só amanhã, que eu tô muito passada hoje.

***

O dia de esvaziar o armário.
Piedade, senhor.

***

Alguém normal, realmente “normal”, abre um sorriso de felicidade, os olhinhos brilham e a pessoa suspira longamente quando chega um envelope que nem é uma carta de amor, mas sim papel pardo recheado de traduções?
Incluindo um capítulo inteiro sobre êmese (er... tá, é vômito mesmo) no pós-operatório?
Alguém normal?

***

A vizinha cantora das 7h da manhã canta Dancing Queen no sábado, "aleluia, é a casa do senhor" no domingo e nas quintas chuvosas ataca de Lobão

"Chove lá fora e aqui faz tanto frio
Me dá vontade de saber
Aonde está você
Me telefona
Me chama, me chama, me chamaaaaaaa".

Bilhete meu:

"Compro o seu silêncio. Pago cash. Adiantado."

***

E é ca-la-ro que ela tem um único sapato.
E é ca-la-ro que é um sandalhão plataforma.

Potoc, potoc, potoc, potoc.
(eu espero o relinchar)

E é ca-la-ro que, quando chega à sala, esqueceu algo no quarto.
E é ca-la-ro que trata-se de uma moça mui-to esquecida.
E é ca-laro que o percurso sala-quarto-sala é feito e refeito à exaustão.

Preciso dizer que é ca-la-ro que é sempre às 7h?

Próximo bilhete:

"Quanto você calça?"

Próximo ato: eu, botando a cabeça pra fora da janela, abrindo os pulmões:

pocotó, pocotó, pocotó, pocotóóóó
minha eguinha pocotóóóó

***

Preciso ur-gen-te-men-te dar um jeito nessa nojeira.
Nojeira, sim.
Não tem coisa mais suave a dizer.



***


Hoje à noite chegam as caixas de papelão.
Para as coisas que vou tirar do armário quando esvaziá-lo.
Seis caixas imensas.

Ah, a ingenuidade...
Seis caixas?
Oi?

Huahuahuahuahuahuahua.

***

There: Trabalhando?
Here: Não posso.
There: Pq?
Here: Fui guardar as compras do mercado, daí fui botar as carnes no freezer, daí tinha coisa demais, daí tive que fazer um planejamento logístico para o freezer, daí que fiquei muito tempo com uma caixa de nuggets e um peso de picanha congelada nas mãos, daí que meus dedos congelaram e ficaram duros e insensíveis, daí que não consigo digitar.
There: Ué? Mas não estás digitando agora?
Here: Pô, você não teve um irmãozinho que entornava café com leite no seu dever de casa?
There: Não tenho irmão, esqueceu?
Here: Mas caraca, hein?

***

O dia seguinte de um malbec argentino é desejar a morte.


Rotinas



Vai, fala sério: eu realmente pareço com ela em toda a sua "beleza exótica e ao mesmo tempo delicada?"

Coisas que só acontecem comigo...

***

A rotina volta ao lar dos Belt-Birth.
Logo bem cedinho, não há viv'alma nesta casa.

E um alarme de relógio que toca insistentemente às 9:15h.
Alguém que ainda se sente em férias suínas.

***

Chegam as notas da escola, do bimestre passado, que, do alto de toda a sua autoconfiança, o guri sequer fui buscar.
Ossos do ofício, cato logo a prova de português. Não tem jeito. Sou chata mesmo.
Olho os textos. Os erros, claro.
Mais uma vez conversamos sobre metáforas. Sim, uma longa conversa.
Metáfora é comigo mesmo, a rainha das ditas-cujas.

- Mas, olha só, mãe. Eu tirei 10,5 em Física!

Como é que uma criatura normal pode tirar 10,5 numa prova de Física?
11,0 em Matemática?

(Explico: as provas têm 10 questões normais e uma questão-desafio.)

Mas ele continua com sérios problemas com metáforas.
Vou ter de me esforçar mais para fazê-lo entender.

Ele terminou de ler Fernão Capelo Gaivota.
Achou o livro "estranho".
Pergunto o que ele "depreendeu" do livro.
"Depreender"?
Não sabe, claro.
Vai ao dicionário.
Me explica, vai...
Não! Vai ao dicionário!

É, ele entendeu o que é "depreender".
Mas ainda não conseguiu explicar por que achou o livro "estranho".
Falou sobre "sermos eternos aprendizes na vida".
Ah, que alívio!
Pelo menos.

Meu filho, você caminha sempre em movimento retilíneo uniforme ao meu coração.
A vida nos impõe desafios em movimentos retilíneos uniformemente variáveis.
O amor não conhece a lei da gravidade.

Vai ser meio por aí.

***

As discussões no senado e na lista de tradutores têm vários pontos em comum.
Me divirto com ambas. Já é um ponto.
Acho divertidíssimo ver homens discutindo. Homens, I mean, o povo XY.
Que, nessas horas, transitam como meninos bobos entre o X e o Y em nanosegundos.
Xingam-se, arregaçam as mangas, cospem, mostram os caninos.
Daí você fala em 'misoginia' e ficam magoados.
É o pior 'xingamento' para eles.
Que, claro, só enxergam a acepção 2 do dicionário.

Tá.
Na próxima, vou sugerir "parlapatão".
Vai soar como um carro-bomba.
Mas eu me divirto à vera.

***

Amanhã, crônica minha que motivou uma dezena de emails ontem.
Todos positivos, pelo menos.
Mas o da minha mãe foi show.

Domestiquices

O celular de um quebrou.
Duas calças jeans do outro não cabem mais.
Here we go.
Trabalha, escrava!

***


Estande de plantas num shopping (a continuação do celular quebrado e das calças pequenas). Ocorre que me apaixonei por um bambu chinês.
Coisa mais linda.
Fico encantada com a saúde da planta.
Uma graça.
Olho para ela.
Ela olha para mim.
Pego o lindo vaso e fico ‘avaliando’.
Eis que ouço uma voz do além:

- Combina com você – de beleza exótica e ao mesmo tempo suave.

Era um daqueles ‘tios de Corolla’.
Meu, que fim de linha...

(Eu tinha uma resposta boa que rimava com a planta em questão, mas resolvi deixar barato.)

Meia hora depois, voltei ao estande e comprei a plantinha.
Sei que vou rir cada vez que passar por ela.
Eu mereço.

***

Daí liga a moça da loja de móveis dizendo que meu armário novo será entregue - ora, viva! - quinta-feira.
E não arrumei ninguém para desmontar o antigo.
E preciso esvaziá-lo.
E, para tanto, preciso de caixas.
Muitas. Muitas mesmo.

E eu tenho que fazer supermercado.
E tenho que recomeçar as aulas de francês.
E, depois, a aula particular de conversação em francês.
E tenho que trabalhar.
E tenho que retomar a leitura do livro e os solfejos.
E tenho uma montanha de papéis de contas antigas a rasgar.
E tenho o escritório a arrumar.
E tenho que afastar tanta coisa.

E eu preciso aprender a torcer o narizinho para as coisas acontecerem.
Pininininim!
Voilá!

***

O bom de esvaziar e desmontar um armário é que eu sei que vou encontrar coisas que não vejo há séculos.
Tenho certeza de que n'algum lugar estarão o meu cachecol amarelo, uma bolsinha de pedras, as meias de dormir que 'ganhei' da TAM e quem sabe o que mais.

O quê, ao desmontá-lo?
Monstros do armário?
Ou, como diz o John, tanta coisa boa e especial?

Para começar

Uma campanha do bem. Vídeo lindo. Impossível não se emocionar pelo menos um pouquinho.


Aprazível, ma non troppo

Depois de duas horas de gardening, tudo plantadim, regadim, acarinhadim, o corpo começou a dar sinais de arribar para bons ventos.
E a dar sinais de fome.

Dia lindo, lindo, lindo de morrer, e eu me recusava a ficar plantada em casa como um pé de jasmim.
Bate a fome. Pé na estrada.

Boa sugestão, Aprazível então.

Como sempre, uma ocasião psicossocioantropológia para mim.
Observar pessoas.
É o que mais gosto de fazer nos ambientes.

E a turma que vai lá não foge ao esteriótipo.
I mean, tanto quanto as pessoas 'iguaizinhas' são criticadas porque seguem a carneirada, a turma "eu me esforço para parecer diferente dos burgueses" também é um grupo (crescente) interessante.
De tanto se esforçarem para parecerem diferentes, acabam sendo iguais.
E com um pé no ridículo na maioria das vezes.

São 'statements' comuns, as mesmíssimas verdades absolutas, chegam a olhar em volta para ver se "os outros" percebem o quanto são "diferentes, originais, inteligentes".
Tipo, sou simples, então sou bacana, gente boa.

O que rende uma profusão de modelitos brechó ou "era da vovó" todos iguais em sua diferença, cabelos despenteados segundo um padrão singular, discursos calcados em livros "alternativos", a mesma palidez e o mesmo ar boêmio, crianças que andavam a esmo falando sozinhas com ar de quem não come carne até pararem na minha mesa para receberem o meu doce olhar "é o quê?"

Nós conversávamos sobre economia, destoando dos Lacans, teatro alternativo, arte contemporânea and stuff que reinavam à nossa volta.
Falávamos de economia.
Não que gostemos de economia, mas pelo menos não era política.
Ufa!

Eu só queria mesmo sentar entre as árvores, apreciar a vista linda da cidade lá de cima, comer a galinhada (diliça), tomar uma caipirinha de manga com gengibre e litros de água com gás. De sobremesa, um tal de "carimbo" = sorvete de castanha do Pará com doce de cupuaçu.
Oh, boy, how I love cupuaçu!

(Next stop, Lençóis Maranhenses, lá para outubro, a ver.)

E desci Santa Teresa rezando para ter de fato ficado boa da virose que me atacou sexta e sábado e tirou cada gota d'água de cada célula corporal que me habita.
So far, so good.
Sobrevivi.
Aos hippies de butique, à galinhada, à caipimanga e ao cupuaçu.
(So far, à economia também, embora ainda tenha minhas dúvidas.)

Entre a minha chegada e a minha saída, um acidente com um bonde sem freio que matou uma pessoa e deixou várias gravemente feridas e, à noite, um arrastão.

Sou mesmo uma moça de sorte.
And healthy guts.



Vista do Aprazível



Por de sol pós-prandial em Santa Teresa.

***

O quase-lindo, aquele príncipe quase-loiro de olhos verdes e ares de quase-lorde livrou-se do exército.
Até do exame médico de cuequinha com direito a palpação.
Uia!
Agradece aos maus genes que lhe deram 5,5 graus de miopia.

Agora pega ônibus para ir para a universidade pública já sabendo que hoje, primeiro dia de aula (depois de duas semanas de férias suínas), "neguinho" não está dando aula.
Hum.
Vai lá só para ver as salas onde terá aulas, com sorte, um dia, quando "neguinho" resolver dar aula.
Viva o ensino público.

L'Orangerie Hotel

"We are all here on earth to help others; what on earth the others are here for I don't know."

(Auden)

Perfeito.

***

Bilhete na porta:

"Vim dormir em casa. Me acorde às 10h. Beijos."

Ao que respondi no post-it ao lado:

"A diária vence às 12h. Apresse-se."


Ah, as alegrias adolescentes....

***

Dia absolutamente esplendoroso.
Dia de plantar.

(Agora eu tenho uma maletinha de apetrechos de jardinagem)

Next step: a huge straw hat, clogs, gardening apron and a big jar of pink lemonade.

Tô me sentindo muito desperate housewife ultimamente.
Quando eu passar o dedo nos móveis, por favor, me dê um toque, ok?

Quoting

"Amor verdadeiro se busca na rodoviária.
Amor falso se deixa no aeroporto."

(Fabrício Carpinejar)

***

É quando passamos e vencemos a fase das jóias, dos chocolates, do champanhe, das flores e de olhar a lua juntos de mãos dadas que o jogo começa de fato.

(é da casa mesmo)

***

Estou lendo um livro tão, mas tão ruim, que não daria nem para forrar gaiola de passarinho ou fundo de lixeira com suas páginas.
Mas prossigo.
Porque depois dele tem Isabel Allende.

***

Presa em casa com uma virose.
Atualizando o herbário com novas mudas:
camomila, erva doce, coentro, manjerona, salsa, cebolinha, hortelã.

Litros de gatorade e coca-cola rótulo vermelho.
É no que dá 'comer saudável'.

TGIF

Mais um da série "por que não leio mais jornal".

Sujeito faz emboscada em estacionamento de shopping, sequestra uma jovem médica com a filhinha de um ano na cadeirinha atrás, leva a moça para um matagal, tenta estuprá-la, ela reage, ele tenta escapar com a bebê, ela instintivamente reage, ele atropela a moça, mata, abandona o carro com a bebê dentro, volta ao shopping com a namorada, faz compras com o produto do roubo, come, bebe, ri.

Foi preso. Tudo filmado pelas câmeras do shopping. Não teve nem o que discutir.

Este sujeito estava em liberdade por conta de um indulto de dia dos pais. Já tinha ficha recheada por estupro, tentativa de estupro e roubo (este, no mesmo shopping).

Já está mais do que na hora de acabar com esse negócio de indulto.

Não tem Natal, dia dos pais, dia das mães, dia da trepada, nem "bom comportamento" para quem está preso.

Direito de preso é um ambiente salubre e limpo, comida, água.

Ponto.

Com sorte, recebe a visita das família uma vez por mês.

E se eu continuar falando sobre o assunto, gasto os dedos.

Não adianta.
Tem coisa neste país que realmente não têm jeito.

Ou melhor, tem o jeito da Bia:
transformar o Maracanã numa grande pira.
Põe esses tipinhos lá no meio do gramado.
Um helicóptero lança gasolina de cima.
Depois, um fósforo.

No dia seguinte, replanta-se a grama.
Acabou.

***

Feira.
Tangerinas só.
E me apaixono por uma mini-orquídea amarelinha, plantada num microvaso.

Não tem gente que aluga vaga nos prédios?
Pois eu vou acabar alugando a varanda do vizinho.
Lá só tem uma bicicleta velha.
E eu querendo "expandir o meu jardim e o meu herbário".

Uma verdadeira latifundiária urbana.

***

Hoje tem empadinha de brigadeiro.
Cara, surtei!

***

Penso nas opções para o fim de semana.
Hum.

Olho a minha cama e ela me parece um reino.
Enquanto não esquentar, sou urso: comer, dormir, comer, dormir.

The day after

Nos preparamos anos a fio com bonecas, panelinhas e casinhas. Trocamos fraldas imaginárias, damos banho e alimentamos nossos bebês fictícios com papinhas de folhas e casca de árvore.

E o dia chega, o guri deixa nossa barriga quente e protetora, e daí para frente é contar com boas conjunções astrais. Nervos de aço. Coração de pedra. Respiração sempre tocando os dentes.

São as febres terçãs, as viroses, os pontos na testa, o gesso no braço, corpos estranhos em orifícios estranhos, alergias, o choro na porta da escola no primeiro dia de aula, a namorada que se vai e deixa lágrimas, o zero na prova, acordar às 4h da manhã e a cama estar feita.

O que nos faz aguentar? O que nos dá resiliência? Essa coisa meio borracha, meio elástico, meio arame e meio aço que nos sustenta na maternidade/paternidade?

- É como cair do cavalo e subir de novo, mãe. Preciso consertar meu barco e velejar novamente.

Ah, sim. Caímos do cavalo e tornamos a montá-lo tantas vezes! Simples assim. Como na vida.

E, ainda assim, todos os dias agradeço, comemoro e me encanto com a vida com meus meninos.

Cardiologista? Pra quê? Prova de esforço na esteira? Bobagem!

É passar pela porta do quarto, abrir de levinho e dizer:

- Que bom compartilhar essa vida com vocês!

Ainda que com frios na espinha, descargas de adrenalina, o choro de alívio escondido no banheiro, orações sempre na ponta da língua. A certeza do presente ganho quando cada um veio a mim.

Melados à parte, só queria que, na sala de parto, depois de dar à luz e tal e coisa, tivesse vindo junto um suprimento vitalício de Lexotan e um 'personal' com manual na mão. E um cavalo pra chamar de meu!

Só me resta mais um Dorflex para tirar a dor no corpo, uma dose extra dos Florais de Bach, mais quinze minutos de meditação à tarde e voltar à tradução do livro de anestesiologia. Ah, sim, anestesia. Neste caso, assunto mais que propício.



Sim. Nós, mães, temos um timing perfeito.

Relatos de um náufrago

No primeiro telefonema, ele fez o certo: não disse aquela frase que eu odeio e me faz perder o ar: "olha, agora tá tudo bem, mas..."
Já foi direto ao assunto. Disse que estava numa prainha interna do Forte São João, para onde foi levado pelo bombeiro do serviço de salvamento marítimo, e falava do quiosque da Samu.
Estava calmo. Incrivelmente calmo. Calmíssimo.
Eu só ouvi as palavras 'bombeiros' e 'Samu'. É onde o mundo para por um segundo para todas as mães.
Disse que não havia se machucado, que estava bem, mas a bolina do barco (uma chapa resistente e plana que se adapta verticalmente por baixo da quilha das embarcações a vela para conter a sua inclinação e o seu abatimento ao navegar) tinha partido ao meio e a outra parte ficou lá pelo mar (deve ter batido lá em Niterói). Ou seja, sem aquilo, impossível navegar.
Estava esperando reboque. Aguardava na praia. Estava preocupado com os outros três que tinham ficado no mar. Os bombeiros o deixaram ali e disseram que esperasse, pois voltariam para resgatar os outros e os barcos e retornariam para buscá-lo.

Engraçado é que na hora não ligou para o pai, o que seria mais do que natural, já que entende do riscado e sabe montar e desmontar aquela joça toda.
Mas mãe é mãe. Principalmente nesses momentos.
Tipo, "estou bem, estou a salvo, foi um baita susto, mas vem aqui, mãe".

Lá fui eu. Do jeito que estava trabalhando em casa. Foi o tempo de agarrar um casaco para ele. Até o carro balançava com as rajadas de vento pelo caminho.

Chegando no Forte, vi de longe o barco na areia, a vela panejando com força, o casco se inclinando a cada rajada de vento. E vi meu menino todo molhado, gelado, uns militares conversando com ele da amurada. Ofereceram roupas secas, comida, café, ajuda para desmontar o barco. De quando em quando, vinham para saber se ele estava bem.

De pernas bambas, cheguei até a praia, um vento medonho, e abracei o guri sorridente e de olhos arregalados. Fomos até o barco e com muito custo, juntos, desmontamos tudo entre rajadas de vento que nos faziam parar às vezes (é claro que estou toda doída hoje). Ele contou que assim que chegou à pequena praia e arrastou o barco até a areia, o casco rodopiava feito pião no eixo. Um horror. A areia batia em nós com força. Um frio de rachar.

Pouco depois das 16h, ele e mais três colegas de vela retornavam ao clube depois de um treino. Na altura do Porcão do Aterro do Flamengo, foram surpreendidos por rajadas fortíssimas. Não foi ventando aos poucos; o vento entrou com tudo. Os barcos viraram e ele foi o único que conseguiu segurar o dele por um cabo. As rajadas eram tão fortes e contínuas que viravam e desviravam os barcos e, segundo ele, a água se levantava do mar como um paredão. A bolina partida dificultava o equilíbrio do barco, mas ele se mantinha ali.

Uma das meninas, na água, entrou em pânico e não conseguia nadar. E nem o restante a controlar ou alcançar seus barcos. O Gu, com paciência, fez algumas manobras e conseguiu chegar até uma das meninas, colocando-a em seu barco enquanto a lancha dos bombeiros e do clube já estavam chegando ao local.

O clube sabe quem sai para o mar e quem ainda não voltou. Num caso desses, parte imediatamente para procurar quem está no mar. Os bombeiros os viram passando pouco antes da primeira rajada forte. Disseram que perceberam que aqueles meninos estariam em dificuldades e já partiram mesmo antes de serem chamados. Chegaram logo.

Operação resgate em andamento, o Gu foi o primeiro a deixar o local. Um bombeiro pulou para o barco dele e foram juntos até dar na pequena praia abrigada da Urca. Os outros tiveram que abandonar seus barcos à deriva e seguiram na lancha do clube. Um quarto barco, maior e tripulado por dois velejadores experientes, ainda estava sumido, e só apareceu lá pelas 20h.

O vento rugia e as rajadas chegaram a 48 nós, algo em torno de 90 km/h. Para se ter uma ideia, para esses veleiros, não se dá largada de regata com ventos acima de 25 nós. Eles pegaram o dobro disso. Impossível qualquer reação de navegar. Os que foram regstados à noite, resumiram bem: "o barco se vira contra você, vira um inimigo no meio do inferno". Com as roupas rasgadas e gelados, também não se feriram e o barco foi rebocado. Foram encontrados muito além do canal de navegação dos navios na Baía de Guanabara. Um baita caminho. Velejadores que estavam em terra, rapazes experientes, foram para o mar ajudar no resgate. Um deles, ex-técnico do Gu, pegou uma lancha do clube e rebocou o barco do Gu da praia até o clube.

Já em terra, no clube, os guris se encontraram, se abraçaram e riram muito. Contavam o feito, entre o susto e o orgulho de terem feito tudo certo. Lavavam seus barcos com cuidado, como faz uma mãe que lambe sua cria depois de um aperto. Poucas avarias, uma ou outra coisa perdida, bonés, cabinhos e a tal bolina. E respectivos pais e mães ali, com cara de nada. Teve gente que mora na Urca, viu os meninos no mar e correu para o clube em preocupação, pois era claro que aqueles guris passavam por um grande aperto.

A primeira menina a chegar me dá um abraço emocionado, gelada, molhada e assustada, e me diz:

- Seu filho é um heroi. Salvou a minha vida.

Não há como não sentir um calor por dentro ao ouvi-lo.

Depois foram os bombeiros, que vieram ao clube saber como estavam todos, trazendo os barcos perdidos. Um deles, o que ficou o tempo todo com o Gu até chegar à praia, elogiou a 'perícia', a calma e a coragem do guri. Apertei a mão dele, dei o nome e a idade do Gu para o registro de salvamento, e agradeci que o tivessem me devolvido bem. Rapazes sorridentes, simpáticos e competentes. Voltaremos lá no grupamento para abraçá-los.

Eu olhava aquilo tudo, polianescamente pensando que podia ser pior, sei lá, o guri correr num carro de Fórmula Um. Afinal, ele soube o que fazer. O principal foi ter mantido a calma o tempo todo. Depois, um banho quente, uma roupa seca e uma comida reconfortante. E certamente uma boa história para contar pros filhos dele no futuro.

Ah, sim: meu consolo é que esses guris vão ter filhos. A-há!

Fotos do meu celular




chegando à praia onde o encontrei



começando a desmontar o barco


o barco na praia do Forte



chegando ao clube



chegando em terra



a bolina partida ao meio



os três barcos já em terra



checando a vela


as meninas


o grupo reunido



comida quente, roupas secas




meu heroi! (tá, ainda meio arregalado, não?)

Só amanhã

Gu e mais três velejadores foram resgatados hoje à tarde do mar em forte ventania.
Estamos em casa, estão todos bem, cansados, gelados e doídos. Mas bem.
Amanhã relato completo com direito a fotos que tirei onde o encontrei.
Tô moída.
Mas gratíssima.

e no domingo...

... tem bacalhau com natas.
E nem é fechado para a matilha.
Duas convidadas ilustres completam a comilança.

***



Sábado absolutamente deslumbrante na cidade linda.
Anchova assada compartilhada com gaivotas em alto mar.
Horas de pernas pro ar.
No doce balanço.

***

Ah, sim.
Domingo, 7:30h, os passarinhos já montavam guarda na varanda.
Piu,piu,piu,piu.
PIU!

Quase gritei da cama: "ah, dane-se, podem comer as lavandas mesmo!"

***

Guri cortejado por guria espevitada.
Foi uma verdadeira 'caça'.
Ambos 14 anos.

- Bonitinha, ela, filho...
- Chata.
- Ah, o que é isso...
- Chata.
- Parece uma bonequinha.
- Chata.
- Olha aqui, garoto: na sua idade, menina não tem que ser chata. Deixa de ser pamonha!
- Mãe... ela repetiu ano, mãe! Sacou?
- Mas é bonitinha!
- Odeio mulher burra!

Tá.
Mais uns seis meses, e ele descobre que não é 'bem' assim.
Aos 15, não vai querer saber nem o nome.

Porque hoje é sábado

7 horas da manhã.
Sábado.

Vizinha põe rádio-chuveiro para funcionar.
Abre os pulmões com tudo.
E canta Dancing Queen.
Mais alto que todos os integrantes do ABBA.

Eu mereço.

***

7:45 h da manhã.
Sábado.

Um passarinho pia incessantemente - e alto - na varanda.
Levanto para ver o que é.
Ele me olha.

Ok.
Captei.

Botei a água com açúcar.
Ele bebe, pia, canta e se vai.

Eu mereço.

***

9:00 h.
Sábado.

Saio para comprar 12 cuecas.
Sim, doze.
Do-ze.

Alguém perdeu 12 cuecas.
Todas as doze.

Eu mereço.

***

O dia ainda não acabou.

Mais um pouco ou quase nada

“No meio da palavra sentiu uma tontura. Uma vertigem súbita e forte, uma dormência que não se estendeu aos dedos que continuaram a digitar freneticamente o texto. Sentiu a cabeça rodar, o quarto rodar, o texto rodar. A mão esquerda alcançou lentamente o braço da cadeira e ela não parou de digitar com a outra. É assim? É assim que acontece? Chega um dia, um determinado conjunto de segundos, e a coisa acaba assim? Começamos a desconhecer as palavras, depois os toques, depois os significados, e só resta tontura?”

(Mais um pouco ou quase nada)

***

“- Você nem sabe ao menos de que cor eu gosto. Eu sei, por exemplo, que você detesta verde. E cinza. Mas e eu? Você sabe por acaso de que cor eu gosto?
- Como é possível alguém no mundo gostar de bege?
- Vermelho. Eu gosto de vermelho.”

***

No meio de tudo, a empresa de aluguel do ap em Paris manda um e-mail:

Looking for a relaxing summer?

Gente, o timing dessas criaturas é impagável.

***
Na primeira versão
Era ostra
Na segunda
Era crédula
Páginas e anos depois,
Planta
Raízes, ciclos e alimento.

***



Quando passei na ida, ela estava ali.
Pacientemente pescando.

Quando passei de volta, ela continuava exatamente no mesmo lugar,
fazendo exatamente a mesma coisa.

Tinha cara de velha.

Uma gaivota fazia o mesmo, um metro adiante, com mais animação.
Dava gritinhos, voava, mergulhava.
Meteu o pé na jaca.
(Acho até que comeu um boné abandonado na areia)

"And the old lady patiently stood there.
And ate none."

Peraí.
Garça na praia?
Não dá em lagoa?

Ok.
Para quem viu avestruzes ciscando numa praia da África do Sul, nada mais é estranho.

Divagando

É o que eu digo: escolha bem o seu padrinho.
Ele pode não reconhecê-lo amanhã.

***

E-mail da escola informando sobre nova prorrogação das férias.
As aulas só recomeçam dia 17.
Acabou-se o estoque de álcool-gel.
É o mundo que se esfarela.
Somos paralisados e mortos por um trocinho invisível.

***

Cliente retorna um e-mail de orçamento.
Agradece, mas diz que o cliente final - velho conhecido meu - optou por uma "solução de tradução caseira".
Yes, I'm quoting.

Respondi educamente um ok, obrigada pelo retorno.
Era um serviço off-medicina.
E desde o começo das 'transações', um jogo de cartas marcadas como eu já previa.
Desejo sorte.

***

- Vai não?
- Vou não. Tô cheia de trabalho.
- Mas você só trabalha, sô!?
- Nas horas vagas, nas horas vagas...

***

Sonhei com um quindim.
Lindo, amarelo, gordo, suculento.
Eu olhava pra ele; ele olhava pra mim.
Não sei como acabou o tal sonho.
Acordei antes.

Ainda bem que não gosto de côco.

***

Só esta semana, li umas três ou quatro notícias de bebês abandonados em sacos plásticos, no lixo.
Muita gente vociferando contra as mulheres - sim, está certo, isso não se faz.
Mas esses bebês são fruto de geração espontânea? O Espírito Santo?
E os pais? Ninguém lembra as aulas de biologia da escola?
Um óvulo + um espermatozoide = um bebê.
Cadê a outra parte?
Levanta assim, vai embora e ninguém questiona?

Mas, francamente, ao abandonar um bebê - pelas razões que sejam - nunca na lata do lixo.
Deixa na porta de uma igreja, escola, casa.
Num banco de jardim. Embaixo de uma árvore.
Nunca numa lata de lixo.

Sabe lá o que é crescer sabendo que não só você não foi querido como ainda foi jogado no lixo?
É se sentir lixo para sempre.
E ninguém merece começar a vida assim.
E nem segui-la assim.

***


Manguinhos, Búzios, julho/2009


Dava um rim para estar sentada aí, bem na beira do mar.

Day three, the picture of a soul



Sabe como é?
Pois é.
Assim.

***

À noite, fico zapeando feito um macho os canais da tv a cabo.
Quase sempre a solução é um documentário: cinco minutos depois, estou no reino de REM.
Esses documentários sobre animais, então, só perdem para os que falam das origens das coisas.
Gosto dos documentários sobre bichinhos.
Aliás, mais ou menos.
Já reparou como quase sempre o pobre do bicho se ferra?

Outro dia era um documentário sobre o verão no Ártico.
Ô, coisa boa!
E gela, degela, e neve e grama, uma coisa linda.
E tome bicho.

Acompanhava eu a saga de umas famílias de aves que põem os ovos lááááá em cima de um penhasco, chocam, alimentam os filhotinhos lindinhos de morrer e depois os preparam para o primeiro voo.
Lá vai o bichinho batendo as asas e a mãe/o pai atrás, dando gritinhos de estímulo.
O objetivo é chegar na água, num pouso pra lá de desajeitado.

Coisa linda, né?
Não.
Alguns não chegam e se espatifam na pradaria.
Onde obviamente raposas espertas esperam o pobrezinho sifu para nhac.
E a ave mãe faz meia-volta e sobe para o penhasco com cara de folha.
Simples assim.

O diálogo mental deve ser algo assim:

- Vai, filhão! Vai, filhão! Força! Isso!
- Ff-ff-fff-fff-ff (bater de asinhas)
- Ops.
- Nhé.
- Nhac.

- Foi mal.

E eu vendo.

Ontem era a migração dos gnus.
Manadas e manadas.
Um milhão e meio de gnus.
Só de filhotes, numa migração dessas, nascem 500 mil.
Pra que tanto?
E leões na pradaria esperando o povo passar.

Already picture that?
You bet.

Pior: os leões iam em cima de quem?
Dos filhotinhos, é claro.

Desliguei a tv revoltada.
De hoje em diante, vou de ultimate fighting.

Day two, day two - in the freezer

Meu, quem me colocou na bandeja de gelo do freezer?
Me sinto um cubinho vestnido casaco fleece, moletom e meias.

***

Ainda lendo o parecer que vai extinguir as instituições de educação especial com a 'proposta' de 'educação inclusiva para todos'.

Nada contra a educação inclusiva. Desde que bem feita, planejada e executada.

Meus filhos estudaram, quando pequenos, numa escola cuja proposta era a educação inclusiva. Tinham amigos portadores de síndrome de Down, paralisia cerebral, surdez moderada. Foi maravilhoso. E dava certo. Porque era bem feito.

Mas.

Você põe aí os mais variados graus de deficiência e comprometimento mental, motor, do crescimento e do desenvolvimento - no mesmo saco, infra e superdotados - num sistema educacional que não dá conta sequer dos alunos 'regulares', e pressente a catástrofe que será tal medida.

Capacitação dos profissionais (professores da rede pública) para lidar com esses alunos?
Verbas fixas e realmente comprometidas com a 'proposta'?
Instalações físicas adequadas? Material idem?
Continuidade e fiscalização dos serviços?
Avaliação?

Vislumbre uma sala de aula composta de alunos regulares, autistas, portadores da síndrome de Down, portadores de transtornos difusos do desenvolvimento (psicoses infantis, hã?) + professores sem conhecimento e experiência para lidar com eles + falta de material apropriado para trabalhar com as crianças com necessidades especiais + escolas fisicamente caindo aos pedaços + yada, yada, yada.

Vamos ver.

Ainda estou lendo.

So far, detestando.

***

Pessoa feliz com a chegada de novo documento de identidade, onde, agora, pessoa, nascimento e número enfim se encontram em total harmonia.

***

Pessoa reafirma: uma coisa é comida insossa; outra coisa é vida insossa.



saudade da moqueca de camarão com pirão e farofa amarela da Gisele...

***

A planta mimimi (a que não gostava de sol, água nas flores e nas folhas e golpes de vento) parece que não resistiu à ausência da pessoa.
Nunca topei frescura.
Confesso que, por mais bonita que fosse, não nutria simpatia pela gracinha.

Em compensação, o pé de manacá está carregado de flores roxas e brancas.
E o jasmim e a trepadeira estão de fato trepando na varanda - leia-se: subindo pela grade.
Vai ficar lindo.
Uma cortina natural e cheirosa.



***

Próximo subcapítulo: alucinógenos.
Tradução, é claro.
E eu que ando desesperada por 1 g de sal no meu bifinho insosso.
O que não faz a solidariedade...

***

Fui visitar minha mãe e a cachorra (a poodle, a poodle!) não me reconheceu.
Minha mãe também não.
A coisa tá feia...

***



depois disso



e disso



e disso

You are fired!

***



retorno: os seus, os meus e os nossos - a estreia.

Tucson is my name.

Day One, day one, starts all over again

Muito, muito, muito trabalho a fazer. E uma dor de cabecinha chatinha de fundo que acompanha o tlec-tlec no note.

Filhos de férias suínas por quinze e dez dias, respectivamente, por ordem de idade. E adiada a grande experiência reveladora do ônibus que passa pelo mundo até chegar ao Fundão, ah, mas como eu queria ver a criatura quase loira, quase linda, quase príncipe sacolejando aquele charme de Rainer em trajes de mendigo uma hora para ir, outra para voltar. E comendo no bandejão a dois reau.

Não, não sou má, não estou mangando do moleque, mas a transição da realeza para a plebe é sempre muito interessante. Há que se pisar no outro território para ver como é a vida real. E, como ele mesmo disse ao justificar parte de sua ida para a universidade pública (além do curso dele ser reconhecidamente o melhor do país naquele fim de mundo sem fronteiras), "o governo vai pagar agora de volta o que meus pais investiram na minha educação durante mais de 10 anos". Ok, o moleque vai longe. Só falta agora pegar nas armas.

Enquanto isso, livre de crioncinhas maleducadas e seus papis e mamis reféns, encaro a semana de dois trabalhos simultâneos, um cliente novo off-med, mas ainda dentro dos mares que sei navegar. A ida ao mercado online, coisas light, e tome verdura, fruta e queijo magro...

Ontem me deliciei (ok... fiz que revirei os olhinhos de prazer) com um sanduba de peito de peru esquálido, tomate e cottage regado a suco de uva light. Jesus, que trem bala! Fechei os olhos e fiz que comia um sanduíche-íche de mortadela com uma Malzbier bem gelada. Mas a gente acostuma. Bem que tentei, na ida ao posto para comprar meus Bensons, cheirar um brigadeiro, mas a moça que faz nem tinha entregue. Pobre não tem sorte mesmo...

Vida que segue.

E o analista voltou da licença.

Não sei nem por onde começar. Talvez nem ele saiba.

Semanas assim

Não, não, não! De forma alguma foi uma semana perdida. Trabalhei feito gente grande. Mergulhada na desgraça de alcóolatras, esquizofrênicos, bipolares e afins, de frente para um jardim escandalosamente lindo, e a chuva cantava, e neca de vento, e havia 190 guris e gurias de bico logo ali porque prometeram um baita campeonato e a coisa não andou.

Isso tudo regado a muita sopa de batata baroa, inhame, peixe assado com ervas, cabelinho de anjo com carne moída - uma deliça, não obstante a total ausência de sal. E muita coca-cola tarja preta (a zero, a zero), limonada suíça e suco de uva (sem álcool mesmo). Tudo cheio de sorrisos. Amabilidades, gentilezas. A mais preciosa das amizades - aquela que quer vê-lo bem; que quer a sua vida e os seus melhores momentos para sempre.

Os cães fiéis, um filho que se revela um lutador, uma grata surpresa de uma nova amizade de onde jamais imaginei que sairia. Ah, os longos papos e gente que gosta de viajar e de fazer análise. Ops! Nós existimos - gente que gosta de fazer análise.

E a atual namorada-companheira-amiga do peito do mavioso psicanalista agora descobriu que há dois levantares de sobrancelhas dele: quando falam asneiras, a esquerda dá uns tremelhiques; quando falam algo interessantíssimo, a direita ergue-se uns dois milímetros, não bastasse aquele par de olhos azuis que inspiraram o Criador a criar todos os mares do universo bem embaixo das ditas-cujas.

Ah, os mares... O que nos fazem os mares!

Cinco crianças maleducadas depois, eu consegui concluir minhas metas diárias com perfeição. Entre e gritaria nos jogos de Monopólio e as manhas na hora de banho, comer e dormir, oh, dear lord, eternamente grata pelas duas criaturas maviosas que vivem comigo há 18 e 14 anos, respectivamente, e que sabem comer à mesa, falam baixo, não cospem na minha cara e conhecem perfeitamente 'por favor' e 'obrigado'.

Sou uma afortunada. Três horas depois, dirigindo como um cágado entre ondas de suores frios e mal-estar, encontro minhas plantas carentes, um filho que gentilmente arrumou tudo, a casa pintada e limpa e mais uma folhinha do calendário que se vai (quase levando setembro junto).

A impressão de vida nova, renovada. E o mais importante: sem promessas.