Das laudas para o coração
A formatura não é lá muito glamurosa; os parentes torcem o nariz quando você diz que é tradutor; duvidam que você sustente uma família com o seu trabalho; amigos e 'simpatizantes' teimam em pedir que você traduza o manual do videogame do pimpolho e, geralmente, você precisa 'desenhar' o que faz ao se declarar tradutor em entrevistas, papos ou preenchimento de questionários e formulários.
Ok. Qualquer ameba passa num vestibular de Letras? É o que dizem. Não sei. Lembro de ter estudado pacas. E qualquer um conclui o curso com um mínimo de esforço. Depende. Saí da faculdade e lembro de colegas que sequer tinham entrado na biblioteca uma só vez para estudar ou consultar uma referência.
Daí você ganha o anel de pedra roxa, o canudo e parte para o mercado. E descobre que o mercado parte com você. Notebook chique, dicionários caríssimos e pesados, programas state-of-the-art e, algumas laudas depois, você descobre que não é nada disso. É saber ler. E saber escrever. Entender, basicamente. Estudar, estudar, estudar. Os que criam limo, 'mexem' com tradução.
Um médico não 'mexe' com medicina. Um engenheiro não 'mexe' com cálculos. Um professor não 'mexe' com educação. Mas o tradutor, ah, sim, este 'mexe' com tradução. Só me vem à cabeça um tradutor abraçado a uma folha de papel sulfite dançando lambada. Foi o que aprendi com três profissionais que não 'mexem' com tradução e que me ensinaram, ao longo de cursos e palestras, a devida valorização que EU deveria dar ao meu ofício: Danilo Nogueira, Isa Mara Lando e Lia Wyler - não por ordem de importância; foi alfabética mesmo e proposital. Meus ouvidos estiveram bem apurados para ouvir o que me diziam. E minha mente aberta para me autocriticar constantemente, para ser uma profissional cada vez mais exigente e caprichosa (e por que não 'orgulhosa') com o meu ofício.
Hoje, 22 anos depois daquele dia de julho inesperadamente quente em que fiz como oradora o discurso da minha formatura, lembro com carinho, orgulho e satisfação esse caminho. O das noites viradas, o dos orçamentos negados, o dos risos e choros, o de cansaço e trégua; os pesados livros de medicina na cama na hora de dormir para estudar anatomia e fisiologia; o das pesquisas na rede para ouvir uma dúzia de sons cardíacos diferentes buscando o melhor termo para definir um sshhh-plá; mas principalmente o de encontros com colegas, com profissionais como eu, com as mesmas dúvidas, angústias e lutas, prazeres e perdas, tendinites e poucos dias de férias por ano.
Os amigos que eu fiz através do meu ofício são os melhores hoje. Não os teria feito se não fosse a tradução. E o quanto que aprendo com eles, e o quanto nos ajudamos! Nas laudas e na vida.
Das laudas para o coração. Sem escalas.
É deles, é meu, é nosso este dia. No qual comemoramos a grande paixão que é fazer diferença.
Feliz dia do tradutor para todos nós.
***
Update
Como os filhos não se manifestaram e hoje eu tenho direito não só a um prosseco, aos parabéns e uma boa dose de #mimimi (tradutor é bicho dengoso!), resolvi comunicá-los do Dia do Tradutor.
- Ó, dê os parabéns, beijo na mãe, porque hoje é dia do tradutor!
Um, com uma fatia de pizza gelada nas mãos, de saída para a faculdade, deu um beijo rápido e riu.
Well. We are made of the same cast, I'm sure.
O outro, do celular no intervalo da escola, e anos-luz à frente na cadeia alimentar, respondeu em voz adolescente mutante e rouca:
- Todos os dias são seus, mãe.
Preciso de um teclado à prova d'água.
A room with a view
janela é moldura do quadro
why not to wake up?
***
Foram as que eu baixei. Depois tem mais.
***
Galinhada, bom vinho, ótimo papo, décadas de afinidade.
A natureza rica, exuberante, silenciosa.
Vontade de ficar lá.
É. Tipo para sempre.
Onde se tem paz.
E os aviões de carreira não passam sobrevoando nossas torres.
***
Tradução
Semana de atender a dois textos simultaneamente.
E tão antagônicos quanto neurônios e unha do dedão do pé.
De qualquer jeito, antropologia é o assunto da vez.
Apaixonante.
Agora é alocar Lindinha para um e Killer para outro.
Ou fazer com que eles se entendam e trabalhem em equipe.
Academia?
Oi?
(Ok. Me 'propuseram' uma opção B. Acho que vou pegar.)
***
Update
'Anteouvido' lá da sala, guri no telefone ensinando francês prum outro:
- ... uma mulher aí, Marie Curei, sei lá.
Levantei feito um raio e deliguei a tv.
Eu sei que o guri está em semana de provas e tal, precisa de uns 15 minutinhos de relaxamento quando chega de um provão de química na escola, mas vamos e venhamos, Marie Curie virar "uma mulher aí" é dose.
Se ainda ele estivesse falando da mãe dele, vá lá.
***
O universo masculino é realmente impressionante.
Não posso deixar de me arregalar com as coisas que vejo.
As que são muito, muito, muito diferentes das que já vi/via/achei que visse.
Virou, mexeu e é BBB: bebida, bola e ... ok, mulher.
Meanwhile, as mulherzinhas - sim, nós, de unhinhas pintadas e protetor labial ao sol - falamos sobre "muito além dos hormônios".
E papo regado a água fresca e pura da fonte.
***
Mas então a gente recolhe os galhos.
***
Psicografando
O despertador do quase-lindo tocou para irmos à academia.
Aí desaba um temporal. Vento fazendo uuuuuuuu.
Quase-lindo virou pro lado e dormiu.
Eu, vocês sabem...
***
Passo o sonho inteiro às voltas com um pássaro.
Cuidando dele.
Tinha minha mãe brigando comigo, falando mal de um monte de coisas; meu tio com uma nova mulher; um cara que eu nunca vi na vida.
A casa da serra.
E uma montanha de sapatos espalhados pelo terreno.
Copos d'água que eu enchia e vinha alguém e bebia, deixando sempre um pouquinho no copo.
Ou seja: eu chegava para beber e era aquele tiquinho que não matava a sede.
No fim, salvei o pássaro.
Terminei com ele nas mãos.
Era azul e branco.
O bom disso tudo é que daqui a uma semana eu entendo.
Ou não.
***
Tradução fluindo como rio em mata verde.
Um chuá.
Bom demais traduzir algo completamente diferente do que vinha fazendo.
E enquanto traduzo, reflito sobre o tema.
O que não dá pra fazer quando o assunto é pereba, bypass cardíaco ou pâncreas.
***
"Esquizofrênicos somos quase todos nós. Ou bipolares. Psicopatas. Em um grau ou outro, somos um pouquinho.
Uns se afogam. Outros levantam a cabeça e se recusam a pular.
Pior são os que fogem pelas frestas, certos de que se 'safaram'.
Não tem isso. Mais dia, menos dia, com ou sem divã, chega uma hora em que todo mundo precisa e vai se olhar no espelho. Nem que seja para quebrá-lo.
Mas uma nova imagem é sempre possível.
Desconstruir e reconstruir é uma arte ainda mais complexa do que construir.
Não tem manual. Não tem teoria. Não tem como intelectualizar.
Exige maestria, sangue frio, coração aberto.
Destes, hoje careço de um.
Ainda assim, não dá pra ficar doente.
É sempre uma questão de escolha."
***
Going to the woods.
Oh, yeah.
Linha direta
Problema de rico?
Não!
Pobre é uma merda. Não pode ver promoção de camarão que corre pra comprar.
Foi o que eu fiz. Encomendei dois quilos de camarão. Pensando em risotos, empadões, saladas.
E o infeliz veio com casca.
Congelei o troço pra tomar ânimo de descascar aquilo tudo.
Ontem, ao tirá-lo do freezer - ah, um bom risoto com salada verde! - alguma parte do corpo do maldito furou meu dedão pra valer.
Foi é sangue. E dor. Dói pra caçamba!
Fiquei eu com cara de ó chupando dedão a noite toda.
Só faltou o travesseirinho e um teddy bear.
***
eu: ó, todo poderoso!
Ele: Diga, minha filha. O que é agora?
eu: por que se eu compro uma dúzia de bananas elas estragam e eu tenho que correr feito uma louca pra bater um bolo e aproveitá-las, mas se eu compro meia dúzia de bananas a matilha as devora verdes ainda e pergunta se era só aquilo de banana?
Ele: Acalmai-vos, filha... eles fazem para enlouquecê-la mesmo. Não dê bola.
eu: mas, Senhor, deve haver uma solução lógica.
Ele: E há, filha. Só não há mesmo para o mistério insondável da pasta de dentes sem tampa, do rolo vazio de papel higiênico, do saco de lixo menor que a lixeira, das embalagens de biscoito vazias na despensa e das cinco garrafas d'água com um dedo de água na geladeira.
eu: oh, Senhor...
Ele: Compre nove bananas.
eu: nove?
Ele: Nove. Você destroi o padrão da matilha. Não faltarão bananas. Não sobrarão bananas.
eu: Sério?
Ele: Em verdade, eu vos digo: pode confiar, filha.
eu: Valeu, grande!
***
Vento leste
Sorte no jogo, dizem.
Não sei.
Dois novos clientes.
Um, a galinha dos ovos e ouro.
O outro, um antigo sonho profissional agora realizado.
Eu tinha pingado uma ficha.
Pedi duas cartas.
Sem blefar.
Flush.
Royal straight, parece.
Vai dar certo.
Porque, acho, são quinze anos só em 'med' acreditando em fazer sempre o melhor.
Dia menos um
Sim, é verdade.
Traindo cada célula do meu corpo, cada mitocondriazinha que vai maldizer minh'alma pelo resto dos meus dias, escolhi uma terça-feira para (re)começar.
Plano completo na promoção.
Posso fazer tudo aquilo que mais odeio no mundo: musculação, esteira, aeróbica, alongamento, hidroginástica (a tortura-mor), boxe tailandês e uns troços de nome muito esquisito.
Daí cai um dilúvio de noé ontem.
E um frio de rachar às 6 da manhã hoje.
Como o quase-lindo, frequentador diário inclusive aos sábados daquela câmara de tortura também dorme como um anjo enrolado em seu cobertor Tam, eu tenho um álibi.
- A-há, você não foi!
- A-há, você também não!
Amanhã.
Juro, prometo.
Mas hoje um moletom quentinho entrou pela minha cabeça, abraçou meu peito e caiu deliciosamente por cima da calça de helanca.
Não vai rolar.
Hoje, com sorte, tem aula de francês.
***
Repousa no meu cavalete de trabalhos uma autorização para criança ou adolescente viajar para o exterior.
Em branco ainda.
Lá se vai ele, o lindo, estudar na França.
Veio ontem cheio de mapas do metrô, folhetos e guias.
Fui dando as dicas, fazendo comentários, recomendando pontos.
Os planos eram outros.
Os dele continuam.
Os meus estão em compasso de espera e reavaliação.
Já recebi a carta da école.
Fica por aqui. Uma hora eu respondo. Não deve demorar.
Por enquanto, vou curtindo o guri do alto de seus 14 anos e seus olhos que brilham quando ele fala da visita à casa de Leonardo da Vinci, Versailles, Musée Maritime, Louvre, almoço a 6 euros e Marais.
Saudade do caramba!
Quase primavera
Eu parei e fiquei olhando.
Preciso tentar.
Tem uma bolsa bege lá em cima do lindo armário novo que não consigo alcançar.
***
Acordei assustadíssima.
Cinco minutos antes, tinha um mar de tartarugas na minha varanda.
Não eram duas ou três, nem umas oito ou dez, mas uma pá delas, centenas.
Andavam vagarosas pra lá e pra cá.
E eu, de vestido de festa, toda arrumada, pintada, salto alto e tal, observando horrorizada as bichas.
O meu inconsciente é assim uma coisa maviosa!
(Estou quase com saudades da insônia)
Em tempo: eu morro de medo de tartaruga.
Medo mesmo. Pânico. Horror.
Sou capaz de chorar se alguém puser uma delas na minha mão.
Uma vez, pequenino ainda, Bruno pôs uma tartaruga na minha perna.
Não lembro bem. A última coisa de que me dei conta era o ambiente escurecendo.
Contam que eu fiquei branca total.
Não dizia uma palavra, muda, lívida.
Só as lágrimas escorrendo pelo rosto.
***
Ontem tomei uma sapatada de um cara.
Grosso toda a vida.
Assim, gratuitamente.
O homem surtou ao telefone e saiu espanando.
Era um corretor.
Disse que virei 'persona non grata'.
E eu tenho sérias dúvidas.
Não de que eu de fato o seja, mas que ele saiba o que significa isso.
No fim do dia, grata surpresa.
Fui atendida com doçura e educação por uma moça chamada Marilinda.
Vejam só como há pais fofos neste mundo.
Marilinda.
E ela era, sim, linda.
Uma finura de pessoa.
E fofa.
Conseguiu multiplicar ali, em cinco minutos, a minha humilde poupança por um milhão.
Assim, pá-pum.
Uma deusa.
Se fosse mal-resolvida, tinha se apresentado como 'Mary'.
Mas como era de bem com a vida, esticou a mão e se disse Linda.
Eu preciso aprender a fazer essas coisas.
***
É uma coisa absoultamente torturante esse tempo cinzento, o chuvisco, o friozinho e eu saber que existe Sessão da Tarde.
Pior: pipoca no armário.
Sem mais para o momento, subscrevo-me atenciosamente.
Hoje é segunda-feira e, sabem como é, tem aquela coisa de pagar os 27% de imposto pro governo.
Tempo, tempo, tempo, tempo...
Escuro, luzes apagadas, baladas dos anos 60 no som.
Um esticando no barzinho depois das aulas da faculdade. Outro numa festa de 15 anos depois do treino de barco.
- Agora, sim, eu podia ter 20 anos!
Mentira.
Porque aos vinte eu estaria na 'fissura' da festa, da balada, de ai meu deus que alguém vai ligar.
Aos quarenta e quatro, de repente vira um grande barato ouvir as baladas, terminar meu livro, tomar uma dose de uísque coçando de leve uma cabeça.
Em silêncio.
Aquele, o dos inocentes.
Nove da manhã, as mesmas baladas da noite anterior no som, água pros passarinhos, plantas cuidadas, cama feita, o mesmo silêncio sepulcral de gentes, e o grande barato não é mais a ida à pracinha ou à praia, mas tomar café da manhã num lugar com vista espetacular.
Na santa paz.
Aquela, a dos tolos. Dos que, um dia, conquistam a libertadora des-ilusão.
Bom fim de semana.
Post-it
patinhos feios só se transformam em cisnes em contos de fadas.
***
Brincar de gato e rato pode ser divertido.
Principalmente quando o rato foge entre os móveis e o gato assiste a correria lá de cima do lustre.
***
Pra bom entendedor, ponto é um texto inteiro.
a couple
Programas legais
é sentar e escutar o silêncio
orquidário
(orquídea com catapora ...)
dá pra acreditar que essa fofurinha é carnívora?
(bom, dá. tem muita 'gente' bonitinha e fofinha por aí travestida em carnívora)
espero eu que meus bambus chineses não fiquem desse tamanho
***
Fui a um cartório tirar uma certidão.
Senha daqui, espera dali, fui atendida por gente muito amável.
Garantiram que eu sairia dali meia hora depois com o tal documento.
Quinze minutos depois, estava pronto.
Bom.
Quase já na rua, percebi que na certidão constava o ocorrido errado com a pessoa errada.
Volto eu.
Mil desculpas, consertam o erro.
Quase já na rua, leio a assinatura da escrevente:
Drácuyla.
Vejam só o que pai e mãe podem fazer por uma pessoa.
Depois morrem esfaqueados e não sabem por quê.
***
Na volta, peguei um táxi.
O motorista dirigia como um motoboy.
Resolvi fechar os olhos.
N'importe pas.
Em outras épocas, teria pedido pra parar e saltava.
***
"Qualquer caso tem a rapidez de uma pane. Não será o barco vagaroso, empurrado da areia para o oceano, como no namoro. Está em alto-mar desde o início.
Essa vertigem seduz muitos amantes, que entendem a entrega como um amadurecimento sobrenatural do amor, a descarga elétrica como se fosse química para o resto da história. É um encontro em estado de emergência, um desespero epidérmico, um pânico comunicativo, uma pressa para se consumir.
Tudo parece definitivo porque desligaram as censuras."
Bienal II
as tais árvores falantes
(se você me perguntar o assunto, não vou saber, nem adianta)
***
Os estandes mais cheios: os de livros em promoção a 2,50, 5 reais, 10 reais.
Os infantis.
Teatro infantil (vamos combinar: tem coisa mais chata?)
Show de marionetes (a Bia parou e curtiu... ai, ai...)
Eu quis tirar foto com o lobo mau. Não deixaram.
Gente antipática!
Ziraldo, com fila bombando.
Os de mangás - passo.
O de literatura de vampiro - passo (cá entre nós, estava lindo).
O ponto alto foi o diálogo pescado (sempre eu) no estande da livraria francesa.
Jovem de 20 e poucos anos, jogando cabelo e falando mole, com um minidicionário de francês na mão.
Vendedor paciente.
- Eu queria um livro bem basiquinho de francês.
- Pois não. Essa coleção aqui é ótima. Bem básicos e legais.
Ele estica um.
- Não... tem pouca figura.
Ele estica outro.
- Não é bem isso. Eu queria algo do tipo quadrinhos, sacumé? Porque se a gente não entende o que está escrito - e eu não sei nada de francês - dá pra entender o contexto pelas figurinhas.
- ? (vendedor com cara de Q)
- Eu aprendi inglês e espanhol assim. Comprava quadrinhos, procurava umas coisas no dicionário e me baseava nas figuras para entender o que estava escrito.
Eu gelei.
Darling correu para fora com o livro sobre Luis XV na mão.
Mas eu fiquei pra ver o final. Adoro emoções fortes!
- Então você talvez goste disso (e estica Asterix e Tin-Tin)
- Isso! Obrigada! Valeu, bro.
Tá. Entendi.
Depois do terceiro gibi, ela põe lá no currículo dela: fluente em inglês, espanhol e francês.
É a vida em sua beleza irretocável.
***
Obra.
Pedreiro.
E o troço acaba cheio de gatos.
A-ca-ba-men-to.
O tal capricho, artigo raro e em extinção.
Faz. Refaz.
"Tá ruim aqui, aqui, aqui e aqui."
Não é chatice, não.
Mas se você paga por um serviço, é pra ficar bem-feito.
mas tudo vale a pena para acordar ao som de passarinhos com uma vista assim
Bienal
Sábado à tarde e a Bienal lotada. Lo-ta-da. E piorou ainda mais quando acabou o horário de praia. Putz.
Era muita gente, vocês, sabem, eu tenho problema com ‘gente’.
Era uma pá. Hordas. Cardumes. Gerações. Manadas.
Muito lindo de se ver, ok, mas tava demais pra mim.
Calor, desorganização em vários aspectos, mas se tem uma palavra para definir a Bienal é ‘democracia’.
Era o povo lá, mas povo mesmo.
Segunda palavra: ‘crianças’.
A Bienal virou programa pra criança. Pelo menos no fim de semana.
Ponto.
Entrei na tal ‘floresta’ de livros por insistência da Bia.
Ah, viu?
A grande vantagem das árvores é serem mudas, e aquelas ali falavam sem parar!
Tava muito bonito.
Filas i-men-sas para pagar os livros.
Desamina.
Amanhã subo umas fotos porque hoje estou com preguiça, o dia está lindo e radioso, e eu não vou ficar aqui djeitonenhum.
Anyway, o saldo bom foi um Susan Sontag, um de ervas aromáticas e um de jardinagem.
Uma raspadinha de tangerina, uma fatia de pizza, uma coca-cola.
Ah, teve churrascaria antes.
Onde me esbaldei de comida japonesa, ô, troço, devo estar ‘tanza’, como diz a Bia.
Legal, mas legal mesmo (me desculpem, mas é legal pra caramba) foi ver no estande da editora seis (seis, 6, meia dúzia, yeah!) livros traduzidos por mim.
Uma sensação muito gostosa reconhecer a capa como quem olha o seu filhote, abrir o tijolão e meu nome estar lá.
Bacana olhar pro lado, apontar o nome e dizer, “ó, mãe, sou eu!”
E seis vezes.
Então saí de lá exausta, mas feliz, realizada.
Até me dar conta de que perdemos o carro no estacionamento...
***
Cliente novo, off-Brazil.
Medicina, claro.
Cliente direto, claro, daqueles que falam com você, que te dão prazo decente, pagam bem, conversam com o tradutor sobre a tradução sem um PM no meio.
(eu nunca vi nem lidei um PM, pero que los hay, los hay...)
Eu esperava há uma semana pela notícia.
Agora posso dar.
Sabe aquele cheiro de carro novo? Pois é.
Bom demais, né?
Nine-eleven
Às de lá.
E, um ano atrás, às daqui.
***
Ontem à tarde, do carro, vejo o guri treinando sozinho.
Absolutamente sozinho.
Assim é alguns dias por semana, quando os deveres não apertam.
Não sei no que vai dar lá na frente.
Mas que ele é um exemplo de amor e dedicação, não tenho dúvida.

***
Shopping pós-Freud:
você entra preta e compra uma bolsa amarela e outra vermelha.
Eu não entendi muito bem.
Mas adorei.
***
Fui ver a programação da Bienal.
Hum.
As palestras agendadas? Passo.
Os "happenings"? Passo.
Daí vi um tal 'Rei do Churros' na praça de alimentação.
E o aluguel de carrinhos de compras por 4 reais.
Taí.
Churros e um carrinho de livros.
Peguei.
***
Falando em livros, estou me deleitando com o "Como me tornei estúpido", de Martin Page.
Divertido e seríssimo ao mesmo tempo.
Gosto desse tipo de histórias incomuns, as que nos provocam leituras, sentimentos e humores diferentes.
Nesse mar de 'literatura cabeça-quanto-mais-falo-difícil-melhor' e livros de vampiros, tem sido uma delícia.
É fininho. Nem dói.
So far, recomendo.
***
Tenho lido umas coisas de poesia contemporânea brasileira na internet.
É de chorar.
Mas gente cult é gente cult, e a turma dos sapatos esquisitos adora e cita.
E eu, a anta, que só sabe dois poemas de cor: um de Vinícius de Moraes e outro de Emily Dickinson.
O que é um acontecimento.
Porque sou daquelas totalmente incapaz de decorar os afluentes do Amazonas.
No que era para decorar, ferrou.
Early bird
E nem foi a bexiga que me acordou. Nem tamanco de vizinha, uivo de cachorro, a comlurb passando ou o temporal caindo. Parece que tem um 'desesperertador' (seria o nome mais apropriado para a geringonça, misto de despertar e algo desesperador no ato em si) em mim ultimamente. Acordo com ondas de náuseas, a camisola suada e o coração em pocotó. Sonho? Nem.
Às quatro e meia da manhã tem um passarinho que canta estranho. Já me disseram ser rouxinol, o tal nightingale, mas confesso que não morro de amores pelo canto, pois é a prova viva e sonora de que eu não deveria estar acordada e de pé àquela hora.
Às quatro e meia da manhã não há luz, não há café, as araras ainda dormem nos galhos, os caga-sebos estão entocados num canto qualquer e tem um vento frio na varanda. Tem o cara entregando jornal, e eu observo o ir e vir dele entre prédios e o carrinho cheio de papel. Não há pão fresco, computador ligado, notícias, apenas o ronronar do ventilador de teto do meu quarto e do ar condicionado do quarto dos meninos.
As plantas parecem dormir também. Compartilho de um estado vegetal com elas. Mexem-se ao sabor do vento pra lá e pra cá, e eu sequer me atrevo a arrancar ervinhas e matinhos para não acordá-las. Esperamos juntas os primeiros raios de sol (que não vêm por trás das nuvens cinzentas) e os primeiros pássaros do dia. Assim ficamos nós por algum tempo até que clareia e o primeiro caga-sebo vem atrás da água fresca que já coloquei na garrafinha. Pousa na rede de frente para mim, fica me olhando, talvez se perguntando por que diabos essa mulher maluca está de pé, acordada, de vestido já, olhando o dia que custa a chegar. Ele não bebe a água, se intimida com a minha presença, e eu decido que, se vou de fato trabalhar, um bule de café fará bem. O suco de laranja desce empurrando as ondas de enjoo e a fraqueza da noite.
O primeiro par de olhos sonolentos me encara na cozinha, o beijo quente no rosto, a imagem do que deixa de ser menino, não tem camisa para a escola e hoje não vem almoçar por conta do trabalho de desenho. O cheiro doce da colônia, o beijo de pasta de dente, sorriso escovado e sempre aberto, e eu rezo, em silêncio, para que ele sempre volte. Para que sempre que sairmos, voltemos. E, hoje, para que ela volte, pelo menos um pouco - a doçura, a delicadeza, a pureza, o afeto generoso e incondicional. Aquela. A que alguns meses atrás estaria dormindo às quatro e meia da manhã. A que não deixaria faltar camisa limpa e bolo de banana com açúcar e canela. A que abriria as janelas da casa e borrifaria lavanda pelos cômodos. A que tinha fé.
Tempo e desejos

Comma pendant
(é um troço assim a minha cara, né, não?)

Bree bag
Objects of desire.
(Ainda) há uma mulherzinha em mim.
Fase de mentalização I.
***
Não vi o tal 09:09:09h de 09/09/09.
Estava comprando ovos e queijo.
Quando voltei, já tinha passado.
E tinha um trabalho à minha espera.
Alvíssaras!
***
BTW, o que havia às 08:08:08h de o8/08/08 já passou.
Como passam os segundos e os anos.
E a gente se toca que passa a ver/sentir as coisas de um outro modo.
Como dizia o sábio Paulinho (o da Viola), "só o tempo".
***
Amiga termina a noite de ontem dizendo estar de saco cheio de gente besta.
Couldn't agree more.
Mas há muito tempo estou cheia delas.
Aliás, nunca tive mesmo saco pra elas.
Só que agora, com ajuda de Freud e umas boas porradas, sei o que fazer com elas.
Baforadas.
***
Noite mal dormida por conta do MAPA.
É um aparelhinho que mede a pressão arterial durante 24 horas.
O troço fica lá, apita a cada 20 minutos, o manguito infla, aperta o braço, e depois é um tic-tic-tic até completar o processo.
Assim é por 24 horas.
Meanwhile, você tem que anotar tudo o que faz ao longo do dia.
"Levantei", "sentei", "estou no banheiro", "lavando louça", "dirigindo".
Só passar a tal listinha de atividades a limpo já foi uma diversão.
Há itens indizíveis.
Oscilações
Fui toda feliz para o orquidário do Jardim Botânico só para me dar conta que o engarrafamento monstro era causado justamente pelas orquídeas. Vejam só! Antes era celacanto provoca maremoto. Agora, orquídeas param a zona sul do Rio.
De rabo de olho, vi a fila imensa, ah, claro, a tal gratuidade. Deve ser. Tô fora. Nem por elas encaro uma fila daquele tamanho, e meu humor estava pra lá de péssimo por conta da fome. Parti para um daqueles ‘restaurantes de tribo’ – só como informação, lugar onde os sapatos são estranhíssimos, as tatuagens são imensas, vários celulares à mesa, cabelos cuidadosamente despenteados, mães que insistem a 30 decibeis que Flora faça carinho nas plantinhas, ai meu deus, que saco, mas graças a deus os pratos não têm aquelas descrições de ‘espuma de’, ‘redução de’, ‘panachê de’, ‘ganache de’.
No meio do caminho, frustrada, suspirei, aliás, quase gritei mais alto que meu estômago: “odeio gente”! É verdade. Ando cada vez mais cheia de gente. Gente em geral. Ainda mais uma pá de gente.
Ok. Sempre há a opção polianesca de voltar para casa, sentar-me em frente à minha orquídea roxa, estourar umas pipocas (sem sal) e abrir um guaraná (zero). Mas eu odeio guaraná, juro, não sei como tem gente no mundo que suspira e revira os olhos por um guaraná, mas, sim, é produto nacional, então é politicamente correto gostar de guaraná. Eca. Mil vezes eca. Não tomo mesmo.
Faxina pós-prandial, rasguei papéis, que é uma coisa que eu adoro fazer, limpei a mesa de trabalho, passei paninhos mis, e hoje sigo com um super backup de tudo.
Sim. Logo às seis e pouco da manhã, eu vi a tela azul. Tô falando, tô falando. Esse troço aqui que anda fazendo barulho de aspirador de pó dos anos sessenta está pedindo pista. Hora de olhar as promoções de notebooks e desktops, embora esteja seriamente tentada a abolir de vez os desktops da minha área de trabalho. Decluttering I am.
Preciso rever minhas taxas hormonais. Urgentemente. A quantidade de vezes que só ontem tive vontade de mandar meio mundo à merda foi assustadora. No real e no virtual. No pessoal e no profissional. Ou seja, a julgar pelo estado de retenção de líquidos e o humor lábil, melhor checar. Mesmo com a visita ao jardim do éden no domingo, mesmo com o pedido de casamento dias atrás (com direito a olhos arregalados, frio na espinha e ausência de resposta so far), mesmo com o trabalho num ritmo mais humano, mesmo com as flores florescendo e tal, teve uma hora ontem, enquanto esperava minha mesa ficar pronta e degustava umas lulas dorê, em que suspirei ou quase gritei de novo mais alto que meu estômago:
- Eu hoje podia matar um.
Vai um litiozinho básico aí, santa?
***
Eu tinha um texto prontinho sobre vaidade, que me veio inteiro enquanto eu escovava os dentes.
Mas daí cuspi a pasta e ele se foi.
Dia desses, quem sabe.
Jardim do Éden
Tipo, boi na linha
mas hein?
Meus amigos P. e F. embarcaram há uns 10 anos num projeto de vida diferente: simplificar.
Sumidos estavam.
Agora entendi por quê.
Eu também não sairia daí.
Adquiriram um grande espaço de terra protegida e preservada por lei pelo qual hoje são responsáveis, têm direitos e deveres para com a terra, as plantas e a água, e área limitada para construir.
Ali plantaram (e continuam plantando) centenas de espécies diferentes de palmeiras, bromélias, frutíferas e flores daqui e do mundo inteiro.
São do tipo que trazem mudas de viagem.
Ops. Identificação total.
Virei freguesa.
E, de outra feita, levo de presente uma muda de lavanda para um canteiro novo.
Coisa linda, linda, linda.
O resto é vaidade (tá no Eclesiastes).
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Hoje último dia da exposição de orquídeas no orquidário do Jardim Botânico.
Orquidário patrocinado e mantido pelo Antonio Bernardo, nosso talentosíssimo joalheiro.
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"O que é preciso é não perdermos alguns focos: ir conhecer a riqueza dos frutos e flores dos amigos na serra.
Curtirmos sermos desejados.
Queridos.
Afins."
Foi o que recebi ontem depois de um discurso meu inflamado sobre amizade, vaidade, decepção e o sem-noção geral.
Obrigada à minha irmã pelas palavras sempre sensatas, sensíveis e antenadas.
É isso aí.
Coberta de razão.
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"Estamos aqui metendo o pau em fulana. Venha, junte-se a nós."
Depois de uma longa baforada no meu Benson:
"Ah, estou ficando velha e cansada pra isso. Além do mais, pouco conheço dessa senhora para falar bem ou mal dela."
Realmente a quadratura de Jupiter e Urano não anda muito favorável à minha paciência.
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eu: senhor?
ele: sempre alerta, filha.
eu: me explica...
ele: fala que eu te escuto.
eu: por que sempre que dormimos na véspera de um feriado dizendo 'ah, que bom, amanhã posso acordar tarde', os olhos abrem despertos e espertos às seis e quarenta da manhã?
ele: shei, foia...
eu: o senhor está mastigando?
ele: brigadeiro. de colher.
eu: tem no céu?
ele: suprimento vitalício, filha. assim como coca-cola e dormonid sem receita.
eu: jura?
ele: tranquilizai-vos, filha. só o item jantar a luz de velas com Gianechinni está esgotado por toda a eternidade. e com o hare baba também está acabando.
eu: não, senhor, só queria dormir o sono dos justos. principalmente nos feriados.
ele: acalmai vossa alma, filha. o bom sono eterno vos será concedido.
eu: sem interrupções?
ele: sem vizinhas com tamancos, cães que latem, lixeiro que passa - eu vos asseguro.
eu: brigadeiro de colher... daqueles que têm casquinha crocante de vez em quando pra grudar nos dentes?
ele: certamente, filha, certamente...
Pavarotti
Este é Pavarotti.
Em sua nova casa.
Presente meu para amenizar uma solidão.
Alguém para cuidar.
Alguém para interagir.
Uma vida em casa.
Uma companhia.
Um pouco de alegria.
Obs: Antes de ser criticada, declaro que odeio passarinho preso em gaiola, peixe em aquário, essas coisas. Mas isso aí foi por uma boa causa. Cinco minutos de janela e o bichinho abriu os pulmões e cantou canto dobrado. Melhor: seu novo dono abriu o maior sorriso.
Mission accomplished.
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No caminho, com o canário no carro, parei para comprar umas flores e descobri um oásis urbano. Um lugarzinho que não só vende flores lindas, como também mudas e ervas.
Ômigod. Pronto.
É claro que saí de lá com mais duas mudas de maria-sem-vergonha em novas tonalidades para encher meu vaso de marias; duas mudas de lavanda que plantei para dar de presente; e uma promessa de mudas de trevo para semana que vem.
De lá para a meca das ferramentas a 'apetrechos para o lar'.
Eu sou uma criatura estranha, que baba na frente de um display de ferramentas.
Enquanto o povo enchia carrinhos de velas aromáticas e tapetinhos de banheiro, eu nadava num mar de black and deckers, tramontinas e que tais.
Ainda terei um cortador de grama.
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Com tempo cinza, chuvinha e tudo, lá vou eu, pé na estrada, um dia para purificar a alma e os pulmões.
C'est ça


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"Todo jardim começa com um sonho de amor.
Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e lagos tenham nascido dentro da alma.
Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles. "
Domestiquices
Lua cheia linda, Vênus ao lado bem nítido, noite clara, brisa morna, o perfume das alfazemas e do jasmim.
Suspiros.
E os malditos bichinhos de luz me expulsaram da varanda.
A natureza às vezes é muito chata, viu?
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Linha Direta
eu: - Deus? Oi? Taí?
Ele: - Oi-oi-oiê.
eu: - Me explica uma coisa: por que há nesta casa quatro vidros de condicionador e nem um único vidro de xampu?
Ele: - Ah, filha... tranquilizai-vos. Meninos não usam creme no cabelo.
eu: - Não é creme, santíssimo. É condicionador. Pra deixar a gaforinha macia e tal.
Ele: - Filha, acordai. Meninos não ligam para as próprias gaforinhas macias.
eu: - E eu gastando dinheiro à toa com creme!
Ele: - Filha, escutai: uma barra de sabão já está de bom tamanho.
eu: - Ah... Valeu.
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Bichinho de luz fica preso à gaforinha, ao emaranhado de cachos.
Meu cabelo está cabelão.
Preguiça de cortar.
Curtindo uma fase assim meio Bethânia.
(limpinha, macia e cheirosa -- só pra esclarecer)
Fico eu quem nem besta atordoada com o zzzzzzz do bichinho nos cachos.
Sacudo (ai, a labirintite!), espano (ai, a cervical!) e nada.
Banho.
Gastar os tais litros de condicionador, né?
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Computador fazendo barulho estranho.
UuuuuuuUuuuuuuuuUUUUmmmmmmm.
Parece um aspirador de pó.
Não estou gostando.
E já vi esse filme.
Acabou no dito-cujo frito, fritinho da silva.
Um dia, pá, morréu.
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Passo eu pela sala e sinto uma ‘presença’.
Ops.
Tinha alguém ali.
Embora eu estivesse sozinha em casa. Sinto um movimento à minha direita, um farfalhar de asas.
E lá está, um caga-sebo, pousado feito um rei em cima da minha orquídea.
Ela, a quem estou tratando a pão-de-ló, muito mimimi, vem cá coisinha e tal.
Ele se assusta e sai pela varanda em disparada.
Como prova, deixa uma peninha amarela na planta.
Não sei mais o que eles querem.
Sinceramente.
Dou água fresca, mamãozinho, bananinha.
É o quê?
Camarão com catupiry?
Figos frescos?
Alface hidropônica?
Água Perrier?
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“Depois da inauguração dos apartamentos no Complexo do Alemão, Lula pediu a Pezão (N.T.: secretário do governo) que todos os apartamentos do PAC tenham varanda.
É que, para o presidente, varanda tem clima romântico.
Além disso, segundo Lula, também é onde o marido pode soltar PUM sem fazer feio perto da mulher.”
Ah, bom!
Ancelmo Góes – O Globo, hoje.
Você lê um troço desses às 8 da manhã e sente que seu dia vai ser muito feliz.
E quando formos nós?
Fiquei abismada com a quantidade de gente reclamando, e não só reclamando, mas entrando numa cold turkey de dar dó. Síndrome de abstinência, diziam. Como se não interagir, não comunicar-se, não falar, não ouvir, não compartilhar fossem como a grande falha da nave Apolo: failure is not an option.
Isso me preocupa. E me impressiona.
A total incapacidade das pessoas de ficar em silêncio consigo mesmas, ler um livro, molhar uma planta. Simplesmente adiar aquele e-mail, que, cá entre nós, não vai salvar a mãe da beira do precipício. Simplemente deixar de dizer no twitter que comeu um pedaço de bolo de laranja divino. Deixar de visitar uma página, clicar num link, jogar conversa fora no Msn.
Não sabemos mais contemplar. Hoje é interagir. Comunicar(-se) o tempo todo. Pouco nos sobra para nós mesmos. Tempo para leitura, para curtir uma música, ver um filme, folhear uma revista, bater papo. Tudo fica muito longo, muito demorado. Impaciência, pressa. Não sabemos mais esperar a vaga, a página abrir, o sinal ficar verde, o passo dos velhinhos, os sistemas que caem. Aqui, por exemplo, o mau humor atinge níveis alarmantes quando “a internet cai”, ou quando o sinal da tv a cabo “some”.
Esse “precisar interagir e comunicar(-se)”, essa dependência que desenvolvemos ao longo dos anos – e quanto mais recursos e gadgets temos, pior – vai virar doença, se é que para alguns não virou, na forma de uma ansiedade descontrolada. O que foge ao controle – ao autocontrole – é ruim, é quase sempre demais. Várias vezes estive em mesas com pessoas que checavam e-mails ou tuitavam no celular. A conversa rolando paralelamente, você parada no meio de uma frase, ou dizendo algo que o outro não está ouvindo. É o que vejo em rodas de amigos. Ou em reuniões pós-trabalho, onde o objetivo seria relaxar, descontrair. E os smartphones (as opposed to my ‘dumbphone’) acabam servindo como bolas de ferro presas com largas correntes nos pés do usuário (“usuário”? Aliás, quem usa quem? Quem é dono de quem?).
Então ontem, quando vi pessoas aparentemente ‘desesperadas’ porque o Gmail caiu, a exemplo de uns meses atrás quando o Twitter ‘caiu’, fiquei muito impressionada. Não entendo essa relação que estamos fazendo com as “mídias” – leia-se, os “meios”, não é? Não conseguimos mais parar, desligar, puxar nossos fios da tomada. Falo na terceira pessoa genericamente, pois percebo que cada vez mais vou na contramão dessa história. E não me sinto involuída, atrasada, não sinto que estou perdendo ou deixando. Pelo contrário: sinto cada vez mais facilidade – e prazer – em estar me distanciando disso, se é que de fato consegui me aproximar ao ponto de ter ‘entrado’. Simplesmente não consigo interagir o tempo todo. Não consigo estar ‘on’ o tempo todo. Preciso de silêncio e introspecção como qualquer animal precisa de comida e água. Vai ver é o meu ‘pasto’ mesmo. Vai ver é. Mas desligar é uma necessidade minha. Estou tão longe de um smartphone quanto estou perto de uma cadeira plantada no meio de um gramado simplesmente observando, pensando, refletindo, ouvindo o que me cerca. Não quero ser encontrada o tempo todo, estar disponível 24/7, ou um dia pensar que algo terrível vai acontecer porque não atendi o celular. Que se eu 'sumir' de alguma 'rede' as pessoas vão pensar que morri. So what?
Invariavelmente meu iPod, meu eReader e meu netbook estão com a bateria descarregada quando os ligo. Uso por necessidade e só. Andei me sentindo sobrecarregada por informações. E muito. Uma espécie de angústia. Uma indigestão de sopa de letras em excesso. Era muita coisa que eu lia; era muita participação em mídias sociais; era muito forum, muita ‘comunidade’. Acabamos ‘achando’ muito sobre tudo e, na verdade, achando nada. Deve ser, acho eu, um processo de ‘decluttering’ longo e necessário. Me voltar mais para dentro do que para fora. Olhar mais os processos do que os dados.
Ouvidos cansados.
Olhos cansados.
Ou fechar olhos e ouvidos para enxergar e escutar melhor.
Vai ver.
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Não, não achei a menor graça na cantora que errou o hino.
Se bebeu, fumou, tomou o que fosse ou embarcou em qual viagem, não me interessa.
Como disse uma colega, certamente algo não ia bem com ela.
E eu morro, morro de pena de ver pessoas expostas ao ridículo.
Tenho horror a essa ridicularização de pânicos e youtubes em geral.
Sinto uma pena enorme.
Pior do que não estar bem é os outros fazerem você se sentir pior.
A vida não é uma videocassetada.
É o tal problema da exposição.
Quem tem o direito de expor o pecado alheio, o sofrimento alheio, o mau momento?
E quando formos nós?
Será tão engraçado assim?
Domestiquices
O armário novo ficou líndio.
Só preciso fazer rapel para alcançar os casacos no andar de cima.
Melhor: elevador com ascensorista e Burt Bacharach tocando ao fundo.
A cada pulôver que for buscar, rain drops keep falling...
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Tem alguma coisa estranha quando um filho começa a usar roupas da mãe?
Digo, as ex-roupas da mãe?
Digo, um varapau de 18 anos e 1,85 m?
Explico: das 2.757 peças de roupa de que me desfiz na faina de tirar tudo do armário, descobri coisas que datavam do século passado, quando eu era um ser esquálido e triste pesando 48 kg.
Fiz uma pilha de roupas para dar e, dali, o guri tirou duas Levis tamanho jamais caberei nela novamente não importa quantos quilos eu emagreça ou quantas lipos eu faça. Como são modelos unisex, ficaram um brinco nele (ops).
Camisetas brancas que viraram minibRusa em mim (e Min não usa minibRusa desde a última cesariana) ficaram perfeitas nele. Realçaram os músculos recém-adquiridos na cadimia e na piscina.
Pensei em dizer para ele experimentar uma saia preta que eu adorava, mas achei que já era demais.
O fato é que ontem ele saiu daqui vestido de mãe para a faculdade.
De onde trouxe um interessantíssimo texto sobre luta de classes em educação.
(É, tá só começando...)
***
Há muito tempo eu não via meus filhos chorando.
Confesso que fiquei sem ação ao ver as lágrimas descendo naqueles rostos lindos, a expressão de dor, de saudade e de perplexidade.
Não sabia o que fazer.
Enlacei as cinturas de cada um - eu no meio -, e esperei passar.
Porque é assim que acontece.
A gente espera passar uma dor.
Qualquer que seja.
Algumas até não passam nunca.
Mas nos acostumamos até que elas se tornam velhas amigas: você sabe que ela está ali; não é preciso que ela apareça sempre.
***
Ai, mel dels que ontem eu fiquei emocionada.
Achei meu cachecol amarelo.
Aquele que meu pai me trouxe de uma viagem ao Uruguai.
Onde estava?
Numa caixa onde estão todos os outros cachecois.
Pois é.
E, juro, eu o procurei por três anos...
***
Eu podia ter feito mais.
Podia ter feito melhor.
Sempre acho que podia.
